Cinema Experimental

Por André Lipe

Até hoje pouco discutido, raras vezes visto e minimamente compreendido, uma manifestação cinematográfica intitulada UNDERGROUND, que aconteceu nos Estados Unidos a partir do final da década de 1950, atravessou os conturbados anos de 1960 e viu sua decadência na década seguinte, revolucionou a produção, distribuição, exibição e crítica do cinema, com um esquema totalmente independente da grande indústria e com propostas estéticas experimentais muito diversificadas; na época não foi compreendido nem pelos intelectuais que realizavam as revoluções dos ‘cinemas novos’, que classificavam as obras provenientes deste movimento como tipicamente burguesas, já que geralmente não continham aquela afetação esquerdista e revolucionária tão presente em obras como as de Godard, Rocha, Gravas.

Porém, a revolução plástica e até mesmo de conceitos sobre o cinema propostas pelos cineastas pertencentes a este grupo, hoje com o acesso a essas obras propiciado pela rede de informação, assume um vulto significativo.
Em primeiro lugar, a diversificação de temas e formas deste movimento faz levantar a questão sobre o que homogeneizava o mesmo, e chegamos a conclusão de que, sem dúvida fora o esquema independente e marginal adotado por estes cineastas, que realizavam suas obras desde o caseiro 8mm até exibições com seis ou mais projetores, com temas que iam do homossexualismo até a mais radical anarquia, demolindo instituições e valores morais.

Vale destacar alguns cineastas, como Kenneth Anger, considerado o vovô do movimento ao lado da cineasta Maya Deren, pois começaram a realizar seus filmes ainda na década de 1940; Anger pode ser considerado como um dos precursores do vídeo-clip pois seus filmes, apesar de ter uma temática central mais definida pelo título, apresentavam um fluxo de imagens oníricas sobrepostas, personagens e cenografia pra lá de rococó transformando a experiência de assistir a suas obras um delírio psicodélico com um grau de interpretação altamente subjetivo (isto em obras como Inauguration of the Pleasure Dome (1954), Lúcifer Rising (1966) ou Invocation of my Demon Brother (1969) ; Anger também realizou, ainda na década de 40, Fireworks (1947), onde ele mesmo representa um adolescente espancado, estuprado e morto por um grupo de marinheiros, culminando com o pênis de um deles se transformando em fogo de artifício.

A experiência lisérgica, muito em voga na época com a utilização de LSD, cogumelos e peiote difundida quase como um sacramento nos meios contra-culturais, foi registrada em um realismo mágico através de obras experimentais como Peyote Queen (1965) de De Hirsch, o belíssimo Chumlum (1964) de um cineasta maldito e de poucas obras devido a sua morte precoce chamado Ron Rice, Normal Love (1963), do anárquico Jack Smith que havia feito o incômodo Flaming Creatures em 1962 onde retratava propositalmente de uma maneira tosca pessoas após uma orgia. O grande catalisador do movimento foi Jonas Mekas e sua revista Film Culture, que também fundou uma Cooperativa para a realização, distribuição e exibição destes filmes; Mekas realizou muitos ‘diários’, onde retratava de uma maneira experimental e muitas vezes caseira o cotidiano de personalidades como John Lennon, Allen Ginsberg.

As técnicas adotadas pelos cineastas eram muito amplas, como arranhar diretamente o negativo do filme, sobreposições de imagens, lentes de distorção, pintura direta sobre a película, colagens e muitas outras.
Tony Conrad radicalizou completamente com The Flicker (1965), seqüência de quadros brancos e negros que geravam um efeito estroboscópico que poderia ocasionar ataque epilético em pessoas com esta propensão; muitos anos depois, já em 2004, o cineasta Ken Jacobs, que também pertencia ao movimento na época, realizou Celestial Subway Lines, Salvaging Noise, utilizando a mesma técnica só que filmando texturas em preto e branco que variam vagarosamente sob o efeito estrobo, propiciando alucinações, já que depois de um determinado tempo ( o filme dura 68 minutos) nosso inconsciente começa a projetar imagens sobre o que vê e acreditamos de fato ter visto coisas além das texturas.

Há muitos nomes a serem citados e muitas obras a serem vistas e assimiladas, mas um cineasta que gostaria de lembrar pelo tanto que experimentou e por tornar sua própria vida motivo de um cinema não convencional é Stan Brakhage.
Além de realizador foi também um teórico: seu Metaphors on Vision, publicado em 1963 na Film Culture, é um manifesto que propõe uma reeducação do olhar e da percepção, ‘descoisificando’ objetos e cores, como se estivéssemos diante deles pela primeira vez e sem preconceitos: quantas variáveis de verde um bebê vê diante de um gramado? Em obras como Dog Star Man (1959-64), onde o filme é montado fotograma por fotograma, não buscando a ilusão do movimento, ele abdica até do som para que as imagens não nos remeta a nenhum pré-conceito, para que o som não a contextualize.
A luz captada pela lente da câmera queima o filme e quando o mesmo, em sua ruína, parte do projetor e sobre o branco da tela desfila suas sombras, essas se refletem ao expectador que aí encontra terreno fértil onde emergem memórias e percepções profundas, valores relativos a existência e a morte, numa legítima busca à Deus, livre de qualquer ideologia ou estética.
Devido a isto, segundo o cineasta, o cinema não deveria se apropriar da figuração visual, pois a mesma implicaria em uma narrativa e, consequentemente, uma moral. Sua proposta é redescobrir o mundo e a ti mesmo através do olhar, numa entrega contemplativa, não reflexiva, um ato mágico.
Em suas palavras: ‘Imagine o jardim como você quiser – o crescimento se dá fundamentalmente no subterrâneo’.

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