O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas – Paulo Caldas e Marcelo Luna

 

Vejo com bastante cuidado as recentes notícias que a mídia mainstream adora veicular sobre a atual pujança econômica tupiniquim. Imunidade à crise internacional, índices de desenvolvimento humanos disfarçados, estrangeiros vindo ao país em busca de empregos, sétima economia do mundo… Tudo isso se dilui quando se dá uma volta pela periferia de qualquer grande cidade brasileira, em especial quando se está em uma capital nordestina.

O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (Brasil/2000), documentário de Paulo Caldas e Marcelo Luna, mergulha fundo na realidade das periferias de uma das mais violentas cidades do Brasil – Recife – mas o que é mostrado poderia muito bem se aplicar a qualquer megalópole brasileira. Conhecemos a trajetória diametralmente oposta de Helinho e Garnizé; o primeiro, assassino confesso de mais de 3 dezenas de pessoas e condenado a 99 anos de prisão; o segundo, músico da banda pernambucana Faces do Subúrbio.

Helinho sente-se justiceiro. Segundo o próprio, todos os mortos eram bandidos ou facínoras, gente que não merecia permanecer viva. Já Garnizé, também residente do município de Camaragibe (localizado na Região Metropolitana do Recife), busca no rap e na percussão um caminho menos tortuoso, mais poderoso, e nada sangrento na busca por disseminar a expressão daquele ambiente.

Mas, é apenas na indignação onde se dá a linha que liga os polos, na forma como é encarada a ausência e omissão de um Estado e uma sociedade torpes. As maneiras de reagir são diferentes. A questão é, qual dos dois caminhos é o mais eficiente para que a voz daqueles cuja cidadania é apenas um conceito abstrato seja ouvida? Quantos de nós já não sentimos uma vontade imensa de buscar a justiça com as próprias mãos, fato que nos torna mais próximos dos anseios de Helinho? A manifestação cultural e intelectual – a música de Garnizé – de fato constitui um caminho mais difícil, mas é aquele que proporciona a libertação, que traz consigo a capacidade não de remediar, mas de instigar a mudança no meio por dentro, excitando uma mutação na forma de enxergar as coisas.

E é por isso que O Rap do Pequeno Príncipe permanece atual. O Brasil é muito, muito mais do que aquele que aparece nas novelas, dos engravatados da Av. Paulista, ou dos que disputam quem conseguirá pilhar primeiro os royalties do petróleo. Uma vez que o clamor das periferias seja conhecido se faz necessária a ação da sociedade, ou as almas sebosas serão sempre as mais baratas…

Fábio Nazaré que também colabora no Gaveteiro

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