Resenha de livro: Jogador Número 1 por Marcos Noriega

Salada Bem Temperada

O romance Jogador Nº 1 foi meu único contato com o trabalho do escritor e roteirista Ernest Cline até agora. Não me interessei em assistir ao filme que ele roteirizou, o tal “Fanboys”. A história de um bando de fanáticos por Guerra nas Estrelas numa epopéia para encontrar George Lucas em seu rancho e ver, antes de todo mundo, o episódio 1 da então nova e chata trilogia Star Wars, definitivamente não é para mim.


Minhas expectativas em relação ao livro do senhor Cline não eram nada boas. Apesar da falta de entusiasmo inicial, devo dizer que acabei sendo presenteado com algumas horas repletas diversão e de um forte sentimento de nostalgia.
O livro parece, a princípio, uma simples mistura de aventura e ficção científica, no entanto, a leitura revela ambições um pouco maiores por parte do autor.

A trama de Jogador Nº 1 é abarrotada de referências a todo tipo de entretimento criado nos últimos vinte e cinco anos do saudoso século vinte. Ao longo de suas quase quinhentas páginas, acompanhamos a evolução dos videogames e computadores, somos apresentados aos conceitos centrais dos jogos de tabuleiro, fazemos memorialismo dos sucessos da música pop oitentista, reencontramos de forma inusitada os simpáticos personagens dos filmes de John Hughes, damos de cara com Ultraman e os Vingadores do Espaço e muito mais.


A trama se passa em um futuro próximo e distópico, com os velhos elementos de caos social gerado pelo aumento exponencial da pobreza, poluição e violência, tudo mal gerido por um governo corrupto que é manipulado por corporações empresariais diabólicas.
Ernest Cline usa esse quadro sombrio do porvir para fazer uma interessante e um pouco ingênua crítica ao poder que o avanço desenferado da tecnologia, associado ao capitalismo predatório, tem de degenerar completamente a vida em sociedade. Os pobres vivem segregados em guetos formados por amontoados de velhos trailers ou qualquer outro tipo de moradia improvisada. Há pouca comida, as fontes de energia são escassas, a água e os empregos estão em falta e não há quase nenhuma esperança além daquela proporcionada pela imersão no ambiente virtual chamado OASIS.


O OASIS foi criado um certo James Halliday, inicialmente para ser um jogo e, posteriormente, aprimorado e expandido para se tornar um intrincado universo que emula, de forma seletiva e aperfeiçoada, o mundo real e recria quase todos os mundos fictícios que a imaginação e a cultura humanas já conceberam.

Milhões de pessoas passam boa parte de seu tempo fugindo de suas vidas horríveis conectadas ao OASIS e, através de avatares personalizados, podem viver aventuras intergaláticas, fazer negócios, frequentar escolas sem bullying , consumir pornografia virtual hiper realista ou acessar milhões de jogos de todas as plataformas, além de livros, filmes, programas de tv e tudo mais que se possa querer com gráficos em três dimensões e possibilidade de simulação de todas as sensações físicas, através de roupas de imersão especiais.

Se algo assim existisse no mundo atual e não fosse muito caro, as pessoas não sairiam mais de casa para nada e a economia de vários países simplesmente pararia .

A descrição de tudo isso é feita de forma muito imaginativa e abundante em referências, o que deve ter requerido bastante pesquisa.
Muitos dos usuários do OASIS estão participando de uma busca a um tesouro chamado o Easter Egg, ou ovo, de Halliday, o qual só poderá ser encontrado através de um teste de conhecimento e habilidade que demanda a solução de vários enigmas e a superação de sucessivos desafios cada vez mais difíceis, estabelecidos pelo próprio James Halliday.

Para isso é necessário um profundo conhecimento do assunto preferido do criador do OASIS, a cultura pop dos anos 80 e 90. Assim, chegamos ao protagonista, Wade Watts e seu avatar Parzival. Wade é um rapaz de uns 17 anos, pobre, nerd e geek até a raiz dos cabelos, misantropo e um pesquisador fanático de absolutamente tudo que é necessário saber para ter chance de ganhar a disputa e, assim, levar o grande prêmio destinado ao vencedor, nada mais, nada menos, que uma fortuna de duas centenas de bilhões e o controle administrativo do OASIS.


Além de correr contra os outros incontáveis caçadores solitários ou reunidos em clãs, Wade tem de enfrentar os chamados 6. Um exército de milhares de mercenários com recursos ilimitados e espírito esportivo inexistente, eles fazem parte do quadro de funcionários da gigantesca e mafiosa empresa de telecomunicações I.O.I., cujos diretores estão dispostos a cometer qualquer atrocidade no mundo virtual e no real , inclusive assassinato em massa. O rapaz , ao longo da disputa, faz amizade com quatro outros jogadores que se tornam ao mesmo tempo seus aliados e adversários.

Ernest Cline usa de habilidade e detalhismo para caracterizar seus personagens e dotá-los de sentimentos e motivações humanas reconhecíveis, a única exceção, talvez, seja o principal antagonista, Sorrento, comandante dos 6, que é formatado como um vilão bem unidimensional e desumanizado, provavelmente, isso foi feito de propósito pelo autor.
Outra qualidade da prosa de Cline é seu sentido de estrutura, o enredo vai ganhando complexidade aos poucos e na cadência apropriada; as porções de drama, suspense, romance, e batalhas épicas são colocadas nos momentos certos e são bem dosadas.

O autor usa a história para mostrar sua visão crítica do mundo tecnofágico, competitivo e cheio de auto imposta solidão no qual vivemos. Há ecos de Phillip K. Dick William Gibson em todo o discurso de Jogador Nº 1.

Muitos leitores reclamaram da tradução de Carolina Caires Coelho, a editora Leya fez uma nova revisão e retificou erros na versão para o português de certos nomes e termos mais técnicos, eu li a tradução revisada e achei muito satisfatória.

No final das contas, Jogador Nº 1 foi, para mim, uma ótima experiência e um saboroso entretenimento literário, creio que sua leitura deve agradar principalmente aos maiores de trinta anos que poderão apreciar mais completamente o recheio de citações deste romance que consegue ser, ao mesmo tempo, um exercício de antecipação das possibilidades infinitas do avanço tecnológico e uma declaração de amor aos prazeres nerd do século passado.

Título: Jogador Nº 1 ( Ready Player One)
Autor: Ernest Cline
Editora: Leya
Tradução: Carolina Caires Coelho
Número de páginas: 462

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