Batismo de Sangue

O filme “Batismo de sangue” é dirigido por Helvécio Ratton, baseado no livro de mesmo nome, escrito por Frei Betto, interpretado com talento no filme pelo ator Daniel de Oliveira. A história acompanha a vida dos cinco Freis: Tito, Betto, Fernando, Ivo e Oswaldo. Toda a trajetória desses homens no decorrer da Ditadura Brasileira.

O filme começa ao mostrar o personagem principal, Frei Tito, ao se enforcar numa árvore, em um monastério na França, durante o tempo que ele ficou exilado do Brasil. Começamos a ver toda sua história com os outros padres e como se decorreu o envolvimento deles na luta contra a ditadura armada no país.

A reconstituição da época no filme é muito bem feita, desde vestimentas a lugares e ambientes que os protagonistas passam, assim como suas falas. É importante notarmos a preocupação do diretor ao mostrar o ambiente em que os estudantes e guerrilheiros ficavam, com várias frases pintadas na parede contra a repressão militar, desenhos do Che Guevara e várias pessoas com livros nas mãos, fora as aulas que se tinham, ao mostrar que os estudantes, apesar de estarem preparados para uma revolução, nunca esqueciam que a verdadeira sabedoria estava no aprendizado.

É interessante notarmos que os Freis eram pessoas pacíficas, mas que estavam dispostos a se sacrificarem por uma causa justa, e compartilhavam o amor à causa entre eles, fica evidente a disciplina de cada um deles para a liberdade contra o exército.

Legal notar algumas sacadas inteligentes do diretor, como a hora em que os estudantes marcam uma reunião, e o sinal para saberem quem é a favor da causa, é se tem a revista Veja embaixo do braço, afinal, pessoas com bom senso sabem o que a revista representa no país, mais uma preocupação histórica bem aplicada pelo diretor.

As torturas são feitas de maneira fria e crua, ao ilustrar os torturadores como verdadeiros animais, que não hesitam em momento algum de debochar dos prisioneiros ou de manchar ao máximo a honra das pessoas que foram torturadas. Méritos para o ator Cássio Gabus Mendes, que interpreta o Delegado Fleury, ele se mostra muito a vontade no papel, e parece que sempre faz questão de mostrar o delegado como um sujeito maléfico, que não demonstra um pingo de simpatia pelas pessoas que tortura, só não me arrisco a dizer que ele interpreta o sujeito de maneira quase caricatural porque os fatos são verdadeiros, e era tamanha a covardia dos soldados daquela época que infelizmente tudo foi verdade.

Caio Blat interpreta um Frei Tito frágil, simples, que se importa com seus amigos, e que acredita no que faz, e que nunca abre mão de sua Fé, até os momentos finais da obra, onde ele parece não conseguir tirar a sombra das torturas que sofreu, e não quer ficar exilado, sempre querendo voltar para o seu país e ajudar seus amigos no ideal de liberdade que eles pregaram. É triste ver o desenvolvimento do personagem até os seus momentos finais, que desde o início sabemos o que acontecerá, mas é triste vermos que um personagem que aguentou tantas torturas e passou por tantos terrores psicológicos impostos pelos militares, que sucumba à morte justamente por lembrar da figura do Delegado Fleury, é aí que existe uma contradição no mínimo chata no roteiro, afinal, por que Frei Tito insiste em voltar para o Brasil, para ajudar seus amigos, mas se mata por ter tanto medo das suas lembranças ? é triste porque o personagem surge tão forte em vários momentos da projeção, mas as lembranças que vêem a sua mente são justamente as do delegado ao lhe torturar, o roteiro poderia ter deixado o personagem muito mais digno em seus momentos finais, não apenas um protagonista que cede aos seus terrores vivenciados no passado.

A montagem do filme é simples, chega ser até chato algumas vezes, é um ritmo básico, que não sofre muita aceleração nem muita lentidão, as atuações são, em sua maioria, muito boas e convincentes, a recriação da época, como já havia citado, foi excelente, muito bem feita, nos mínimos detalhes. A fotografia do filme serve ao seu propósito, ilustra os lugares que se passa com muita naturalidade, principalmente nas cenas de tortura, onde é muito vívido o que acontece, tudo de maneira fria e cruel nos corredores da delegacia.

Pensei que o filme seria mais didático como muitas pessoas dizem que foi, confesso que não achei muito, apenas com um ritmo fraco, gostaria de saber mais sobre o quê se tratavam as reuniões da resistência ditatorial do país, apenas acompanhamos o que acontece com os Freis, e as conseqüências de seus atos, que não são muito bem mostrados, viajam de lugares a lugares, mas parece que nunca sabemos ao certo com qual objetivo suas viagens são feitas.

Acredito que se o filme focasse mais nos motivos da resistência, ou mostrar mais sobre Marighella, ficaria melhor e mais digestivo para uma população que, vergonhosamente, não conhece este período com a força que deveria ser mostrado, pois ao mostrar um filme onde as pessoas só sabem olhar pelo lado da tortura, porém sem saber por que aquelas pessoas estavam lutando, realmente fica difícil de digerir tanta violência.

>>> Veja também

Anúncios

2 pensamentos sobre “Batismo de Sangue

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s