Intocáveis por Cristine Tellier

Intouchables (Intocáveis)
Produção francesa, de 2012. Roteiro e direção de Olivier Nakache e Eric Toledano. Com François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet.

Sinopse
O fenômeno mundial “Intocáveis” traz a história de um aristocrata que contrata um jovem para ser o seu cuidador após um acidente de parapente, o que o deixou tetraplégico. O que era para ser um período experimental, acaba virando uma grande aventura. Amizade, companheirismo e confiança são os elementos que transformam esse filme tocante e inesquecível. Filme indicado da França para concorrer ao Oscar 2013.
(fonte: site California Filmes)
Obs.: A sinopse não diz, mas o filme foi inspirado numa estória real, cujos “personagens” são mostrados um pouco antes dos créditos finais. O roteiro inspirou-se no livro O segundo suspiro, escrito por Phillippe Pozzo di Borgo. O cuidador, Driss, chama-se na verdade Abdel Sellou.

Para os que assistem – ou tentam assistir – a muitos filmes (minha média tem sido um a cada dois dias) é praticamente impossível assistir a um lançamento e não começar a lembrar de um e outro filme já visto. Pode ser pela semelhança na estória, na ambientação, nos personagens. Às vezes, basta apenas um detalhe. E com este, não foi diferente. Lembrei de vários outros, mas para a resenha não ficar extensa demais – e chata demais – vou citar apenas dois.

Inicialmente, por conta de duas características (explico adiante) é fácil pensar em Driving Miss Daisy, filme simpático e delicioso de assistir, com Morgan Freeman e Jessica Tandy. Assim como o motorista de Daisy Werthan (Tandy) é Hoke Colburn (Freeman), uma das funções de Driss (Omar Sy) como cuidador de Phillippe (François Cluzet) é dirigir-lhe o carro. E a diferença social entre os personagens é gritante em ambos os filmes, apesar de não ser pelos mesmos motivos. Daisy é a legítima representante W.A.S.P, numa época pré-Luther King, com um preconceito quase “inato” por negros, responsável pela “barreira” entre ela e seu motorista. Philippe é um milionário, bem-instruído, culto e erudito enquanto Driss é um ex-presidiário desempregado, morador do subúrbio, tentando viver às custas do governo. Não sei se optaram por um ator negro propositalmente, já que o “personagem real” não é negro, mas no meu entender a escolha serviu apenas para dar ênfase ao contraste e não para insinuar algum preconceito.

E, devido ao fato das diferenças não serem apenas sociais – a personalidade dos personagens é diametralmente oposta – The odd couple, com Jack Lemmon e Walter Matthau, logo surge como referência. Felix Ungar (Lemmon), além de neurótico e estressado, é maníaco por limpeza; enquanto Oscar Madison (Matthau) é a desorganização em pessoa. E em Intouchables, Phillippe é extremamente polido e contido. É óbvio que sua condição física enfatiza essa sua faceta, mas percebe-se nitidamente que mesmo que não fosse tetraplégico sua atitude seria a mesma. Em contrapartida, Driss é expansivo, debochado, fala alto, muito e rápido, gesticulando e usando sua presença corporal para complementar as ideias. Mas é interessante reparar que nenhum deles tem papas na língua. Um, certamente por ter concluído que já que não pode se mover, tem o direito de falar o que bem entender – sempre com muita educação, lógico; e o outro, sem falsa compaixão, por achar que não deve deixar de falar nada apenas por que o patrão é um inválido. Numa das primeiras trocas de gentilezas entre eles, Philippe pergunta a Driss: “Como é viver à custa dos outros?”. Sem titubear, Driss retruca: “Não sei, você que me diz. Como é viver à custa dos outros?”.

Pela temática, à primeira vista pode-se concluir que se trata de um drama, daqueles que tentam arrancar lágrimas do espectador a cada dez minutos e que degringolam para a pieguice. Mas não é o caso. É natural que haja um pouco de drama, tanto pela condição física de Phillippe quanto pela condição social de Driss. Contudo, o que mais se sobressai no filme é o humor leve que permeia toda a estória. A interação entre os personagens garante boas risadas, daquelas que deixam o espectador com a sensação de que não importa o tamanho do problema, sempre há uma brecha para o riso.

O elenco é responsável por grande parte da empatia. Cluzet – cada vez mais parecido com Dustin Hoffman – constrói um personagem bastante emblemático, mesmo tendo como “instrumentos” apenas sua face e sua voz. E Omar Sy faz o contraponto perfeito, sendo expansivo e de uma alegria contagiante. É interessante notar que tanto pela atuação da dupla quanto pela qualidade do roteiro, a interação dos personagens em vários momentos faz o espectador simplesmente esquecer a condição física de Phillippe.

O filme é um bom exemplar do chamado “feel good movie”. Apesar da presença de clichês, quase inevitável, faz por merecer a aprovação do público cinéfilo francês e a indicação ao Oscar. Enfim, um filme na medida certa para deixar o espectador “mais leve” ao terminar de assistir.

“Ele é insuportável, vaidoso, orgulhoso, brutal, inconstante, humano. Sem ele, eu estaria morto por decomposição. Abdel cuidou de mim sem cessar, como se eu fosse um bebê de colo. Atento ao menor sinal, presente em todas as minhas ausências, ele me liberou quando fiquei preso, me protegeu quando eu estava fraco. Ele me fez rir quando eu não aguentava mais. Ele é meu diabo guardião.”
(trecho de O segundo suspiro)

Conheça o blog de Cristine Tellier aqui

Veja também:
No imdb: o filme e os diretores ( Nakache  e Toledano )
No YouTube: o trailer 
Site oficial:

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