La Voz Dormida

O ritual de expiação cinematográfico referente a períodos de ditadura militar no século XX está bem presente na filmografia de vários países de formação latina, como Argentina, Brasil ou Espanha. Nestes países, especialmente na terra do tango e na Península Ibérica, caudilhismos de extrema-direita atuaram com truculência, estupidez, e contribuíram não só para o atraso sócio-econômico, mas também para deixar feridas até hoje não cicatrizadas naquelas sociedades.

Não é à toa que cineastas de engajamento procurem vez ou outra trazer o tema à tona, de forma que estes períodos históricos não sejam esquecidos, mas também para lançar luz sobre questões não resolvidas referentes ao desparecimento de militantes contrários ao governo, assassinatos e à prática de tortura praticada por militares. É neste contexto que o diretor espanhol Benito Zambrano apresenta seu mais recente filme – La Voz Dormida (Espanha/2011), drama que funciona como uma lupa sobre a destruição que a ditadura franquista (1939 – 1976) infringiu sobre famílias espanholas.

Pepita (Maria Leon), bela garota da na região da Andalucia, vai a Madrid logo após o final da Guerra Civil, de forma a estar próxima de sua irmã Hortencia (Inma Cuesta), que está grávida e presa sob a acusação de participar da guerrilha armada. Nesse ínterim, Pepita, ao mesmo tempo em que luta para conseguir algum tipo de ajuda que evite a execução de sua irmã, passa a se envolver perigosamente com membros da luta armada anti-Franco.


Ora, tem-se o cenário perfeito para o despertar dramático. É impossível não reagir às atrocidades cometidas pelos generais e pelas instituições que serviram de suporte a ele, como a Igreja Católica, por exemplo. O roteiro de Ignácio del Moral (baseado no livro de Dulce Chacón), inclusive, atenta diversas vezes para o caráter cruel das freiras que trabalhavam nas prisões femininas, como que uma alegoria para uma característica mais abrangente – a nocividade da instituição católica e do conservadorismo idiota em geral.

No mais, os artifícios usados para retirar o espectador da passividade emocional são comuns: famílias destruídas pela guerra, cenas de tortura covardes, e toda a sorte de artifícios inermes que são cometidos por regimes opressores. Mas, apesar de todos aqueles fatos apresentados serem conhecidos da platéia madura, é impossível (e nunca é demais refrescar a mente das pessoas sobre isso) não se pensar nas atitudes horrendas que seres humanos podem cometer uns aos outros, em nome de religião, tradicionalismo, ideais preconceituosos, e acima de tudo, poder.

Infelizmente um final bobinho e que quebra todo o ritmo da narrativa desmonta parte da mensagem que vinha sendo construída durante toda a projeção. Contudo, La Voz Dormida não deixa de ser um relevante exemplar de cine-histórico, importante para que não se esqueça que os pilares da sociedade moderna foram erigidos ao custo de muito esforço, e de muitas vidas.

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