A Malvada

Produção norte-americana de 1950. Direção e roteiro de Joseph L. Mankiewicz. Com Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe.

Narrado em flashback a partir da noite de entrega do prêmio Sarah Siddons, o filme acompanha a estória de Eve Harrington. Eve é uma moça (Anne Baxter), fã de uma atriz famosa – Margo Channing (Bette Davis) – que, em dado momento, conhece o objeto de sua admiração e acaba tornando-se sua  “protegida”. Aproveitando-se dessa premissa, o diretor/roteirista desenvolve uma análise bastante minuciosa e ácida sobre o ambiente em que vive a atriz.

Infelizmente, diferente do título original – sem quaisquer segundas intenções -, o título em português (mais uma vez) não foi uma boa escolha,  induzindo o espectador, durante boa parte do filme, a tentar identificar “a malvada”. O caráter intolerante de Bette Davis faz o público (conhecedor dessa fama) acreditar que ela seja a malvada a que o título se refere. Não há como negar que sua personagem pouco tem de humilde, já que a fama e o estrelato estão impregnados em sua vida. E, inicialmente, até pode parecer que seja ela a malvada, devido às suas atitudes por vezes arrogantes e a seus desmandos de estrela dos palcos. Mas o título original não deixa dúvidas sobre quem é o “objeto de estudo” do filme. E se há um adjetivo que possa definir a trajetória de Eve, não é malvadeza. Ambição seria o termo mais fiel, já que sua única intenção é chegar ao topo, à mesma posição de Margo, mesmo que para isso tenha de pisar em alguns calos e algumas cabeças.

O roteiro é extremamente inteligente, com diálogos muito bem estruturados e desenvolvidos. Aliás, a maior parte dos conflitos concentra-se nos diálogos, em jogos de palavras, em duplos sentidos, na ironia, nas entrelinhas. Não bastasse Mankiewicz ter escrito um roteiro que permanece atual, sua direção é primorosa. É lógico que o filme reflete o estilo de montagem da época (menos cortes, cenas mais longas), mas mesmo assim continua muito agradável de assistir.

Os personagens são muito bem construídos. Obviamente que a atenção é focada nas duas personagens centrais, interpretadas magnificamente por Anne Baxter e Bette Davis. Na minha opinião, este é o melhor papel de Davis, já que as mocinhas protagonistas que vinha interpretando até então (sempre muito bem) não “casavam” tão bem com o talento da atriz. Neste, Davis se supera, principalmente nas cenas em que deixa cair a máscara de estrela e mostra a face da atriz preocupada com a idade e com o futuro de sua carreira e de seu relacionamento amoroso. Baxter também está excepcional. Representou de modo sensacional o caráter dúbio da personagem, sutilmente passando da dedicação ao veneno. Mas há um personagem masculino que também merece nossa atenção – Addison DeWitt, interpretado por George Sanders. Ele é a personificação do quão desprezível o mundo do entretenimento pode ser. E Sanders dá-lhe a verossimilhança necessária para que o espectador direcione a ele todo o desdém suscitado por esse ambiente do show business.

>>> Curiosidades:

  • Marilyn Monroe em sua primeira aparição de destaque em um filme, num papel que se tornou o estereótipo das loiras: moça pouco provida de atributos intelectuais mas bastante provida de atributos físicos, utilizando-os em proveito próprio.

  • Batte Davis não a primeira escolha para o papel. Ingrid Bergman foi cogitada, mas não quis afastar-se do futuro esposo, Roberto Rossellini. E Claudete Colbert chegou a ser escolhida, mas sofreu ruptura de disco em outro trabalho e não pode participar.

  • Para os noveleiros, deve ter sido fácil identificar que a trama da novela “Celebridade”, de Gilberto Braga, é claramente baseada no filme.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Ivan disse:

    Parabéns, mais um texto excelente, mesmo este não sendo o tipo de filme que eu sairei correndo pra ver, já me aguçou a curiosidade e a possibilidade.
    Já estou na expectativa do próximo.

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