O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante

Carimbar antes do nome do inglês Peter Greenaway o rótulo de cineasta é uma atitude simplista e insuficiente. Greenaway é muito mais do que isso. É um artista plástico de vanguarda, que acumula as funções de fotógrafo, pintor, instalador e filósofo. Um filme, para ele, é apenas um dos vértices de trabalhos artísticos bem mais ambiciosos do que simplesmente contar uma história. Qualquer pessoa que deseje se aventurar na obra de Peter Greenaway precisa ter isso em mente. É imprescindível fazer isso antes de conferir “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante” (The Cook, the Thief, his Wife and her Lover, Inglaterra/França/Holanda, 1989).

O filme, um favorito entre os acadêmicos que estudam cinema no âmbito da universidade, é um deslumbre visual incomparável. Mas quem estiver esperando um filme de estrutura mais convencional, com começo, meio e fim claramente definidos, corre sério risco de achar o filme chatíssimo, incompreensível ou até mesmo vazio de significados. Não é bem assim, mas “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante” é o tipo de longa-metragem que exige uma reeducação dos sentidos, e uma reflexão sobre o ato de fazer e assistir a cinema, para ser apreciado.

O enredo, que envolve os quatro personagens citados no título, é frugal. O gângster Albert (Michael Gambon), que janta todas as noites no restaurante Le Hollandais, começa a ser traído pela mulher Georgina (Helen Mirren) com um freqüentador do lugar, o bibliotecário Michael (Alan Howard), com a cumplicidade do chef Richard (Richard Bohringer). Albert, cuja figura lembra estranhamente o cantor de ópera Luciano Pavarotti, é o ser humano mais intragável que o cinema já produziu: grosseiro, mal-educado, violento, boçal, chato e machista. Por isso, a reação dele não será nada agradável, caso descubra o affair da mulher.

A película propõe uma associação pouco usual entre comida e sexo, quando Greenaway intercala cenas de erotismo quase explícito entre os amantes com o ato de preparação de um prato fino. Um beijo é seguido por um tomate sendo cortado, uma cruzada de pernas dá seqüência a um pepino sendo fatiado. Greenaway associa as duas pulsões básicas da teoria freudiana – sexo e morte – ao ato de comer. Além disso, apimenta a receita com fartas doses de escatologia, escancarada logo no prólogo do filme, quando o gângster Albert humilha um homem que lhe deve dinheiro dando-lhe uma surra, sujando-o com cocô de cachorro e urinando em cima dele. E se você acha que isso é demais para os olhos de qualquer espectador, espere até conferir o banquete servido a Albert no final do filme.

Toda essa escatologia é contraditoriamente apresentado à audiência em um filme belíssimo. Greenaway construiu quatro locações e iluminou cada uma com uma tonalidade diferente: a saída do restaurante (azul), a cozinha (verde), o banheiro (branco) e o salão de jantar (vermelho). Essa última conta com um enorme painel do século XVI, de autoria de Frans Hals, retratando um banquete; a cenografia deste ambiente é inspirada no quadro e reproduzida de maneira tão fiel e inteligente que, por vezes, os olhos nos enganam, e as figuras do quadro parecem estar jantando dentro da sala (ou vice-versa).

Além disso, os figurinos arrojados do estilista Jean-Paul Gaultier mudam de cor conforme os personagens se movimentam de cômodo a cômodo. Esses movimentos são flagrados por Greenaway de maneira personalíssima. A câmera se move lateralmente, em longas tomadas, lentamente e sem cortes. Na maior parte das cenas, os personagens são focalizados de longe, em planos de composições plasticamente belas. Greenaway filma como se estivesse pintando. Seu filme tem a textura, a explosão de cores e a vibração de um grande afresco renascentista, o que lhe confere um visual único e espetacular.

Além de tudo isso, há a bela música de Michael Nyman, composta de forma quase minimalista e inserida como pinceladas de tempero na mistura cinematográfica. O resultado final tem alguma semelhança com “Amor a Flor da Pele”, de Wong Kar-Wai, só que substituindo a nostalgia delicada do diretor asiático por uma excitação hipnótica e cheia de energia.
Talvez fosse possível descrever “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante” como uma improvável mistura entre o refinamento visual de Jean-Pierre Jeunet (pense em “Delicatessen” ou “Ladrão de Sonhos”) com a virulência escatológica de Pier Paolo Pasolini (de “Saló”).
É isso.
Texto de Rodrigo Carneiro do Cine Reporte

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