“The Proposition” é um filme violento e brutal, mas imensamente poético…

 

 

A gangue dos irmãos Burns é procurada pelo estupro e o violento assassinato de uma mulher grávida. Depois de um tiroteio, dois dos irmãos são detidos, Charlie (Guy Pearce) e Mikey (Richard Wilson), o mais novo. O capitão Stanley (Ray Winstone), deixa Charlie em liberdade na condição de ele matar o seu irmão mais velho, Arthur Danny Huston, o chefe da gangue. Para garantir este acordo, Stanley mantém Mikey preso e Charlie tem 9 dias para cumprir o acordo. Caso contrário, Mikey será enforcado.

O argumento do músico Nick Cave, numa linguagem própria mas inteiramente crível, faz uso de uma terra austera e sem lei – a da Austrália de 1880 – para contar a história de dois homens, cada um com o seu dilema. O arco evolutivo de Charlie e de Stanley, o seu antagonista, movem-se paralelamente, enquanto o primeiro vive com introspecção o dilema de escolher entre o irmão mais novo e irmão mais velho (entre a inocência e a crueldade), Stanley oscila entre a lei e um código de justiça que ele julga mais eficaz. Ambos agem segundo a crença de um poder moral mais elevado, mas ambos se mostram incapazes de prever as consequências dos seus actos.

Stanley (Ray Winstone), cuja decisão choca os restantes guardas, ansiosos por vingança, e em especial o seu superior Eden Fletcher (David Wenham), um sádico burocrata que representa toda a dureza do colonialismo, tenta domesticar uma terra que ele considera selvagem, ao mesmo tempo que tenta proteger a sua mulher Martha (Emily Watson) de toda aquela agrura. Na sua aparente fragilidade, Martha representa a força moral e a ilusão da civilização, tranquila na sua elegante casa colonial, com o seu jardim no meio de uma paisagem desértica.

“The Proposition” é um filme violento e brutal, mas imensamente poético, sobre escolhas, sobre amor e traição, sobre vingança e redenção. A sua intensidade reside sobretudo nas suas personagens complexas e ambíguas, cheias de cinzentos e imprevisíveis – que permitem todas elas grandes interpretações. Há uma iminente sensação de tragédia, quase épica pela dimensão das paisagens, por um céu vasto e vazio. O calor e o suor, a sujeira e o pó, as moscas e as árvores mortas, enchem este filme de pessimismo e desespero.

O design de produção de Chris Kennedy e a fabulosa fotografia do francês Benoit Delhomme dão um enorme poder emocional às impressionantes paisagens do interior australiano. A música de Nick Cave e Warren Ellis passeia-se por “The Proposition” como um fantasma – em especial o tema “The Rider” – impregnando este filme de uma força que restitui ao Western o seu antigo misticismo.

Realização: John Hillcoat.
Elenco: Guy Pearce, Ray Winstone, Emily Watson, John Hurt, Richard Wilson, Danny Huston, Tom Budge, David Wenham, Robert Morgan, Boris Brkic, Iain Gardiner. Nacionalidade: Austrália / Reino Unido, 2005.

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2 pensamentos sobre ““The Proposition” é um filme violento e brutal, mas imensamente poético…

  1. Poxa, que ótima crítica! Vocês estão de parabéns. Confesso que fiquei muito instigada a ver o filme que, para variar, também não o conhecia. Mas está aqui na minha lista, vou procurá-lo agora e quando eu assistir, venho comentar com mais autoridade.

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