Seráphine de Senlis: a artista que não conhecemos

SERAPHINE

O longa-metratem “Séraphine”, de Martin Provost, foi o grande vencedor da 34ª edição do prêmio César (o Oscar francês, por assim dizer). O longa levou para casa os prêmios de Melhor Atriz para Yolande Moreau, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Cenografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora.
O filme narra a extraordinária vida da francesa Séraphine de Senlis. Nascida em 1864, foi pastora e dona de casa antes de se transformar em pintora naïf (para quem não sabe, são aqueles pintores autodidatas.) e submergir na loucura. Viveu contra todas as expectativas tristes de sua vida e ascendeu por meio da originalidade e beleza de sua arte.
Daí a importância da personagem de Wilhelm Uhde (1874-1947) na afirmação pública de Séraphine e, antes disso, na simples criação de condições práticas para ela praticar e desenvolver a sua vocação. O personagem de Uhde é interessantíssimo porque, afinal, foi ele quem impulsou talentos como Picasso, Henri Rousseau, Braque e Douanier Rosseau, entre outros. Coleccionador, galerista e crítico de arte alemão, Uhde soube ver Séraphine para além das rotinas do quotidiano, reconhecendo nos seus quadros a energia de uma linguagem própria. E é uma pequena maravilha o modo como o filme de Martin Provost encena a relação entre a pintora e o seu mentor (Ulrich Tukur): ela frágil, ele conseguindo sentir a vibração das formas para além das aparências sociais. Por óbvio não sabemos como era a relação dos dois, se foi algo apenas financeiro ou se realmente houve alguma amizade entre os dois.
Séraphine não é apenas uma produção sobre uma artista do início do século passado. Ele próprio, o filme, é uma peça de arte ao explorar nos detalhes a vida de sua personagem principal, bem como o processo criativo e a visão de mundo que a artista possuía. O filme dedica o tempo necessário e abriga qualidades como a contemplação e a narrativa que busca a pulsação do artista ao qual a produção é dedicada. Uma bela peça de cinema que, além da arte, trata do contexto europeu que antecedeu e sucedeu a 1ª Guerra Mundial. Além disso, Séraphine trata sobre religiosidade, fé e compreensões divergentes sobre o belo e a loucura.
Yolande, um show de atuação, convence como se fosse a própria artista, criada sob os valores da fé e do trabalho duro como os únicos caminhos dignos de uma pessoa vencer na vida, o pensar é descartado para pessoas como ela. Yolande assume o papel de Séraphine como o de uma mulher frágil e ao mesmo tempo batalhadora,  manipulável e que sucumbe com certa facilidade a uma idéia grandiloquente de salvação por meio da fama.
Seraphine-UK-Poster-512x384
O roteiro é muito bem articulado, com vários silêncios e alguns diálogos relevantes. Poucas são as palavras proferidas por Seráphine. Nós passamos a conhecê-la por seus atos de contemplação à natureza, por seus olhares quase que infantis, isso que torna o longa um dos melhores do gênero. Meio óbvio comentar isso, mas ganha um destaque todo especial a direção de fotografia de Laurent Brunet. Não apenas as paisagens e a arquitetura local são detacadas pelas lentes de Brunet e Provost. A direção de fotografia acaba sendo fundamental para valorizar os momentos intimistas da produção, que revelam o processo criativo de Séraphine e a sua devoção. Um lindo trabalho, belo e poético ao mesmo tempo.
Seráphine Louis
Outro assunto que aparece em Séraphine, ainda que de forma bastante secundária, era o do preconceito contra homossexuais naquela época. Uhde se muda para o interior da França, no início do filme, certamente para fugir de perseguições. E mesmo depois da guerra, quando o armistício deveria afetar várias esferas da sociedade, ele continuava escondendo seus romances – na segunda fase do filme, inclusive, aparece sua relação com o artista Helmut Kolle (Nico Rogner).
Como bem resumiu o diretor e roteirista Martin Provost, esta é a história de uma mulher essencialmente livre. Nadando contra todas as correntes e todas as perspectivas, Séraphine manteve o seu talento e o seu dom. Não desistiu nunca de seguir o caminho que acreditava certo. Além de contar a história de uma mulher incrível e extraordinária em sua simplicidade, Séraphine revela ao espectador os bastidores do trabalho de uma artista visceral. Além disso, conta uma relação curiosa de dois “marginalizados”, como definiu Provost, que foi o caso de Séraphine e do marchandt alemão Wilhelm Uhde. Resumindo, eis aqui um filme poético e belíssimo sobre arte, força criativa, amor pela Natureza, religiosidade, sobre o conturbado período entre as duas grandes guerras mundiais e sobre pessoas que, mesmo marginalizadas/perseguidas, souberam ser fiéis a si mesmas.

Acessem também:

Escute o Masmorracast #26 – Quadro a quadro: O cinema apresenta as artes


Youtube:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s