O Primeiro Parágrafo de Anti-herói Americano

Certa vez assisti a uma palestra sobre escrita criativa. O palestrante ensinava que toda grande obra literária começa com um parágrafo marcante. Segundo ele, o primeiro parágrafo de um grande livro funciona como um micro conto. Mesmo que estivesse isolado do todo, seria esteticamente satisfatório. O primeiro parágrafo contém a alma do texto, ou se preferir o “DNA”.

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. (A Metamorfose de Franz Kafka).

O primeiro período da Metamorfose de Kafka funciona tão bem quanto o famoso micro conto de Augusto Monterroso:

Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Quando ouvi esta explanação me perguntei se o mesmo valia para o cinema. A primeira sequência de um filme funcionaria como um curta-metragem? Consigo pensar em pelo menos um exemplo em que isso é verdadeiro.

Em Anti-herói americano (2003) Paul Giamatti interpreta a história real de Harvey Pekar, um balconista de hospital que tem uma vida tediosa e problemática. O filme mostra  Pekar tendo uma epifania ao se deparar com o atestado de óbito de uma pessoa que trabalhou a vida inteira em um emprego burocrático e sem graça como o dele. Isso, somado ao fato de ver seu amigo Robert Crumb alcançar um grande sucesso como cartunista, o inspira a criar sua própria revista em quadrinho, a American Splendor, baseada em seu cotidiano e tendo ele como o herói, ou melhor, anti-herói.

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A primeira sequência do filme mostra uma cena tradicional de Halloween. Um grupo de meninos fantasiados de super-heróis bate à porta de uma casa para pedir guloseimas. A dona da casa distribui alegremente os doces entre Superman, Batman, Robin, Lanterna-verde e… Um menino sem fantasia. “Quem você deveria ser?” ela pergunta. “Harvey Pekar!” responde o garoto. “Harvey Pekar? Não parece um super-herói para mim” replica a senhora. “Eu sou apenas uma criança da vizinhança” resmunga o menino que desiste dos doces e sai caminhando pela rua mal-humorado.

Se me fosse apresentado apenas esta primeira sequência eu diria que é um ótimo curta-metragem. A sequência inicial de Anti-herói americano apresenta o espírito do filme. A vida do protagonista/autor de uma história em quadrinhos underground que retrata apenas a realidade. A realidade dele, amarga e pessimista. Com todos os problemas, angústias e crises, mas também a superação delas em alguma medida. Não há nada de fantástico. Ele não possui superpoderes. Os problemas que ele enfrenta nunca extrapolam a esfera de sua vida privada. No entanto, sua vida gera material para uma história em quadrinho. E assim a frase “Sou apenas uma criança da vizinhança” encontra eco em sua emblemática “A vida ordinária é uma coisa bastante complexa”.

 

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