É o cão … Uma análise sobre a relação das obras cinematográficas e o capeta.

Por André Lipe

Desde as primeiras narrativas da história da humanidade o fétido perfume exalado pelas flores que brotam a beira do abismo fascina, e com o domínio do cristianismo no mundo ocidental moderno passou a ser representado pela Estrela da Manhã ou o anjo rebelde entre as hostes celestiais, Lúcifer, ou para os menos poéticos, o Satanás, o rabudo, o chifrudo, etc.

Haxan – Benjamim Chistensem (1922)

No cinema não foi diferente e desde seus primórdios já havia obras retratando esta sombra do deus convencionado. Haxan (1922), do diretor dinamarquês Benjamin Christensen já se utilizava de cenas de tortura para apresentar a história da feitiçaria através dos tempos, numa mistura de documentário e ficção que posteriormente ganhou uma narração de Willian Burroughs; e até diretores como o pai da montagem clássica do cinema, David W.Griffith e o dinamarquês considerado o criador do primeiríssimo plano Carl Dreyer já mostravam o demônio tentando o homem no decorrer da civilização (em Intolerance-1916 e Blade af Satans Bog-1921, respectivamente).

Intolerance – David W.Griffith (1916)

A Alemanha, que assombrava o mundo com filmes influenciados pelo expressionismo nos brindava com obras como Fausto (Faust-1926) de F.W.Murnau, adaptação de Goethe onde um velho vende a alma a um demônio e é seduzido pelo poder e O Gólem (Der Golem-1920) de Paul Wegener e Carl Boese, retratando a comunidade judaica que invoca com sua magia um guardião das trevas para protegê-los da opressão.
Mas o infernal sucesso do pai dos malditos nas telas sem dúvida se deu com O Exorcista (The Exorcist – 1973) de William Friedkin, seu precedente O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby – 1968) de Roman Polanski e seu sucessor A Profecia (The Omen – 1976) de Richard Donner, até hoje os maiores clássicos do gênero.


Faust – F.W. Murnau (1926)

Porém, falar destas obras é ser repetitivo, citamo-las por não ter como omiti-las; queremos tratar aqui das obras que ficaram trancafiadas nas masmorras dos gostos vigentes pelo teor agressivo ou até mesmo ridículo que apresentam. Ainda na década de 1970 temos duas jóias: O Anticristo (L’Anticristo-1974) de Alberto de Martino e Alucarda (1978) de Juan Lopez Moctezuma.


Alucarda – Juan Lopez Moctezuma (1978)

O primeiro é uma produção italiana bastante densa que retrata a história da filha paralítica de um influente personagem do Vaticano que é possuída pelo demônio e o segundo se tornou um cult por sua fotografia colorida como num conto de fadas, interpretações femininas histéricas e personagens pra lá de bizarros.
O cineasta espanhol Jess Franco (tio Jess, para os íntimos), que fora assistente de Orson Welles e que mais adaptou obras do Marques de Sade para o cinema, enveredou pelos campos do satanismo em muitas produções onde uma se destaca (dentre várias, repito, já que ele realizou mais de 130 filmes) pelo primor técnico e transgressão do tema: é Love Letters of a Portuguese Nun (1976), onde uma inocente jovem descobrindo sua sexualidade é surpreendida por um padre e levada a um convento onde se praticam rituais satânicos, sendo o próprio padre um satanista; é um exemplo clássico de nun-exploitation, gênero que pariu muitas obras nos anos de 1970 e que tem como ambiente da trama conventos (seria necessário um texto somente para enumerar as várias obras e diretores deste subgênero).


Love Letters of a Portuguese Nun – Jess Franco (1976)

O próprio José Mojica realizou um filme interessantíssimo sobre o tema da possessão com Exorcismo Negro (1974), com sua característica meta-linguagem e a brasilidade com que trata seus filmes terceiro-mundistas.
O Cão, como não poderia deixar de ser, enveredou também pelo erotismo, por exemplo, com o estranhíssimo Sacrilege (1971) de Ray Dennis Steckler, onde uma sacerdotisa do mal seduz um rapaz e o tosco Malabimba (1979), do não menos tosco Andréa Bianchi, onde há cenas de sexo explícito.
E por falar em pornografia, não podemos deixar de registrar O Diabo na Carne de Miss Jones (The Devil in Miss Jones-1972) de Gerard Damiano, sobre uma virgem que corta os pulsos e é recebida no inferno, onde recebe a sua iniciação sexual; até hoje é considerado um dos melhores pornôs dos anos 1970, clássico.


Malabimba – Ray Dennis Steckler (1979)

Na década de 1980 houve a grande proliferação: para iniciar, o maior clássico do gênero deste período A Morte do Demônio (Evil Dead-1983) de Sam Raimi, rompeu as barreiras do permissível e realizou um escatológico e desesperado bacanal de sangue e possessão (hoje parece até ridículo pelos fracos efeitos e exagero das maquiagens, mas na época chegou a ser proibido em vários países).


Evil Dead – Sam Raimi (1983)

Depois disso, tudo foi permitido: Demons (1985) de Lamberto Bava, e suas duas continuações, Society (1989) de Brian Yuzna, com uma seqüência final no mínimo surreal, Premutos (1997) do alemão Olaff Ittenbach, e um clássico hoje não muito lembrado, anterior ainda a Evil Dead, O Mensageiro de Satanás (Evilspeak-1982) de Eric Weston, onde no melhor estilo vingativo de Carrie, um gordinho que é zoado pelos companheiros em um colégio militar faz um pacto pelo computador e trucida seus amiguinhos dentro de uma capela.


Society – Brian Yuzna (1989)

Mas não só de vísceras e sexo viveu o chifrudo no cinema, haviam obras como Adoradores do Diabo (The Believers-1987) de J.Schlesinger, bastante influenciado pelo filme de Polanski e o clássico e surpreendente Coração Satânico (Angel Heart-1987) de Alan Parker, que se apropria de uma narrativa e fotografia noir para mostrar um elegante Lúcifer (Robert DeNiro) que vem cobrar uma dívida.
Não tão elegante, mas também bastante surpreendente e cheio de citações é Advogado do Diabo (Devil’s Advocate-1997) de Taylor Hackfort.
Também se aproximando do humor (não vou citar Todo Mundo em Pânico, Rê-Possuída ou outros pastelões que se apropriam da paródia), o diretor e animador tcheco Jan Svankmajer realizou duas obras que merecem ser lembradas por sua criatividade, sadismo e humor-negro: Faust (1994), outra adaptação de Goethe e o mais recente Insanidade (Sileni-2005), com direito a um sanatório administrado pelo Marques de Sade.


Sileni – Jan Svankmajer (2005)

Tudo dito até agora é para dar um retrospecto sobre o tema, mesmo sabendo que muitos títulos eu omiti por não lembrar.
Mas quero destacar três obras por suas inovações e até mesmo pela aura de maldita que as cercam.
A primeira é uma produção de 1965 (reparem bem, antes mesmo de Rosemary’s Baby), toda falada em esperanto, que é Incubus, de Leslie Stevens. Com uma belíssima fotografia em preto e branco, uma ambientação onírica e planos finais assustadores, ainda ficou muito conhecida e cultuada porque várias pessoas que participaram da produção morreram ou sofreram acidentes.
O filme é bem opressor e narra a história de uma jovem demônia que seduz e mata suas vítimas porém, se vê enamorada de uma dessas vítimas e decide abdicar do reino das trevas.


Incubus – Leslie Stevens (1965)

O segundo filme,Slaughtered Vomit Dolls do canadense Lúcifer Valentine 666, como se entitula esse diretor, é pérola única do cinema, o único que considero realmente blasfemo, pois ataca não a instituição igreja ou a fé de seus seguidores, mas com muita poesia gore decide ir contra o Criador, é satânica neste sentido filosófico.
A qualidade plástica, o domínio da linguagem cinematográfica, seu discurso poético, mórbido e transgressor tornam este filme único.
Numa página na internet de divulgação do filme, chegou a postar um pacto seu com o demônio.


Slaughtered Vomit Dolls – Lucifer Valentine (2006)

São duas histórias mais duas seqüências intercaladas que, sem cair no trash, conduzem-nos a imagens fortes e irreversivelmente gravadas em nossa mente, não tem misericórdia.
Se Deus representa o amor, a justiça e a caridade, esta obra é, sem dúvida a sua sombra, seu oposto.

ReGOREgitated Sacrifice – Lucifer Valentine (2008)

Este dito filme, acompanhado de sua seqüência ReGOREgitated Sacrifice (2008) tem como atriz uma jovem de sobrenome Lavey (o mesmo do líder da igreja satanista, Anton Lavey, retratado nos documentários Satanis, The Devil’s Mass e Angeli Bianchi, Angeli Neri) e é um festival de atrocidades, realizados em digital, com um tratamento de áudio cabuloso e utilizando-se de recursos de edição bastante criativos.
É isso, libertemo-nos de nossos preconceitos para apreciarmos com prazer essas transgressões que brotam à beira do abismo.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Sr.Elton disse:

    Olha o Masmorra aí! eu pesquisando sobre os filmes do Lucifer e me deparo com essa bela matéria de vocês ^^

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