Ágora – Alejandro Amenábar

 

Vez ou outra me deparo com a afirmação de que religião não se discute. Ora, discordo com bastante veemência deste lugar comum, enquanto a catequização pode levar a brigas e discussões acaloradas, o debate centrado na exposição de ideias e livre de pré-julgamentos sobre este importante aspecto da vida humana pode ser algo bem saudável e esclarecedor. O problema, muitas vezes, ocorre quando a fé religiosa procura enveredar por caminhos de não são de sua alçada… Pior ainda: usar a crença de fiéis em manobras direcionadas na busca por poder, seja este financeiro ou baseado em controle social.

Estes fatos nos levam a algo invariável na história das religiões (todas elas), que é a tentativa de restrição do livre-pensar, reflexo da promiscuidade entre fé sobrenatural, estado e ciência. É em um contexto histórico marcado por tal dinâmica social, o Egito sob domínio romano, que o diretor Alejandro Amenábar situa Ágora (Espanha/2009), ótimo filme que retrata de maneira romanceada os últimos anos de vida da matemática Hipátia de Alexandria (Rachel Weisz), pesquisadora de caráter visionário inserida em um conturbado momento de ascensão do cristianismo e marcado pelo pensamento patriarcal.

Estamos em 391 D.C., e o Império Romano vive um momento de franca decadência e incertezas. Uma religião recém-criada, o cristianismo, tenta galgar espaço entre judeus e ateus, gerando violência e intolerância provenientes de todos os lados. Hipátia, enquanto pesquisadora, professora da Academia de Alexandria, e acima de tudo, uma pessoa ávida por conhecimento e com forte poder de influência, despertava o interesse de muitos, dentre eles seu escravo Davus (Max Minghella) e seu aluno Orestes (Oscar Isaac).

Dentre as várias descobertas atribuídas a Hipátia no transcorrer do filme, a mais importante delas é apresentada em uma cena carregada de sublimidade e emoção: o insight da cientista acerca da movimentação dos corpos celestes. Contudo, é bem provável que muitas das façanhas científicas que Amenábar apresenta atuam apenas como força motriz da história. A professora da Universidade do País Vasco, Marta Macho Stadler, em palestras que tem proferido sobre o filme desde a estreia, é bem clara quando afirma que muitas das demonstrações de fenômenos físicos em Ágora requerem um arcabouço matemático inexistente naquela época.

Mas, quem se importa com esses pequenos detalhes? O tutano da película reside no fato de Hipátia, na busca por perpetuar uma sociedade fundamentada na razão e na qual o conhecimento é de livre acesso (tentando, sem êxito, salvar a Biblioteca de Alexandria), acabou por encontrar-se numa situação onde ser uma mulher atuante poderia ir de encontro a preceitos religiosos, e por consequência enfraquecer os instrumentos de dominação das massas. Uma pena.

Ágora – Trailer Legendado

IMDB

Rotten Tomatoes

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1 comentário Adicione o seu

  1. Iedo Junior disse:

    Esse filme é muito bom. Um relato histórico que, se não é fiel, pelo menos cumpre o trabalho a que se propôs. A interpretação de Rachel Weisz é magnífica. Hypatia, a filósofa grega, é um personagem da história muito interessante. Mas o filme, levanta um questionamento religioso muito forte, nos faz pensar e refletir, não diria a instituição Igreja Católica nem as demais religiões, mas sim os homens que seguem cegamente certos dogmas absurdos, que ainda hoje nos faz testemunhar certas barbáries em nome de Deus ou deuses. Parabéns pelo texto.

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