Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo

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Embora tenha visto muitos filmes no ano passado, a grande e esmagadora maioria dos que assisti eram de anos anteriores. Sou daqueles que costumam ver filmes quando já estão velhos, com algumas exceções. Mas, resolvi falar sobre um filme que tive o prazer de ver no apagar das luzes de 2011, alguns dias antes do ano novo: Moneyball – O Homem Que Mudou o Jogo (2011). Uma obra cinematográfica que trata de esporte e a grande visão empreendedora de um homem que literalmente repaginou o Baseball Americano.

Acredito que alguns leitores, e talvez seja a maioria, não sabem nada ou pouco conhecem sobre baseball. Porém, isso não é motivo para desvalorizar o filme. Aconselho a não buscarem tentar entender as regras do jogo. É preferível se abster do esporte e focar na história e para aproveitar melhor, fazer uma relação analógica com algum outro esporte mais conhecido como futebol, vôlei, basquete. Na verdade, um dos pontos positivos de Moneyball é a didática. Portanto, não haverá dificuldades para entender as informações. O mais importante do filme são os conflitos pessoais, onde o esporte é apenas um pano de fundo, um palco onde se desenrola a peça.

Moneyball é baseado no livro de Michael Lewis, “Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game”, que conta a história de Billy Beane, Gerente Geral do time de baseball Oakland Athletics e suas contribuições para o esporte. O filme foi dirigido por Bennet Miller (Capote, 2005); o roteiro adaptado é trabalho de  Steven Zaillian e Aaron Sorkin, com história de Stan Chervin. A película conta também com grandes atuações de Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman e Brad Pitt.

 

O filme expõe a história magnífica de uma mudança na maneira como se faz um time vencedor. Após uma derrota dolorosa do Oakland A´s, frente ao milionário New York Yankees, e de ver seus principais jogadores partirem para jogar em outros times após o fim da temporada de 2001, o gerente geral do A´s, Billy Beane (Brad Pitt), se vê numa situação complicada, tendo que montar uma novo equipe mas com pouco dinheiro para isso. O baseball vivia há muito tempo com um sistema de seleção de profissionais no qual os times campeões eram os compostos por grandes jogadores e, consequentemente, com alta folha de pagamento. Para conseguir ganhar a liga, Beane precisa improvisar, e ao contratar Peter Brand (Jonah Hill), um jovem recém-formado economista, começa a selecionar jogadores baseando-se em dados estatísticos, não levando em conta aspectos subjetivos. Isso vai de encontro o que pensam muitos dos profissionais que trabalham no time, inclusive o técnico Art Howe (Philip Seymour Hoffman), que insiste em não aplicar as ideias de Beane. No entanto, mesmo entrando em conflito com várias pessoas e arriscando seu emprego, o gerente geral do Oakland A´s persiste no seu plano e consegue um recorde de vitórias. Ao usar as estatísticas do jogo para criar uma equipe vencedora, Billy Beane trouxe mais competitividade ao esporte e vários times conseguiram ser campeões usando suas ideias, a exemplo do Boston Red Sox, que voltou a ganhar uma World Series após jejum de 86 anos.

É nessa luta para defender e por em prática suas ideias inovadoras que a história de Billy Beane surpreende. Primeiro, que ao usar de estatísticas e números, o gerente do A’s abandona todo um processo que vem com o histórico de mais de um século em que os profissionais técnicos, olheiros entre outros, selecionam jogadores com base em aspectos subjetivos e muitas vezes equivocados. O próprio caso da carreira de Beane como jogador profissional na década de 80 serve para ilustrar como funcionava o sistema de seleção que na maioria das vezes é fadado ao erro. Transparece com isso a didática do filme a qual me referi antes. É simples perceber nos diálogos e nas expressões dos personagens o dilema causado pelas inovações apresentadas no sistema de seleção com base em números estatísticos. Em suma, não importa se um jogador bebe muito, passa por problemas pessoais ou tem uma imagem negativa perante a mídia, pois no fim, o que interessa é que esse jogador, mesmo com problemas, mantenha uma boa média de rebatidas válidas, de roubadas de base ou Home Runs. Costuma-se dizer que times que aderiram a esse sistema introduzido pelo Oakland A´s jogam o chamado “Moneyball”, que dá nome ao livro e o filme.

 

A direção de Bennet Miller caiu como uma “luva” para a obra cinematográfica. Miller conseguiu conduzir os diálogos e ao mesmo tempo enfatizar os conflitos vividos pelos personagens. O roteiro adaptado foi muito bom já que o livro de Michael Lewis, apesar de ser em parte biográfico, possui muitos aspectos técnicos que poderiam de alguma forma complicar a compreensão do filme, daí que a história feita por Stan Chervin ajudou muito na adaptação. A edição foi um verdadeiro show. O filme mescla imagens originais de jogos reais com cenas gravadas que muito poucas vezes dá para perceber a mistura; é possível sentir como se tudo tivesse sido realizado nos próprios jogos.

 

Por ser um filme essencialmente de diálogos e conflitos pessoais, está nas atuações o ponto forte da obra. Jonah Hill, que vive o jovem Peter Brand, teve um trabalho de interpretação preciso e convincente na medida que consegue nos dar a real imagem de um economista que vê o esporte através de números  e de forma impessoal, tanto que em uma cena em que deve demitir um jogador fica claro sua inabilidade em interagir com a pessoa desses profissionais. Não precisamos falar muito de Philip Seymour Hoffman que interpreta o técnico do A’s, Art Howe, principal indivíduo que de início é uma barreira para a aplicação das ideias de Beane. A força da atuação de Hoffman magnifica a imagem da resistência do velho mundo no baseball e a relutância na aceitação do novo sistema.

Agora, merece um destaque especial a atuação de Brad Pitt como o gerente geral Billy Beane. Inicialmente, não imaginei, antes de ver o filme, que Pitt tivesse a habilidade de interpretação que demonstrou. É bem verdade que alguns dos últimos trabalhos do ator fossem muito bons, como é o caso de The Curious Case of Benjamin Button (2008) e Inglorious Basterds (2009). No entanto, a temática e o próprio personagem precisam de um talento pessoal para conseguir demonstrar um visionário, empreendedor, jovem, pai e que consegue se impor perante baluartes do esporte. Brad Pitt, essencialmente, foi capaz de ser Billy Beane e fez um bom trabalho em apresentar cada aspecto que citei da personalidade do gerente geral do A’s. É emblemática a cena final com o ator deitado no campo de baseball transparecendo a imagem de um homem que lutou duramente e apesar de tudo venceu. Pitt já havia me impressionado no ano passado com a sua atuação de um pai enérgico em The Tree of Life – A Árvore da Vida (2011), filme que me nego a adentrar muito pois rachou demasiado minha cuca que não consegui curtir tanto como acho que merece. Mas isso nos dá a certeza de amadurecimento profissional do ator, que vinha sendo lapidado com o passar do tempo e que agora, na minha opinião, atingiu seu ápice, mas que muito provavelmente continuará com o tipo de atuação que esperamos nas artes cênicas. Por isso, não foi em nenhum momento injusto Brad Pitt receber prêmios pelos filmes que atuou em 2011.

Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo é um ótimo filme. Merece ser visto principalmente pelas atuações, mas também como uma história inspiradora, um relato biográfico preciso de perseverança e fé numa boa ideia. Moneyball foi indicado para 7 prêmios do Oscar 2012, inclusive o de melhor filme, melhor ator coadjuvante para Jonah Hill e melhor ator para Brad Pitt. A obra  recebeu alguns outros prêmios da crítica americana,  mas independente de tais resultados ou do fato de não ter ganho nenhum prêmio da Academia, o filme é um vencedor, e deitar na grama com ar de paz e triunfo não é nada mal.

 

Texto de Iêdo Júnior

Trailer

IMDB

Rotten Tomatoes

 

 

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4 comentários Adicione o seu

  1. Sheila Albuquerque disse:

    desanimei c esse filme dps da resenha da isabela boscov,mas ce me animou rs

    1. Iedo Junior disse:

      Sheila, não desanime e assista. Na verdade, o filme é de levantar ânimos.

  2. Pablo Grilo disse:

    Iedo,
    acabei de assistir e adorei o filme. Pessoalmente não curto Baseball ou Fut Americano, acho esportes bobocas e sem sentido, mas nesse filme realmente você não precisa saber de nada sobre o esporte, pois não é ele que importa, e sim as superações humanas nele apresentadas.
    Brad Pitt surpreende, concordo contigo também, a direção e edição do filme foram as melhores partes, junto ao roteiro.
    Sabe algo que perguntei a alguns colegas cineastas hoje?
    É incrível que não temos um filme de superação através do futebol, afinal de contas, não somos o país do futebol?
    Temos tantos exemplos legais, o melhor deles, na minha opinião, é o São Caetano de 2000-2002 (vices brasileiro naquela vergonha para o Vasco e em 2001 para o Atlérico-PR, e vice 2002 da libertadores para o Olimpia do Paraguay) que revolucionou pelo Jair Picerni.

    1. Iedo Junior disse:

      Que bom que você gostou, Pablo. E realmente, não precisa tentar entender o esporte. Como disse no texto, o baseball é apenas um pano de fundo para os conflitos.

      Quanto ao caso do São Caetano, isso é verdade, não existem filmes de superação brasileiros que eu conheça. Afora aqueles documentários de times como “A Batalha dos Aflitos” do Grêmio e o do Corinthians que não sei o nome.

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