Sonhos

O que pode nos revelar um sonho? Qual o seu significado? Seria uma extensão da mente numa realidade paralela? As respostas são poucas, tantas quantas são à respeito do cérebro humano. Eu pouco me lembro dos meus sonhos. Quando acordo, na maioria das vezes, eles escapam da minha memória inexplicavelmente, tal qual chegaram. Tenho certeza que daqui para o fim deste texto, mesmo você, não vai conseguir lembrar do sonho que teve hoje, ou vai?

Mas deixo as divagações de lado para, na verdade, falar sobre um filme belo e questionativo, ao qual aprecio muito, e ainda melhor, dirigido por um dos Diretores mais incríveis do cinema mundial: Akira Kurosawa.

Quando se fala em Akira Kurosawa, logo vem à mente a imagem de samurais, duelos de espadas e magníficas adaptações de Shakespeare sob uma ótica Oriental. Porém, preciso destacar aqui uma verdadeira obra de arte do diretor nipônico, o filme Yume (Sonhos) – 1990.

Kurosawa é responsável por escrever e dirigir o filme. Ele levou às telas alguns sonhos que teve na sua vida, 08 (oito) no total. Cada sonho traz uma mensagem subliminar, tratando sobre a sociedade japonesa, suas lendas e costumes, a morte, a vida, a culpa, o meio ambiente, as artes, o consumismo exagerado. Muitas delas podem não serem inteligíveis para alguns, necessitando de maior atenção por parte de quem está assistindo. A obra até chega a prever a questão nuclear que preocupou o Japão recentemente.

O ponto do filme que deslumbra os olhos é a fotografia assinada por Takao Saito e Masaharu Ueda. Ambos acompanharam Akira Kurosawa em filmes como “Kagemusha” de 1980, “Ran” de 1985 e “Madadayo” de 1993. Como uma pintura em tela, as imagens são repletas de significados, a exemplo das cores nas nuvens radioativas no sonho “Monte Fuji de Vermelho”, onde cada uma representa um elemento radioativo (O Amarelo do Estrônio 90, o violeta do Césio 137 e o vermelho do Plutônio 239). A beleza das paisagens, a forma como as cores são utilizadas, as fantasias, enfim, tudo no filme traz uma carga poética que demonstra a intenção do grande Cineasta japonês de criar uma obra magnífica para os olhos e sugestiva para a mente.

Além do mais, Yume teve participação de estúdios americanos na sua produção. Os efeitos especiais foram de responsabilidade da Industrial Light & Magic, divisão da Lucas Arts. Inclusive, o grande Cineasta Martin Scorsese faz uma ponta atuando como o pintor Vincent van Gogh.

Um detalhe curioso da participação de Scorsese é que os dois cineastas conheceram-se em um hotel de Nova Iorque. Martin começou a falar sobre a deterioração de filmes coloridos. Kurosawa diz que ele falava muito, e ao mesmo tempo o diretor japonês pensou conhecer Scorsese de algum lugar. Enquanto um falava e falava, o outro tentava se lembrar de onde o conhecia. Até que veio a resposta: Era o van Gogh de um sonho que teve. A atitude forte e a aura de Martin Scorsese eram do personagem que conheceu quando sonhava algum tempo antes. Quando estava idealizando Yume anos depois do encontro, logo Kurosawa lembrou de Scorsese, o qual aceitou de imediato atuar na obra do amigo japonês.

Sonhos” é uma obra magnífica, intensa e que traz mensagens fortes e atuais para quem o assiste. Pode se decepcionar aquele que só conhecia ou aprecia Akira Kurosawa apenas pelos filmes de samurais. Aqui o diretor demonstra sua complexidade, retomando a essência dramática, de linguagem envolvente e de metáforas que marcam algumas obras de sua filmografia, como “Dersu Uzala” de 1975.

Particularmente, dos oito sonhos, o último é para mim o mais belo. Uma conversa entre um jovem viajante e um ancião morador de uma vila, nitidamente de interior, criando o conflito entre os valores do futuro e os do passado. Um diálogo que nos faz refletir sobre a importância que damos a coisas supérfluas, sem significado para nossa vida. A paisagem bucólica ilustra a aproximação do homem com a natureza. E a morte nada mais é que uma festa para se comemorar a vida bem vivida. As últimas frases do velhinho são preenchidas de uma moral emblemática do valor que é viver: “Alguns dizem que a vida é dura. Isso é conversa. O fato é que é bom estar vivo. É excitante”.

Yume, é um filme que vale a pena assistir, pelo menos para conhecer mais a obra de Akira Kurosawa. Mas tenho certeza que a mensagem de cada sonho do diretor vai te tocar de alguma forma.

Mas e aí? Conseguiu lembrar do sonho que você teve hoje?

Daria o melhor de mim para aproveitar as minhas capacidades como artista. Sinto-me responsável, verdadeiro e honesto para com minha profissão e estou consciente disso. Eu estou primeiro a lidar com a sociedade japonesa e a tentar ser cândido ao lidar com os nossos problemas. Espero que você entenda isso sobre mim quando vir o filme. Como um contador de histórias, não tenho segredos…

– Akira kurosawa

Link para o IMdB
Veja também no Rotten Tomatoes
Assista o trailer no youtube

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4 pensamentos sobre “Sonhos

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