A Mosca – David Cronenberg

MOSCA

A Mosca (The Fly, EUA, 1986) foi a sina de muitos pais durante o final da década de 80 e início da década de 90, quando o filme teve as primeiras exibições na TV aberta. Apesar de sempre passar muito tarde, a criançada sempre arrumava um jeito de assistir, e claro, acabava dormindo muitas das noites seguintes na cama paterna. O interessante é que o filme de David Cronenberg não mira nos sustos e no medo do sobrenatural, mas sim no terror psicológico causado pela situação bizarra e angustiante que acomete o personagem principal.

A Mosca é a revisão de Cronenberg do clássico filme de 1958, A Mosca da Cabeça Branca, estrelado por Vincent Price. Seth Brundle, interpretado por Jeff Goldblum, é um pesquisador que trabalha num projeto audacioso: teletransporte. Brundle acaba se envolvendo com uma repórter de uma revista de divulgação científica, Verônica Quaife (Geena Davis). Verônica rapidamente percebe que o “telepod”, a máquina desenvolvida por Brundle, pode vir a ser a grande invenção da história, e passa a acompanhar o cientista em todos os passos que envolvem a edificação do estranho instrumento.

Ocorre que, numa ação impensada, o pesquisador decide servir como cobaia do próprio invento, e acaba negligenciando uma regra básica na condução de experimentos: estar ciente das variáveis que podem influenciar no resultado final do teste. Ele não percebe que junto com ele no “telepod” há uma simples mosca, fato este que engatilha uma sucessão de eventos ao mesmo tempo peculiares e aterrorizantes, como apenas David Cronenberg sabe fazer.

O diretor é fascinado pela estranheza que é causada por formas humanas deformadas, como bem mostrou em filmes como Crash – Estranhos Prazeres (1996) e eXistenZ (1999); porém, também foca uma boa parte de sua obsessão nas consequências psicológicas que tais deformações arrastam. Goldblum consegue transmitir com competência as mudanças de humor e a aflição atravessadas por Brundle em cada estágio da transformação do cientista no ser horrendo. De fato, a repulsa que o filme causa até hoje tem fundação na maneira como cada fase da alteração corporal do cientista é mostrada. Na caracterização crescente do monstrengo a equipe de maquiagem não poupou esforços. Não faltam feridas purulentas e regurgitações, efeitos até meio que datados e próximos do trash, mas empregados de forma interessante. Uma falta de cuidado na implementação da maquiagem, ao invés de causar voltas no estômago, tornaria o filme risível.

O clímax, apesar de ser atingido após o emprego de artifícios de roteiro que minam diretamente a suspensão da crença e atrapalham um pouco a imersão no universo claustrofóbico estabelecido, é chocante. A boa química entre Geena Davis e Jeff Goldblum contribui para que o espectador percorra o filme do começo ao fim num crescendo de tensão, repugnância e medo.

De qualquer forma, A Mosca não pretende estabelecer-se como uma referência sobre falta de ética e descuido no processo de fazer ciência e tecnologia. Funciona, antes de tudo, como um caminho para Cronenberg exercitar suas preferências e a maneira como enxerga o gênero terror. Neste caso, o que realmente faz este filme ser um marco do horror até hoje é a aptidão de fazer submergir paulatinamente qualquer vestígio de humanidade sob uma carcaça disforme e ulcerada. É aí que a experiência vicária entra em ação, e fisga até o mais viajado cinéfilo, seja o filme um drama, um suspense, ou um terror. Cinema de verdade é isso, embarcar com o protagonista e quase sentir na pele o que ele sente por mais inusitada que situação se mostre. Ponto para Cronenberg.

Texto originalmente postado no site Gaveteiro.com

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4 pensamentos sobre “A Mosca – David Cronenberg

  1. Esse filme, talvez tenha sido um dos primeiros que me tiraram o sono quando era moleque. Pense num filme nojento. Mas hoje consigo perceber um filme com um conflito muito interessante.

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  2. Se me perguntassem qual meu diretor de cinema preferido, provavelmente Cronenberg seria o nome que viria a mente, e A Mosca serve como ilustração de como um remake pode ser bom e bem feito.

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