Os roteiros de Alexander Payne

The descendants
 

 

Apesar de começar falando sobre um filme – “The descendants” – não é intenção falar apenas dele. Mas antes, uma breve sinopse.

Matt King (George Clooney), um marido indiferente, pai de duas garotas, é forçado a reexaminar seu passado e abraçar seu futuro quando sua esposa sofre um grave acidente em Waikiki. O ocorrido exige uma reaproximação com suas filhas adolescentes, enquanto Matt se debate com a decisão de vender as terras que estão na família desde os tempos da realeza havaiana e dos missionários.
(fonte: site Os Descendentes – www.osdescendentes.com.br)

Não é uma super produção. Não é um blockbuster. Não é um filmaço, daqueles que, após assistir, insistimos em indicar a todos nossos conhecidos. Mas é um filme memorável, daqueles que recordaremos quase com carinho anos após tê-lo assistido pela primeira vez. E o motivo disso, no meu entender, é essencialmente a qualidade do roteiro. Não estou desmerecendo o elenco, a direção, a fotografia, enfim, todo o “entorno” do filme. Contudo, neste caso, o roteiro é o maior trunfo. Não foi à toa que levou a maioria dos prêmios a que foi indicado. Lógico que nada é perfeito e há, no filme, algumas situações bem improváveis, mas que não tiram o mérito do todo.

SidewaysO diretor, que também é o roteirista, é Alexander Payne. É o mesmo de “Sideways” e “About Schmidt”, filmes que me deixaram com a mesma impressão ao final – de que eu os assistiria novamente de bom grado, mesmo já conhecendo a estória (“About Schmidt” um pouco menos que os outros). Hitchcock disse certa vez que “cinema é a vida sem as partes chatas”. E Payne consegue subverter essa afirmação. Suas estórias são simples, não há reviravoltas mirabolantes nem situações extremas. Seus personagens são “gente como a gente”, “the girl next door” como dizem os americanos, vivenciando situações comuns, que poderiam ocorrer a qualquer um de nós. E é a maneira como essas trivialidades do dia a dia são contadas que tornam a narrativa tão cativante. Pode-se até encarar esse característica de “ser comum” – não ordinário – dos personagens como um lembrete de sua insignificância ou, apelando para um clichê, de ser apenas mais um na multidão. Mas eu não vejo dessa forma.

Todos os filmes que citei até agora foram adaptados de livros homônimos:

  • “About Schmidt”, de Louis Begley
  • “Sideways”, de Rex Pickett
  • “The descendants”, de Kaui Hart Hemmings

About SchmidtIsso de modo algum tira o mérito do(s) roteiristas(s), uma vez que a transposição de uma mídia para a outra requer bastante habilidade. Não basta apenas transcrever os diálogos e “tirar do papel” os cenários. O roteirista, nesses casos, costuma ser bem sucedido caso consiga manter a essência da obra literária e dos personagens e, ao mesmo tempo, transpôr a estória para uma nova estrutura sem “perder” muito, ainda que seja preciso tomar algumas liberdades criativas. Não li nenhum deles. Não sei se são muitos bons, bons ou apenas medianos. Não posso afirmar se, nos livros, os personagens são mais ou menos complexos do que o que se vê na tela. Ou se a narrativa é mais ou menos cativante. Independente disso, o resultado na tela foi bastante satisfatório.

Qualquer pessoa que tenha interesse por estrutura literária ou cinematográfica conhece ou, ao menos, já ouviu falar sobre a jornada do herói ou monomito. Tanto faz se de Campbell ou Vogler, já que a estrutura macro é bastante similar. O que é relevante aqui é que uma boa estória (seja livro ou roteiro), na maioria das vezes, segue essa estrutura. E um bom filme, ou melhor, um bom roteiro pode ser assim considerado quando a jornada está lá, mas não fica “escancarada” para o espectador. Já havia comentando no meu blog (neste post sobre o incômodo causado ao assistir um filme em que isso era explícito demais. Contudo, os filme de Payne são bem sucedidos nesse sentido. Percebemos a jornada, os arquétipos, mas é tudo tão sutil que faz o espectador embarcar na estória (quase) sem ressalvas.

Jornada do heróiE o gosto, ou a preocupação, de Payne em analisar o comum, o ordinário reflete-se na escolha dos livros a serem adaptados. Em todos eles, há um protagonista – um homem comum, cercado de pessoas comuns – que é forçado a sair de sua zona de conforto por algum evento inesperado ou simplesmente fora da rotina. E, coincidentemente, o que se segue é uma viagem ou , mais poeticamente, uma jornada. Schmidt (Jack Nicholson) enviúva, põe o pé na estrada com seu trailer no intuito de impedir que sua filha se case. Miles (Paul Giamatti em “Sideways”) pega a estrada pelos vinhedos californianos com seu melhor amigo Jack (Thomas Haden Church), que se casará em alguns dias. Matt (Clooney) que, acompanhado das filhas e de um amigo delas, viaja para visitar as terras da família ao mesmo tempo que parte numa “missão” (citada no spoiler acima).

Acredito que o enfoque no “ser comum” seja responsável por gerar tamanha identificação do espectador com o filme. Afinal não somos todos pessoas comuns, vivendo situações comuns, sendo eventualmente confrontados com algo inesperado que requer de nós uma decisão, um crescimento interior, uma jornada?

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