Dali e Disney,seu Destino, Fantasia e Sonho…

 

 

Guardado numa caixa em algum lugar da Califórnia está um velho negativo com cerca de 15 segundos em cores de um filme único na história da arte do século XX. O filme mostra duas figuras “bizarras” com cabeças humanóides (similares a cabeças normais) deformadas pelo estilo “persuasivo e loucamente triunfante” de Salvado Dalí. As cabeças estão sobre cascas de tartarugas. Quando se juntam, o espaço entre elas forma o desenho de um sino, que se transforma numa bailarina. No último momento, a cabeça da bailarina abruptamente se transforma numa bola de beisebol… que desaparece numa desolada paisagem montanhosa.

Parte dessa curta cena pode ser apreciada durante o filme “Fantasia 2000”, quando Bette Midler mostra idéias não produzidos pelos animadores – antes do segmento “The Steadfast Tin Soldier”.

O pedaço de película com mais de 50 anos é tudo o que restou de um projeto animado esquecido chamado “Destino”, uma curiosa colaboração entre o artista surrealista Salvador Dalí e Walt Disney que nunca foi completada. As razões para “Destino” nunca ter sido finalizado ficaram ocultas por mais de cinco décadas, até que o jornalista Christopher Jones encontrou materiais do desenho após a morte de seu pai, Tom Jones, em 1992. Num escuro sótão no Vale Loire, onde Tom Jones morava, seus filhos encontraram entre seus papéis uma coleção de notas, negativos nunca vistos antes, e velhas fotografias que ele fez quando era agente publicitário de Disney. Christopher Jones relembra que uma vez seu pai o levou a noite para visitar o escritório de Walt Disney onde havia um quadro – o retrato de Júpiter – uma pintura de Dalí feita para “Destino”. Christopher diz que vendo todo o material encontrado no sótão, ele nota que a versão completa de “Destino” seria uma sensação sem medidas, uma revolução cinematográfica usando técnicas a frente de seu tempo.

Afim de deixar claro alguns mistérios do projeto, o jornalista Christopher Jones começou a telefonar para todos que pudessem ter alguma informação. Buscando entre antigos empregados da Disney e amigos de Dalí – alguns com mais de 90 anos, a pesquisa correu lentamente… até que o telefone tocou. Era John Hench, ligando da Califórnia. Nos anos 90, Hench era vice-presidente sênior da Walt Disney Imagineer, e na época de “Destino” ele já era um artista de alto-nível, trabalhndo em filmes como “Fantasia” e “Dumbo”.

Em “Destino”, Hench foi chamado para ensinar a Salvador Dalí a técnica de animação Disney. Dalí, na época, descreveu Hench como uma “silhueta espectral”, que sabia melhor que Dalí ou Disney os segredos do filme.

Excitado pela idéia que alguém finalmente se interessou em “Destino”, Hench decidiu revelar os mistérios do filme e descrever detalhes de uma das parcerias mais estranhas já criadas na Hollywood da era de ouro. Salvador Dalí disse que seu destino era “salvar pinturas do niilismo da arte moderna”. E o homem escolhido para levar suas pinturas surrealistas para as telas de cinema não era outro senão o criador de Mickey Mouse – Walt Disney.

De acordo com Hench, as finanças da Disney eram precárias em 1946. O estúdio havia perdido uma linha de crédito do Bank of America quando “Fantasia” provou ser um desastre em 1940, fazendo com que as dívidas se acentuassem. Para salvar o estúdio, Disney foi obrigado a recorrer ao bilionário Howard Hughes. Mesmo com o sucesso de “Dumbo” um ano depois, um animado brilhante de 64 minutos sobre o bebê elefante, o estúdio acabou perdendo o mercado europeu quando a Segunda Guerra Mundial foi iniciada. O estúdio ainda foi tomado pelo exército nos anos de guerra, e Disney acabou forçado a produzir cartoons para treinar as tropas, além de criar designs cômicos para as insígnias da aeronáutica. Muito foram os serviços prestados por Disney que nunca foram pagos, mas o estúdio estava se recuperando financeiramente.

Walt decidiu que filmes “pacote” – curtas-metragens diferentes “empacotados” num longa-metragem – pareciam ser um risco menor de fracasso. Disney, sempre alerta a oportunidades, poderia dividir o filme e realizar as seqüências separadamente e recuperar o investimento, porque muitos curtas (naquela época) precediam muitos filmes nos cinemas.

Pouco tempo depois, Disney decidiu convidar grandes nomes entre os artistas e autores para o estúdio. “A bilheteria seguirá a qualidade”, Disney dizia aos nervosos homens do dinheiro e seu czar financeiro – o irmão Roy O. Disney.

Por muito tempo Disney evitou festas em Hollywood, preferindo exercitar seu hobbie favorito: “brincar” com a réplica de uma locomotiva a vapor que circulava o terreno do estúdio. Mas numa das poucas festas em que comparaceu, Walt foi apresentado ao casal Salvador e Gala Dalí por Jack Warner em 1945 (cuja festa estava sendo realizada na casa deste magnata do cinema).
Os Dalí ficaram sentados com os Warners, enqüanto o pintor surrealista pintava os seus retratos. Nesse ponto, Walt e Salvador iniciaram uma longa amizade peculiar.

Nessa época, Disney já era fascinado com técnicas modernas de arte, e já havia as experimentado em 1939. Críticos elogiaram a seqüência abstrata de “Fantasia” como remanescente de Kandinsky e Miró. Hench supervisionou o segmento usando imagens abstratas pela primeira vez em um filme Disney, Com isso, o estúdio já tinha alguma experiência com novos tipos de técnicas, o que seria essencial para a futura parceria. Walt e Salvador Dalí rapidamente fizeram um acordo, com Dalí concordando em trabalhar num projeto para o estúdio. Quando os dois se encontraram, Dalí havia sido convidado para trabalhar em seu primeiro filme em Hollywood, a seqüência do sonho em “Spellbond” de Alfred Hitchcock, cujo produtor David O. Selznick havia o convencido a criar. Dalí moveu seu cavalete e suas tintas para os estúdios Disney em 1946.

Por algum tempo, o projeto permaneceu secreto para grande parte do estúdio. O trabalho do pintor catalão Salvador Dalí era preparar um seqüência de seis minutos combinando animação com dançarinos ao vivo e efeitos especiais para um filme no mesmo formato de “Fantasia”. Disney originalmente planejou usar “Destino”, uma balada romântica do compositor mexicano Armando Dominguez, em um curta-musical apresentando a cantora e dançarina Sul-Americana, Dora Luz. Mas a palavra “DESTINO” acabou levando Dalí ao entusiasmo, o que o fez criar desenhos imaginativos, selvagens para ilustrar suas emoções.

O enrêdo do filme variava de acordo com a descrição de cada artista. Dalí dizia ser “Uma exposição mágica do problema da vida no labirinto do tempo”. Já Walt Disney dizia “Somente uma simples estória sobre uma jovem garota em busca do verdadeiro amor”.

Dalí rapidamente adotou a rotina do estúdio. Por dois meses, ele chegou pontualmente todos os dias às 9:30 da manhã e trabalhava em seu cavalete. O artista normalmente almoçava no restaurante executivo do estúdio – “Coral Room” – com Disney e Hench, ou com os empregados do estúdio conversando com sua mistura de línguas quase indecifrável: uma mistura de francês, espanhol, catalão e um “mal” inglês. Sua esposa e musa, Gala, freqüentemente o acompanhava ao estúdio para inspirar, interpretar, ou apenas ficar de olho em seu marido. Quando ela estava lá, Dalí era mais produtivo, criando desenhos para serem utilizados junto a trilha musical pré-gravada.

Trabalhando num ateliê no terceiro andar do antigo “Animation Building” dos Estúdios Disney, Dalí e Hench estavam criando completamente uma nova técnica de animação., o equivalente cinematográfico a “paranoid critique” de Dalí.
Este método, que teria pouca conexão com o título, é enormemente inspirado pelo trabalho de Freud no subconsciênte e na inserção de imagens ocultas duplas no trabalho de arte. Dalí apresentaria uma imagem que o espectador reconheceria como sendo uma coisa…. e lentamente força o espectador a visualizar formas estranhas na imagem, que podem eventualmente revelar algo novo.

John Hench cita: “Todos nós sabemos que D.W. Griffith inventou tudo no cinema, mas Dalí elaborou um método que ninguém havia visto antes. Imagine uma cena com dois esquiadores na neve. Nada muito especial… somente um par de esquiadores. De repente o panorama estaciona em uma montanha nevada. Nada mostra que a cena mudou, com excecção dos esquiadores que estão fora da tomada. De repente a câmera regride e somente agora vemos a imagem completa. As montanhas da cena tratam-se dos seios nus de uma mulher nua! A substituição foi sendo apresentada desde o início da seqüência, mas os olhos insistem que é neve o que está sendo observado (mesmo reconhecendo as formas femininas), até que finalmente nós admitimos de que é uma mulher e nada mais.”

Nada havia sido criado até então: combinar surrealismo e animação. Nos anos 40, filmes como forma de arte não estavam na agenda dos estúdios. Muitos filmes eram produzidos com simples estórias e eventualmente se tornavam clássicos como “Casablanca”, mas muitos eram imemoráveis. Mas Disney queria que a animação deixasse de ser coisa de criança e se tornasse de vez uma forma de arte. É claro que, com o cancelamento de “Destino”, a chance de ganhar o reconhecimento seria perdida para sempre. “Destino” poderia modificar o que conhecia-se até então como animação.

Um dia em 1946 quando John Hench dirigiu-se a Monterey, Califórnia, num estúdio próximo ao velho Del Monte Lodge Hotel, ele encontrou Salvador Dalí ditando o roteiro para Gala, que estava escrendo o manuscrito. Ficando mais e mais entusiasmado sobre esta forma de arte-em-movimento, Dalí disse a Hench: “Animação realça a arte; suas possibilidades são infinitas”.

Quando Dalí roteirizou “Destino” em sua forma livre de pensamento para se encaixar perfeitamente na canção de Dominguez, um cenário enigmático apareceu representando as idéias do artista sobre o amor e o que o tempo faz a ele. O roteiro de Gala-Salvador descreviam como os apaixonados em “Destino” seriam filmados com dançarinos de ballet ao vivo (em live-action) ao lado dos cenários ‘Daliescos’ repletos de estátuas, telefones, conchas e moedas. Eles estão ‘lutando’ contra o tempo, na forma de um gigantesco relógio solar que emerge da da grande face de pedra de Júpiter, que determina o destino de todos os romances humanos.

Walt Disney ficou de olho no trabalho em progresso, e sendo um admirador do talendo de Dalí, ficou entusiasmado com o novo visual que estava sendo trazido para a animação. Assim, uma vez os storyboards finalizados, Dalí e Hench prepararam o famoso “pencil-test” de 18 segundos, onde pode-se ver os esboços em movimento.

Salvador havia voltado para Monterey, relembra Hench, assim uma vez filmado o teste, ele levou o filme para mostrar ao pintor. Hench foi a um pequeno cinema e convenceu o gerente a exibir os 18 segundos após um filme B (na verdade um Western) e depois que a platéia tivesse se retirado. As luzes se apagaram e Dalí viu sua arte em movimento… e acabou amando o resultado. No fim da curta exibição veio o projecionista e praticamente gritou “O que foi isso?” Dalí e Hench se entreolharam… ambos sabiam que isso era um momento único na arte.

Walt Disney decidiu comemorar de seu próprio jeito. Num domingo, ele convidou Dalí e Hench para visitar a sua casa em Holmby Hills, onde uma locomotiva (chamada Carolwood Pacific) em miniatura circulava o terreno. O trem tinha tamanho suficiente para que várias pessoas pudessem embarcar (na verdade cada um sentava sobre um vagão). Walt Disney nunca pretendeu entender todo o simbolismo do artista porque achava que isso era parte do misticismo de Dalí, mas não resistiu em convidar um pioneiro em formas experimentais de animação – o excêntrico animador Ward Kimball (o criador do Grilo Falante) para pilotar o trem tendo como passageiro Salvador Dalí. Naquele mesmo dia, Walt Disney disse: “Junto com a profusão normal ‘daliana’, Dalí concebeu em usar pela primeira vez, acredito eu, beisebol americano como forma de ballet”.

FICHA TÉCNICA:

Início de produção: foi iniciado em 1946 mas nunca concluído.
Sinopse: uma cena poética sobre o amor e tempo.
Diretor: John Hench
Sketches inspiracionais: Salvador Dalí
Música: baseado na balada espanhola “Destino” de Armando Dominguez.
Duração (planejado): cerca de 6 minutos.

(Muitos dados informados numa reportagem de Christopher Jones para o jornal The Boston Globe e o livro “Paper Dreams” de John Canemaker)
Texto de Celbi Vagner Pegoraro

Destino

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s