Out of Africa

Recentemente, aproveitando o ensejo do site Cinemasmorra, com o projeto de podcasts sobre clássicos do cinema, resolvi tentar relembrar um filme que vi há muito tempo atrás e analisá-lo hoje, diante da pouca experiência que agora tenho com a idade, mas que no passado nada tinha. O filme é Out of Africa – Entre Dois Amores (1985). Decidi por essa obra porque me chamou a atenção o fato dela ter me emocionado tanto no passado.

Out of Africa, filme do Diretor Sydney Pollack, é baseado num trecho da vida da escritora dinamarquesa, a Baronesa Karen Blixen, também conhecida pelo seu pseudônimo de Isak Dinesen.  Grande parte do roteiro foi retirado do livro da própria Karen, “A Fazenda Africana”. O filme é uma obra encantadora, com grande atuação de Meryl Streep, interpretando a própria Karen; de Robert Redford, no papel de Denys Finch Hatton, amante de Karen; e Klaus Maria Brandauer, como o Barão Bror Blixen, seu marido.

A fotografia, assinada por David Watkin, torna o filme um espetáculo aos olhos, mostrando as belezas da África, a savana, os animais, tudo num padrão em que tenta expor o ambiente selvagem, mas de certa forma tocado pelo homem. E a trilha sonora, com participação do compositor John Barry, tem na música do filme um dos temas mais belos do cinema mundial. Não à toa, Barry assina a trilha sonora de filmes como “Dança Com Lobos” e “Em Algum Lugar do Passado”.

Entre Dois Amores, foi ganhador de 7 prêmios da Academia em 1986, incluindo Melhor Diretor e Melhor Filme. É uma pena que mesmo diante da magnífica atuação de Meryl Streep, este foi mais um dos inúmeros trabalhos em que acabou indicada ao Oscar, mas não levou.

Apesar de ter sido tão premiado, não é por isso que Out of África desperta interesse. O que me impressionou foi a história de vida da escritora Karen Blixen. “I had a farm in Africa” é uma frase recorrente no filme. Ela soa sempre num tom nostálgico, onde os episódios deste período em que viveu na África, mesmo tendo sido curto, parecem ter influenciado na vida da escritora e também na sua obra. Karen, na intenção de se afastar da família, e em busca de um título de nobreza, casa-se com um primo, o Barão Blixen. Com o dote do casamento, que foi combinado pelos dois apenas para essa intenção, montaram juntos uma fazenda de café no Quênia. Todavia, sabendo que o casamento não passava de conveniência, um arranjo entre amigos, a então baronesa acaba se apaixonando por Bror. O relacionamento de certa forma segue, mas não resiste à vida adúltera do barão, que acaba transmitindo sífilis para sua esposa, sendo obrigada a tratar-se em casa, na Dinamarca, por alguns anos. Ao retornar, a relação desmorona, e tal qual começou, chega ao fim.

Karen então inicia um relacionamento com Denys Finch Hatton. Aqui nos deparamos com o verdadeiro romance do filme. Denys é um militar britânico, mas que gosta de viver em liberdade sem se apegar a relacionamentos. Um grande caçador, passa muito tempo em safáris. Agora, Karen se vê apaixonada novamente, só que dessa vez por um homem sem apego às conveniências e rotinas de um casamento. Na verdade, ambos vivem entre dois amores: o amor de um para com o outro, dividido com o que sentem pela terra ou pela África. Isso só soa o quão acertado ficou o título do filme em português.

O que cativa na história da escritora, é o fato dela enfrentar a sociedade colonialista britânica do começo do século XX. Não obstante fazer parte dos colonizadores, Karen busca sempre melhorar as condições de vida dos nativos que trabalham e vivem em sua fazenda, oferecendo saúde, educação, chegando inclusive a defender o direito destes às terras onde vivem. A baronesa Blixen, foi uma mulher forte, enfrentou até a savana selvagem em plena Primeira Guerra Mundial ao transportar mantimentos para as forças britânicas. Sua vida retratada em Out of África serve de exemplo para a sociedade de hoje, já que mulheres como ela são mais presentes no mundo. Mas no começo do século passado, mulheres assim eram mal interpretadas, ganhando conotações pejorativas que nada condizem com sua real personalidade. Na verdade, não é muito diferente da atualidade.

Sydney Pollack conseguiu um trabalho magnífico. A essência da história da escritora e o bom roteiro deve ter facilitado a direção. O enredo dramático do filme é forte, mas não deixa que a história perca o foco do amor entre Karen e Denys. O conflito dos dois é notório, ambos possuem suas paixões, mas Karen, como toda mulher, não deixa de ser romântica. E mesmo parecendo possessiva, na verdade, não é propriedade sobre o homem que ela quer, mas poder sentir que é amada. Pollack, nesse momento influencia na direção. Meryl Streep com sua atuação ajuda muito, mas o diretor aproveita a boa interação dela com Redford e o bom papel que este desempenhou, fazendo de Karen e Denys um dos casais românticos mais marcantes do cinema. Afinal, quem não consegue se sentir dentro daquele pequeno avião quando Hatton leva sua amada para o passeio tão desejado? É impossível não se impressionar com a bela paisagem neste momento, ponto máximo da fotografia do filme, nem deixar de se emocionar ao ouvir a música tema e ao mesmo tempo sentir o verdadeiro amor no simples toque de mão dos dois personagens.

Entre Dois Amores, na época em que assisti pela primeira vez, me apresentou à uma verdadeira história de amor. Mas ainda hoje, não entendo porque choro no final com aqueles dois leões. Talvez seja porque os dois animais representem o coração selvagem e livre de Denys, ironicamente preso ao seu verdadeiro amor: a África.

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13 comentários Adicione o seu

  1. barão disse:

    Não conheço, mas já fiquei entusiasmado para assistir, vou procurar depois comento aqui!

  2. Ivan disse:

    É estranho ler um homem escrevendo sobre um drama romântico, minha visão preconceituosa não havia considerado uma possibilidade assim, mas fico feliz por ter lido, já tentei assistir esse filme há algum tempo, muito tempo, mas não terminei, acho que não tinha maturidade suficiente pra acompanhar a estória, talvez tente novamente dia desses, depois de ter assistido “A Casa do lago”, acho que estou ficando mais paciente para esse estilo de filme.

    1. Iedo Junior disse:

      Ivan, não estranhe. Sou homem mesmo, mas de certa forma gosto de todo tipo de filme. Não é porque o filme é romântico que não mereça ser assistido. Porém, Out of Africa não é só uma história romântica, é também um relato biográfico da escritora Karen Blixen sobre o período da vida dela em que passou no Quênia. Digo à você que é um ótimo filme, e se afastar o preconceito, garanto que também se emocionará.

      1. Ivan disse:

        Não me entenda mal, Iedo Junior, de forma alguma duvido de sua masculinidade, meu estranhamento foi mais em relação a mim mesmo por não esperar algo assim, procuro ser o menos preconceituoso possível, mas às vezes me surpreendo com coisas simples assim. Aliás a iniciativa de um homem analisando um filme que, normalmente, tem como foco o publico feminino é bem interessante, é como uma garota, a Cristine por exemplo, fazendo um review de um filme testosterona estilo “Os Mercenários” , principalmente quando o autor tenta se colocar neutro no texto.
        Aguardando o próximo post 🙂

      2. hahahaha Olha só o Ivan achando que homem não tem sensibilidade pra escrever sobre o amor…

      3. Ivan disse:

        Olha a polêmica.
        😛

  3. Léa Mattosinho Aymoré, 32 anos , Bauru, SP disse:

    Entre dois amores é realmente um filme inesquecível, uma das melhores atuações da carreira de Meryl Streep. Infelizmente hoje em dia ele anda meio esquecido, assim como o diretor Sydney Pollack. Taí uma sujestão para um podcast Masmorra classic, abordar um dos filmes desse grande diretor como Tootsie, A noite dos desesperados ou mesmo sua carreira. Um abraço.

    1. Iedo Junior disse:

      Léa, realmente sua ideia é muito boa. Sydney Pollack merece mesmo um podcast. Mas também vários outros diretores renomados do passado, como Kubrick, David Lean, Fred Zinneman e muitos outros. E também acho uma das melhores atuações de Meryl Streep, talvez a melhor em muitos anos.

  4. MickaelSM disse:

    MICKAEL MOURA, 26, SÃO PAULO

    O que me cativou nesse filme foi o cenário. Extremamente bucólico, selva sem fim, putz! Eu queria estar lá.

    1. Iedo Junior disse:

      Verdade, Mickael

      O filme tem uma fotografia bela. A África é tão bem retratada que dá vontade de estar lá mesmo.

      Obrigado pelo comentário.

  5. Felipe Lucas disse:

    Grande jr.
    Parabens pelo blog.. não conhecia…
    gostei.. jah esta nos favoritos..

    1. Iedo Junior disse:

      Grande Felipe

      Obrigado meu caro, mas apenas faço parte da equipe magnífica de escritores que colaboram com o site com resenhas de filmes. Espero que continue visitando o site, curtindo os posts e ouvindo os podcasts.

      Grande abraço!!!

  6. maria angela disse:

    Adorei seu comentário. Mto fiel e inteligente. Já devo ter assistido este filme mais ou menos uns 8 vezes, de tanto que gosto. obrigado pel sua iniciativa . Deu mais cultura aos viciados em bons filmes.

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