A festa de Babette

Produção dinamarquesa, de 1987, ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro. Direção de Gabriel Axel. Roteiro de Gabriel Axel, baseado num conto (de mesmo nome) de Karen Blixen. Com: Stéphane Audran, Bodil Kjer, Birgitte Federspiel, Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont.

Karen Blixen escreveu seus livros sob o pseudônimo de Isak Dinensen, numa época em que não era de muito bom-tom uma mulher escritora em meio à sociedade chauvinista. Além deste, outra obra sua também serviu de inspiração para um filme: “Out of Africa”, de 1985, baseado no seu livro mais conhecido, “A fazenda africana” (“Den afrikanske Farm”).

O filme – também premiado no Festival de Cannes e no Globo de Ouro – narra a estória de Babette Harsan, que se refugia na casa de duas solteironas (filhas de um falecido pastor) num vilarejo da Dinamarca, fugida da repressão à Comuna de Paris. Elas a acolhem e a empregam como faxineira e cozinheira. Passados mais de uma dezena de anos, Babette descobre ter ganho na loteria e, grata às pessoas que a acolheram, decide oferecer um banquete à francesa, aproveitando a comemoração do centésimo aniversário do pastor.

Ficamos conhecendo a estória da juventude das irmãs através de flash-backs, narrados em off por uma voz feminina. Ambas sacrificaram suas paixões da juventude em nome da fé e das obrigações religiosas. Philippa abdicou de um relacionamento com um jovem oficial, Lorenz Lowenhelm, sobrinho de uma das devotas da seita fundada pelo pastor. Martine abriu mão de uma promissora, mas sequer iniciada, carreira como cantora, orientada por um cantor lírico de sucesso, Achille Papin. A chegada de Babette altera um pouco sua rotina austera. Seus dotes culinários são logo percebidos ao fazer pequenas alterações na alimentação servida pelas irmãs aos idosos do vilarejo. Mas não passa disso, devido à escassez de recursos e os preceitos severos seguidos pela comunidade, baseados na privação e no sacrifício.

Quando Babette resolve preparar o banquete, uma mudança significativa percebe-se em toda a comunidade. Há a surpresa pelo pedido (aparentemente) inusitado feito por Babette. Há o receio dos puritanos de que os prazeres mundanos suscitados pelo banquete sejam uma nódoa em sua crença. Há certo reboliço quando Babette retorna à vila com os suprimentos para realizar o jantar. E subitamente, o pequeno vilarejo, antes cinzento e sombrio, parece se encher de vida.

O filme, que se inicia devagar, envolve o espectador aos poucos. Não só o banquete em si, mas seu preparo também, constituem a melhor parte dele. A dedicação, o cuidado e principalmente, o prazer de Babette ao prepará-lo são contagiantes. O espectador fica com água na boca ao vê-la separando ingredientes, salteando legumes, montando e decorando os pratos. Percebe-se sua satisfação cozinhando e tem-se a certeza de que aquilo é o que mais lhe agrada fazer na vida. E esse entusiasmo, essa paixão pela culinária, certamente reflete-se no resultado. Os pratos são mais que apetitosos. São um amálgama de sensações e, consequentemente, de prazeres – gustativos, olfativos e mesmo táteis.

Interessante notar a mudança que se opera nos convivas no decorrer do banquete. Mesmo tendo combinado entre si (exceto pelo General Löwenhielm)  não sentirem nem tecerem qualquer comentário relativo ao que fosse servido, percebe-se a mudança de atitude em cada um deles. Inversamente ao que temiam, o prazer despertado não é pecaminoso, muito menos maléfico. Animosidades se dissolvem, antigas desavenças se desfazem. O deleite gastronômico acaba por fazer com que cada um deles queira expressar o melhor de si.  Todos regozijam-se, mesmo não tendo a cultura do General, que aprecia os pratos também como conhecedor do glamour parisiense.

Babette sabe como levar alegria através da comida. Assim como “Chocolate” e “Como água para chocolate”, este é mais um filme em que se aborda a magia da culinária. O poder transformador do deleite gastronômico. Temos a transformação de Babette, que parece voltar à vida, mesmo com o esforço e trabalho necessários para preparar e servir o banquete. E temos a transformação dos convidados, que chegam ao final do banquete como pessoas diferentes e mesmo melhores que antes dele. Eles (e o espectador também) se convencem de que é possível a felicidade sem pecado, o prazer sem culpa.

Vejamos algumas curiosidades:

>>> Menu do banquete

  • Potage à la tortue
  • Blinis Demidoff au Caviar
  • Cailles en sarcophage com molho perigourdine
  • Salada
  • Queijos
  • Baba au rhum com frutas

>>> Vinhos servidos

  • Amontillado
  • Champagne Veuve Cliquot 1860
  • Clos Vougeot 1846

>>> Veja também

 

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6 comentários Adicione o seu

  1. Ivan disse:

    Concordo com @RaphaellBass a Masmorra ganhou um time de articulistas que merece parabéns, é sempre muito bom vir aqui e ler os novos posts, a clareza de ideias e a análise bem feita cativa nossa atenção.

    1. Opa! Valeu o elogio 🙂
      E a equipe toda está de parabéns.

  2. Caramba!
    Fiquei muito feliz quando vi que escreveram (e tão maravilhosamente Cris!) sobre esse filme inesquecível!
    Eu tinha o VHS que comprei naquela coleção do jornal A Folha, e assisti muitas vezes.
    Não tive a oportunidade de ler o livro. Eu quase comprei em um sebo aqui da cidade, mas deixei pra pegar depois e levaram! hehe
    Gente, esse é um daqueles filmes que só de assistir dá uma água na boca… quanta comida deliciosa!
    A vida tão simples dessas pessoas… (eu enlouqueceria!)
    O trecho onde uma das irmãs começa a ter aulas de canto com o tenor Achille Papin (fico arrepiada só de lembrar!)
    A paixão fulminante que a outra irmã inspira ao soldado (que o faz mudar de vida)
    A tristeza quase paralizante de Babette, e seu ato de desprendimento ímpar!
    O final me traz lágrimas até hoje.
    Eu amo filmes que mostram pessoas cozinhando (por sinal, eu amo cozinhar!) e nesse filme, o alimento toma formas de redenção, de catarse.
    Como é bom poder apreciar esse filme, degustando cada segundo!
    Outros filmes nessa linha (citamos vários no nosso podcast sobre Cinema e Gastronomia) são: Como Água Para Chocolate, Bella Martha e por aí vai…
    Vou ficar na torcida (com água na boca) para que nossos escribas maravilhosos continuem trazendo filmes tão sensíveis e engrandecedores como A Festa de Babette, para deleite de nossos olhos e alimento às nossas almas.

    Beijo imenso, querido leitor!

    Cristine, muito obrigada querida!

    1. Agradeço demais o elogio. Mas eu também preciso agradecer pela oportunidade de escrever sobre algo que eu curto demais, filmes que eu gosto tanto. Compartilhar isso com todos é muito gratificante.
      (ah, eu tb tive o vhs do filme hehe)

  3. Léa Mattosinho Aymoré, 32 anos , Bauru, SP disse:

    Sou muito fã deste filme e fiquei muito feliz ao ler a resenha e ver que mais gente o aprecia. Recomendo o masmorracast sobre cinema e gastronomia em que a Angélica deu um destaque especial para esse lindo filme.

    1. Obrigada Léa!
      Qualquer pessoa que goste de cinema e gastronomia ama este filme, não é? 🙂

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