Violência gratuita

Produção norte-americana de 2008. Direção e roteiro de Michael Haneke. Com Naomi Watts, Tim Roth, Brady Corbet, Devon Gearhart, Michael Pitt.

O filme é uma refilmagem praticamente quadro a quadro de uma produção austríaca, de 1997, também dirigida por Haneke. Não só as cenas foram refilmadas de modo idêntico, as falas também não sofreram modificação. Foram usados os mesmos objetos de cena do filme original. E o cenário construído, a casa de campo, tem as mesmas proporções da utilizada no original. E não se deve desprezar a importância de que a refilmagem tenha sido feita por Haneke. Certamente a essência do filme teria se perdido caso outro diretor mais “comercial” tivesse assumido a direção.

Como o título nacional já entrega, o filme é um thriller sobre violência. Família em férias (pai, mãe, filho pré-adolescente) é feita refém em sua casa de campo, por dois jovens, durante um final de semana. A partir dessa premissa, Haneke faz uma análise apurada da violência e suas razões e implicações. Não é a estória em si que interessa, não apenas ela. O modo como a estória é contada é tão ou mais importante do que a própria estória. Haneke conduz o espectador magistralmente e este, a cada cena, sente-se mais e mais envolvido pela brutalidade vivenciada pelos personagens.

Difícil não lembrar de “A Clockwork Orange”, tanto pela temática quanto pelo figurino dos personagens. Em ambos, o público é levado a pensar sobre a banalização da violência, a violência como meio de expressão e a, aparente, inexistência de motivos. É emblemática a cena em que Tom pergunta a Paul por que estavam fazendo aquilo. E a resposta de Paul parodia a lista usual de experiências do passado que em geral justificam estórias assim: infância infeliz, má-educação, instabilidade sexual, ressentimento social. Diz tudo e não diz nada ao mesmo tempo.

Interessante notar a inexistência de trilha sonora. As poucas músicas que são tocadas durante o filme, pertencem ao universo da narrativa. Por exemplo, na cena inicial. Família no carro a caminho de sua casa de campo, passando o tempo brincando de adivinhar nome e autor de músicas eruditas. Abruptamente, os acordes de “Care selve” (da ópera Atalanta, de Handel) são  sobrepostos por um heavy metal daqueles bem dissonantes(“Naked city”, Bonehead), enquanto os créditos são exibidos. Um prenúncio de que aquela paz e tranquilidade seriam em algum momento substituídas por algo diametralmente oposto.

Mesmo sendo um thriller sobre violência, não pense o espectador que é um filme que flerta com o estilo gore. Ao contrário, durante quase todo o filme, a violência é praticada fora de quadro, fora do campo visual da câmera. Apenas ouve-se o que ocorre e presenciamos o resultado. A única cena que ocorre dentro de quadro é a que induz o espectador à sua catarse pessoal. É o momento é que somos “pegos” vibrando com o que aparece na tela para, em seguida, nos questionarmos sobre nossos próprios motivos. Afinal,  o que há de diferente? O que faz desse ato algo mais justificável que os demais? Aliás, é mais justificável? O público tem razão ao se regozijar tanto? Haneke, brilhantemente, joga essas questões na nossa cara. E nos sentimos compelidos a responder, a justificar nossa reação.  O mérito do filme reside no seu teor provocativo, praticamente obrigando o espectador a se questionar após assisti-lo. Não há como não discutir o assunto.

>>> Algumas curiosidades

  • Os vilões falam diversas vezes “Let’s make a deal” (vamos fazer um acordo) expressão de uma série de tv americana famosa.
  • Os rapazes, em vários momentos do filme, referem-se a si próprios como Beavis and Butt-Head e às vezes como Tom e Jerry.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Felipe Autran disse:

    Prentendo fazer uma sessão dupla pra conferir os dois de uma vez. O medo é que fique meio chato pelos filmes serem os mesmos.

    No mais, não gostei da atitude do diretor de fazer um filme idêntico falado em inglês, até porque não acho que o público de Funny Games seja desses que não assiste filme estrangeiro e/ou tem aversão a legendas. É uma tática comercial que eu não gosto, mas com certeza melhor que soltar na mão de qualquer um pra fazer as porcarias atuais que vocês bem conhecem.

  2. alessandro disse:

    Olá! incrivel como vocês estão fazendo eu correr atrás de filmes que “não tinha visto e agora tenho que ver” esse vou assistir para comentar. Vocês acreditam que até hoje fiz a “heresia” de não ter assistido ainda “Laranja Mecânica”? fica a dica para um próximo cast.

    Sucesso.

    1. Olá! É sempre gratificante saber que incentivamos os leitores a asistirem coisas novas.
      E não se incomode, Alessandro. Até 1 ano atrás, eu tb não tinha assistido a “Laranja Mecânica”. Sempre está em tempo 😉

  3. Concordo que foi algo totalmente comercial, já que sabidamente o público norte-americano é bem resistente a filmes estrangeiros. Mas, já que foi feito, melhor que tenha sido Haneke e não qualquer outro diretor, que talvez fizesse o filme pender para o gore desnecessariamente.

  4. Ivan disse:

    Estou há alguns meses com este filme, mas ainda tenho outras indicações para ver antes dele, este é daqueles filmes que prefiro não assistir sozinho. 🙂

    1. Sei como é isso Ivan. Minha fila de filmes por assistir – assim como a de livros por ler – está sempre gigante. Mas não deixe de ver, pois o filme é bem instigante.

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