Raduan Nassar e Lavoura Arcaica: o filme


Lavoura Arcaica”, o livro de Raduan Nassar e o filme de Luiz Fernando Carvalho, é um dos mais belos exemplos da miscigenação possível entre o cinema e a literatura. Um dos clássicos da moderna literatura brasileira tornou-se um dos filmes mais importantes da nossa cinematografia. Vamos tentar compreender como funcionou essa experiência.

Trata-se aqui da relação da palavra com a imagem para realizar este produto simbiótico que é o cinema, da adaptação da obra de Nassar, caudalosamente verborrágica, sufocantemente intimista, quase absolutamente não-linear.

A história não interessa tanto; os fatos são como que arrancados a cada nova torrente de palavras do personagem-narrador André, as lembranças vêm como flashbacks absolutizantes (que se fecham em si mesmos) até que, aos trancos e barrancos, ficamos sabendo que possuem como referência a relação incestuosa de André com a irmã.

Tudo gira em torno disso: o arrependimento, a desestruturação da família, as memórias amargas (mesmo quando felizes, as memórias só reforçam o quanto essa sua antiga felicidade será destruída), a fuga de casa, o resgate pelo irmão.

As referências bíblicas são óbvias, não somente pela adaptação de uma parábola cristã, mas principalmente pela utilização da Palavra com todo o seu poder de Verdade.

A Palavra é encarada assim pelo patriarca que se senta à mesa e obriga a família a ouvir seus sermões. Também é vista dessa forma pela família que ouve e condiciona sua vida àquelas histórias. E é também assim combatida pelo filho rebelde que se desespera ao perceber que essa “verdade” não explica seus desejos inconfessáveis nem os conforta ou perdoa quando estes afinal são realizados.

Pois bem, o diretor Luiz Fernando Carvalho transpõe para o filme quase que o texto inteiro do livro, literalmente. As cenas são longas, as “conversas” são extensos monólogos entremeados de algumas frases de ligação, são muitos os pensamentos do personagem ruminando sobre episódios vários, o que torna o filme longo, lento e contemplativo. As citações são textuais e, muitas vezes, correm o risco de serem consideradas redundantes, desnecessárias, pois o que está sendo dito também está sendo, na maioria das vezes, mostrado.

Logo após André dizer que costumava mexer na roupa suja da família e que, dessa forma, a conhecia melhor do que qualquer outro, segue-se uma cena, muda, mostrando as mãos desdobrando lentamente as peças de roupa no cesto.

Pode-se gostar ou não do resultado (entrando assim no nebuloso terreno do gosto pessoal), discordar ou não da opção radical do diretor. O que me parece claro é que “Lavoura Arcaica” não poderia ter sido filmado de outra forma sem que, ao mesmo tempo, traísse a espinha dorsal do livro.

Luiz Fernando transmuda a Palavra em Imagem, transforma a narração falada em ação visual, a torrente de pensamentos abstratos em cenas concretas, o impacto do raciocínio abstrato no choque dos fotogramas. Em suma, faz cinema.

Pode parecer incrível dizer isso de um filme com tanta falação, mas em “Lavoura Arcaica” a Imagem é absoluta. É ela quem comanda. Ela transforma, critica, se contrapõe, relativiza o poder da Palavra. Esta tem a pretensão de ser a portadora da Verdade, através da sua verborragia, de sua posição autoritária, de sua pretensa capacidade democrática de diálogo, mas é contrastada o tempo todo pelo fogo revelador das imagens. A Palavra é confusa, rasa, inibidora, moralista. Insuficiente.
Texto de Claudinei Vieira do site Por trás das letras

Ouça um dos monólogos do filme!:

Ficha Técnica:
Título original:Lavoura Arcaica Clique para ver o trailer.
Gênero: Drama
Duração: 163 min.
Lançamento (Brasil): 2001
Estúdio: VideoFilmes
Distribuição: Riofilme
Direção: Luiz Fernando Carvalho
Roteiro: Luiz Fernando Carvalho
Produção: Luiz Fernando Carvalho
Música: Marco Antônio Guimarães
Fotografia: Walter Carvalho
Direção de arte: Yurika Yamasaki
Figurino: Beth Filipeck

Elenco
Raul Cortez (Pai)
Selton Mello (André)
Juliana Carneiro da Cunha
Leonardo Medeiros
Mônica Nassif
Christiana Kalache
Caio Blat
Renata Rizek
Simone Spoladore
Pablo César Câncio
Leda Samara Antunes
Premiações:
– Ganhou o prêmio de Melhor Contribuição Artística, no Festival de Montreal.

– Ganhou 4 prêmios no Festival de Brasília, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Ator (Selton Mello), Melhor Atriz Coadjuvante (Juliana Carneiro da Cunha) e Melhor Ator Coadjuvante (Leonardo Medeiros).

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4 comentários Adicione o seu

  1. Sr.Elton disse:

    Este filme pra mim é a maior obra cinematográfica brasileira, sem exageros, assim como o livro é o meu preferido.Nunca vi em um filme um trabalho tão primoroso em fotografia, trilha sonora, atuações, enfim. Poderia ficar falando horas sobre essa obra de arte, que é arte no mais profundo sentido da palavra arte. Sem dúvida.

  2. Rômulo Mendes disse:

    Concordo com o Sr. Elton, a maior obra cinematogràfica brasileira, é um excelente livro.Bela dica.

  3. Juliana disse:

    Olá. Eu precisava desse audio. Como faço para consegui-lo? Precisava para uma aula. Obrigada.

  4. Masmorracast disse:

    Oi Juliana!Aqui nesse link tem alguns audios e soundtracks do filme.Abraços!http://bigearflux.wordpress.com/2008/08/21/lavoura-arcaica-trilha-sonora/

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