Cópia Fiel

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Produção francesa, de 2010. Direção e roteiro de Abbas Kiarostami. Com Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Giachetti, Adrian Moore, Angelo Barbagallo, Andrea Laurenzi. Cineasta consagrado e premiado – Palma de Ouro por “O gosto de cereja”(1997) e Leão de Ouro por “O vento nos levará” (1999) – Kiarostami consegue neste seu primeiro filme dirigido fora do Irã fazer uma homenagem ao cinema, mesmo que à primeira vista a obra cause certo estranhamento.

Um escritor inglês, James Miller (William Shimell), está na Toscana para o lançamento de um livro de sua autoria, em que discute o valor de cópias de obras de arte. Elle (Juliette Binoche), proprietária de uma pequena galeria, comparece ao lançamento mas não permanece pois seu filho adolescente, Julien (Adrian Moore), insiste em almoçar naquele horário. Eles saem, não sem que antes Elle deixe um bilhete para que James a procure na loja. Perspicazmente, Julien percebe que Elle estava mais interessada no autor do que no livro em si, o que acaba por exasperá-la.

Os dois encontram-se depois e Elle acaba levando-o a um vilarejo próximo com o intuito de mostrar-lhe num museu uma “cópia original”. Durante o trajeto, a conversa, que inicialmente versa sobre o assunto do livro, em alguns momentos inesperadamente assume um revés pessoal, incomum para duas pessoas que acabaram de travar conhecimento.

Após a visita ao museu, num pequeno café, Elle questiona-o sobre sua motivação para escrever o livro. Sua explicação, estranhamente parece, a um só tempo, aproximá-los e afastá-los. Quando James sai para atender a uma chamada ao celular, a dona do estabelecimento entabula uma conversa com Elle julgando que eles sejam marido e mulher. Elle não a desmente e incorpora a esposa de um marido ausente, num casamento que já dura 15 anos. Quando James retorna, Elle conta-lhe o que houve e, surpreendentemente, ele embarca na fantasia também e de um momento para outro já não se sabe mais o que é realidade e o que é encenação.

A beleza do filme está tanto nos diálogos muito bem construídos, quanto nos cenários ricos em detalhes e nos enquadramentos precisos. A fotografia é muito beneficiada pelas belíssimas paisagens da Toscana. E é interessante notar o quanto Kiarostami ocupa-se com o que está “fora de foco” na cena e o quanto essas cenas de fundo são importantes no desenrolar da estória.

Não há como negar que a presença de Binoche é essencial. A atriz domina o filme, dando fluidez às cenas, com significados ocultos a cada gesto, a cada olhar. E mesmo assim, o estreante Shimell consegue sair-se bem ao seu lado. Ambos são extremamente convincentes mesmo quando temos dúvidas sobre quem são os personagens e qual o real teor do relacionamento entre eles.

Foi comparado ostensivamente a “Antes do amanhecer”, dirigido por Richard Linklater, devido às caminhadas do casal pela cidade e sua interação em cena. Mas, diferente desse, “Cópia fiel” vai além da comédia romântica. Discutindo a arte, o filme em si torna-se objeto de análise, afinal o que ali é original (ou não)?

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6 comentários Adicione o seu

  1. Bem vinda a masmorra, não podemos esquecer do trote!! hahahah
    Falando do filme, eu gostei, mas assisti, mas não me recordo muito, acho que merece um remember!

    1. Valeu, tks!! Mto feliz por fazer parte da equipe 🙂
      Qto ao filme, vale a pena rever, sim. Vai descobrir vários detalhes que, possivelmente, passaram batido na primeira vez.

  2. Ivan disse:

    Parabéns pelo texto, deu até vontade de ver.
    🙂

    1. Obrigada 🙂
      Vale a pena assistir sim!

  3. Rob Ville disse:

    Este filme é excepcional. Deixo aqui minha teoria a respeito dele:

    Na primeira, os protagonistas discutem temas que interessam a um grande número de pessoas, em várias partes do mundo: arte e correlatos. Mas enquanto discutem arte, eles estão, na verdade, falando de algo que interessa a poucoas pessoas, dentro da humanidade como um todo. Já na segunda parte, há uma inversão, e o tema se torna a “vida do casal” que em teoria não interessa há mais ninguém além deles próprios. Mas é quando discutem intimidades que o filme consegue um alcance maior, talvez universal, pois falam de sentimentos compartilhados por todos.

    Um abraço!

    1. oi Rob,
      Tks pela leitura e pelo comentário. Se te interessar, tem uma análise mais completa do flme no meu blog, com mais algumas teorizações sobre ele: http://goo.gl/hg03J
      []s

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