Resenha: O Sul (El Sur) Victor Erice – 1983

 

Memória do Afeto

O desaparecimento de um ente querido e o contato com as sequelas da guerra cria o tipo de caos emocional que dificilmente se cura, sobretudo quando se trata de uma criança lidando com a ausência de um pai ou de uma mãe; todo o natural processo de mitificação e posterior desilusão com as figuras dos genitores fica interrompido, criando um tufão de perguntas sem resposta e um vazio para a fantasia mágica da infância preencher com toda força.
Um tema assim, retratado no cinema, poderia receber tratamento com densas cenas dramáticas intercaladas por outras de teor fantástico ou onírico.

Não foi essa a escolha que o diretor e roteirista Victor Erice, o cinegrafista José Luis Alcaine e o montador Pablo G. del Amo fizeram ao recriar o conto da escritora Adelaida García Morales no, infelizmente, inacabado e ainda assim insuperável filme espanhol, O Sul (El Sur), de 1983.
A película foi lançada 10 anos depois do êxito anterior de Victor Erice, O Segredo da Colméia, que já havia se estabelecido como uma das melhores produções espanholas de todos os tempos.
As filmagens de O Sul , estavam programadas para ocorrerem ao longo de 81 dias e foram encerradas prematuramente no 48º dia, os trabalhos foram tumultuados e marcados por desentendimentos entre o diretor e os produtores Elías Querejeta e Primitivo Álvaro; problemas no orçamento e diferenças criativas abortaram a produção do que seria a segunda parte do longa.

A obra, devido a isso, ficou com um final em aberto que, apesar de tudo, foi apropriado e casou muito bem com o corpo da narrativa sugestiva e permeada de enigmas sem solução. O grande sucesso de público e crítica obtido pela versão não finalizada de O Sul foi o argumento final para os produtores considerarem o filme encerrado e manterem a decisão de não rodarem o restante do roteiro de mais de quatrocentas páginas que, nas palavras do cineasta Carlos Saura, era belíssimo e muito difícil de ser filmado.
Em O Sul estão outra vez presentes as marcas registradas do diretor Victor Erice em suas parcerias com José Luis Alcaine; o obsessivo rigor na composição de cada quadro para que o ponto de vista da câmera siga a visão subjetiva dos personagens e o uso controlado e intencional da cor e das sombras, sempre contribuindo para o entendimento das paixões que os atores vivem na tela de forma precisa e econômica.
O Sul recria a memória de alguns episódios da vida da menina Estrella, vividos nos anos cinquenta, na idade de 8 e 15 anos, e sua relação confusa com o pai, Agustín, personagem misterioso, praticante da radiestesia e atormentado pelos efeitos da guerra civil espanhola

O papel de Agustín é composto com perfeição pelo ator italiano Omero Antoniutti ( Pai Patrão e A Noite de São Lourenço dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani) . Estrella é interpretada respectivamente pelas sensacionais atrizes mirins Sonsoles Aranguren ( hoje trabalhando nos feitos especiais de grandes produções espanholas) e Icíar Bollaín ( hoje atriz , roteirista, produtora e diretora de cinema de grande talento).
A forte carga de simbolismos do longa começa já no nome da protagonista, Estrella ou Estrellita, vários trechos têm início com trevas que vão aos poucos recebendo luminosidade e revelando a menina , como se ela fosse literalmente uma pequena estrela que se acende na tela, enquanto seu pai, que constantemente surge saído das sombras, tal qual uma figura decaída, parece buscar a luz e o calor que emanam do amor de sua filha.

A penumbra está muito presente no filme e é contrastada por uma luz que vai do amarelo ao laranja, criando uma oposição simbólica de quente e frio, vida e morte, esquecimento e memória sentimental. Em algumas sequências, ao contrário do que se costuma ver em paleta de cores no cinema, o azul é usado para atrair o olho do espectador.
Noutros três momentos, de brilhante uso da cor , objetos de cena são usados para revelar sentimentos ocultos dos personagens. Isso ocorre quando a menina Estrella está tomada por emoções fortes e contraditórias devido a atitudes de seu enigmático pai. Em uma dessas cenas, Estrella e sua mãe têm uma conversa tensa enquanto desenrolam um novelo de linha de um vermelho gritante.

Em outro momento, a menina, sem saber como lidar com as consequências da revelação de um certo segredo , tenta fugir de tudo escondendo-se embaixo de uma cama, ela está abraçada a um travesseiro do mesmo tom de vermelho

Essa cor surge novamente em um terceiro ponto no qual Estrella, já adolescente, tem um último e melancólico encontro com seu pai, ela segura uma rosa vermelha.

Merece destaque também a parte do filme na qual Estrella aguarda ansiosamente que seu pai, o qual intuímos ser contrário ao catolicismo, compareça à cerimônia de sua primeira comunhão. A sequência começa no interior da igreja, com planos fixos compostos com rigor geométrico e cores quentes,

é intermediada por uma cena em que Agustín surge da escuridão azulada do fundo da mesma igreja

 e termina na casa de Estrella, com a câmera sempre na altura da visão da menina, mostrando a mesa do almoço festivo e, em seguida, acompanhando os passos da dança de Estrella e seu pai, no único momento do filme que vemos o sisudo Agustín sorrir; um plano sequência de rara beleza que nos faz vivenciar toda intensidade do dia mais feliz da vida da pequena Estrellita.

Em certa altura da história, Estrella segue Agustín até um café no qual ele escreve uma carta para um antigo amor, Agustín percebe a presença da filha e sai para econtrá-la; nesse momento, Erice e Alcaine focalizam a divisão da janela do café separando Agustín e Estrella, mais abaixo seguindo a linha central da janela, vemos a mesa em que ele estava sentado e, sobre ela, a carta que marca a grande desilusão e o posterior afastamento entre pai e filha; uma única imagem funcionando como resumo perfeito de um complexo jogo de emoções.

As feridas abertas da guerra civil estão presentes como pano de fundo e causa invisível dos dramas familiares dos personagens, em uma curta e importante cena, cujo conteúdo não vou revelar aqui, outro objeto cênico, um fuzil, é usado como signo definitivo do espectro da guerra e da devastadora doença emocional que é sua herança.
Existem ainda muitos outros temas relacionados à forma como a història de O Sul foi contada que mereceriam ser comentados, isso tornaria a resenha extensa e cansativa demais, e claro, prejudicaria o grande prazer da descoberta dos mesmos, encerro o texto indicando com entusiasmo essa obra que, na filmografia de um país que tem Buñuel, Berlanga, Saura e Almodóvar, ainda conserva o brilho de uma estrela de primeira grandeza.

O Sul
(Sur, El, 1983)
Direção: Víctor Erice
Roteiro: Víctor Erice (escritor), Adelaida García Morales (romance)
Produção: Elías Querejeta
Fotografia: José Luis Alcaine
Montagem: Pablo G. del Amo
Gênero: Drama/Romance
Origem: Espanha
Duração: 95 minutos

IMDB  Rotten Tomatoes

Elenco:
Omero Antonutti – Agustín Arenas
Sonsoles Aranguren -Estrella, 8 anos
Icíar Bollaín -Estrella, 15 anos
Lola Cardona -Julia, a esposa de Agustín
Rafaela Aparicio -Milagros
Aurore Clément -Irene Ríos / Laura

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Um pensamento sobre “Resenha: O Sul (El Sur) Victor Erice – 1983

  1. Bela resenha, fiquei com vontade de ver o filme, do Victor Erice só conheço O espírito da colmeia, que assisti por recomendação de vocês no podcast sobre Carlos Saura. Esse O Sul deve ser muito lindo, as fotos e o video já me atrairam. Agora só falta achar o filme. É muito difícil? Alguma dica? Um abraço.

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