Camino

O cinema é uma arte que pode ser utilizada de diversas maneiras. Uma delas é o ataque que alguns diretores fazem com maestria, através de suas obras, contra fortes entidades de nossa sociedade. Dentre as críticas, algumas se direcionam contra a Religião, mais precisamente, a Igreja Católica. E aí é preciso tamanho desprendimento e liberdade criativa para conseguir atingir, de forma precisa, a mente de quem assiste.

Camino (Um Caminho de Luz) – 2008, filme escrito e dirigido por Javier Fesser, que ganhou seis Goyas, principal prêmio do Cinema Espanhol, é uma dura crítica à Opus Dei. Fesser se inspirou na história de uma garotinha de Madrid, Alexia González Barros, que faleceu em Pamplona, vítima de Câncer, e que se encontra em processo de Beatificação no qual a Opus Dei manipula sua doença e tenta tratá-la como um sacrifício que devemos passar para provar o amor à Deus.

Não preciso falar muito da Opus Dei. Acredito que alguns já tenham lido algo sobre essa instituição ligada à Igreja Católica, que prega a santidade de todos através da vida diária, seja no trabalho ou em casa, isto é, em todo momento podemos demonstrar o amor à Deus com uma vida santa. Para isso alguns integrantes se enclausuram e até recorrem à auto-flagelação como uma espécie de suplício. A Opus Dei, muitas vezes é vista como uma sociedade secreta da Igreja, onde a ponta do iceberg visível à todos é apenas a Religião, mas que na verdade encobre uma gama de atos obscuros, como pode ser visto no livro “O Código da Vinci” de Dan Brown.

Dependendo da tradução, o filme iniciará dizendo que é baseado em fatos reais, mas não levem isso ao pé da letra, pois de real só existe a doença da criança. Todo o resto é livre inspiração de seu realizador. Em entrevista, Javier Fesser disse que em seus estudos para o filme se deparou com pessoas que testemunharam sofrerem muito com os dogmas pregados pela Opus Dei. Além do mais ele se questionou como uma criança de 13 anos, poderia ao invés de desejar a cura de sua doença, na verdade, oferecer seu sofrimento “à Igreja, ao Papa e a todos”. Algo de diferente havia na forma como aquela criança fora educada. Por esse e muitos outros motivos a Igreja Católica vem combatendo o filme.

O Diretor Javier Fesser, recebendo Prêmio Goya

A relação com a Opus Dei é frontal. Para se ter uma ideia, o principal livro escrito pelo seu fundador, o Padre São Josemaria Escrivá, se chama “Camino”. Assim Fesser entitula também sua película e dá nome ao personagem principal.

O filme é tocante, destaque para atuação da jovem Nerea Camacho, vencedora do Goya de Atriz Revelação, interpretando Camino. A trilha sonora consegue criar o clima do filme com o sofrimento da jovem e os momentos de emoção. Quem chora facilmente assistindo dramas, prepare uma caixa de lenços, pois este é um filme que acredito seja impossível não verter pelo menos uma lágrima. Atentem também para a maneira como Fesser questiona o fundamentalismo religioso e o obscurantismo. Percebam como Deus é visto, através do personagem “Mr. Meebles” que tudo sabe e tudo pode, mas que tem um problema. Além do mais, é preciso notar o jogo que o diretor cria, com Jesus, personagem santo, e o Jesus, garoto por quem Camino se apaixona.

A mescla entre fantasia e realidade do filme nos faz pensar sobre como vemos a vida e a Religião, e quão à sério a levamos. É aí que está, para mim, o ponto forte do filme e da criatividade do Diretor. Não deixando de levar em conta a sua coragem, já que a Igreja Católica tem raízes fortíssimas na Espanha.

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5 pensamentos sobre “Camino

  1. Não costumo apreciar trabalhos muito parcialistas, quando eles querem se levar a sério mais ainda, a Opus Dei não é A Igreja, é uma parte dela.
    Pode ser um bom filme, mas a chance de ficar muito irritado assistindo me tira a vontade de assistir.

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    • Camino vale a pena ser assistido. Porém, é fato que a questão religião é pauta constante na película. Por isso que Camino causou polêmica na Espanha. Mas, ainda assim, a luta da jovem contra a doença apenas pelo seu amor toca o coração de qualquer um.

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  2. Assisti o filme. É sempre muito complicado quando se baseia obras fictícias a histórias verídicas….ainda mais quando se trata de uma tão delicada e valorizada ética e religiosamente como esta.

    Com efeito, devemos respeitar a família, a fé e principalmente a memória dessa linda menina. E para isso, interpretar com cuidado as informações e impressões contidas no referido filme.

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    • Cara Mariana, não ficou claro se você gostou do filme. Na verdade, o fato do diretor utilizar essa história real e pintá-la na tela de forma diferente é o que podemos mencionar, já que é preciso coragem e audácia para isso. Lembro que o filme não deve ser tomado como um caso real, mas como uma crítica, isso justamente para não ferir os verdadeiros personagens por trás dessa estória, que são a família e a memória dessa menina. Por isso é um ótimo filme de se assistir e pensar. Mas tentando se afastar de qualquer pré-conceito.

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