Calabouço da Liv #04 – Gritos no Espaço

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“No espaço, ninguém pode ouvir você gritar.” 

Quem não conhece essa famosa (e apavorante) frase que serviu na divulgação de Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), dirigido por Ridley Scott, e que inspirou tantos outros cineastas a trabalharem com o gênero de terror/suspense espacial? É sobre isso que falarei hoje. Afinal, há algo mais assustador do que estar confinado em um espaço limitado no meio de um ambiente estranho e saber que existe algo com você que não deveria estar ali? E quando o confinamento é demais para a cabeça dos tripulantes? E se algo na missão não ocorrer como planejado? E o que será que é aquele sinal pedindo ajuda? Estes são apenas alguns dos temas que estão nos filmes que comentarei hoje.

O que me levou a escolher este tópico foram dois filmes de suspense espacial lançados este ano. Duas decepções, pelo menos para mim: Alien: Covenant e Life. Os trailers das produções animaram muita gente, pareciam realmente que seriam filmes tensos e interessantes, mas não. Covenant se perde dentro da própria história e Life não aproveitou seus atores, além de seu roteiro ser bem previsível. Mas enfim, não quero falar dos dois agora.

solaris

Antes de comentar os outros filmes, preciso citar aqui a República Checa e a mother Rússia e, pois elas já faziam filmes de angústia espacial muitos anos antes de Alien se quer pensar em ser lançado. Por exemplo, Viagem ao Fim do Universo (Ikarie XB 1, 1963) e Solaris (Solyaris, 1972) são dois longas complexos e bem tensos, onde você consegue sentir a claustrofobia dos personagens. É claro que Solaris foi uma resposta à 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968), porém apesar do filme de Kubrick ter uma parte de grande suspense, principalmente aquela envolvendo o Hal e o Dave, o Solaris de Tarkosvky abraça muito mais o terror psicológico, nos deixando tão chocados e confusos quanto o personagem principal.

Alien-Xenomorph-movie-aEu não quis falar muito de Alien: Covenant, mas não posso deixar de falar dos outros filmes da franquia (com exceção de Prometheus, também não vou comentar ele). Alien – O Oitavo Passageiro lançou uma das criaturas mais famosas do cinema, o xenomorfo, e é impossível não ficar assustado com ele. Aliens – O Resgate (Aliens, 1986) explora muito mais essa mitologia, criando agora a Alien Rainha – uma fofa. Esse talvez seja o filme mais amado da franquia, e foi dirigido por James Cameron, que sabe muito bem como escrever personagens carismáticos, sem deixar a ação de lado. Alien 3 (1992), dirigido por David Fincher (pois é, ele mesmo), foca mais na ação e esquece dos personagens, sem contar que o efeito usado para as cenas de corpo inteiro do xenomorfo são extremamente datadas e mal feitas até mesmo para a época, é de cair uma lágrima de tão ruim. Alien – A Ressurreição (Alien: Ressurrection, 1997), dirigido por Jean-Pierre Jeunet, é trash do início ao fim e ele nem tenta disfarçar a tosqueira. Eu, pessoalmente, me divirto com esse filme, apesar de saber que ele não é bom. Saudades, Ripley.

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Pra falar a verdade, o primeiro filme que me vem a cabeça quando penso em terror no espaço é O Enigma do Horizonte (Event Horizon, 1997), dirigido por Paul W. S. Anderson (conhecido por dirigir aqueles “filmes ruins que nós secretamente gostamos” como Mortal Kombat e Alien vs Predador). O longa conta a história de uma equipe de resgate, encabeçada por Laurence Fishburne, que vai atrás da nave Event Horizon, que havia desaparecido, mas retornou de forma misteriosa. É claro que chegando lá eles encontram a nave vazia, e logo percebem que algo de muito errado aconteceu ali. Acontece que a nave fazia parte de um experimento para testar o “teleporte via buraco negro”, e realmente ela conseguiu passar pra lá, o problema é que ninguém sabe exatamente o que seria o . Você pode levar os fenômenos para um lado científico ou religioso, você pode achar que eles foram para o inferno ou para alguma outra dimensão sinistra. A verdade é que o filme não liga muito pra isso, o importante a saber é que a nave começa a se voltar contra os tripulantes, mexendo com a cabeça deles. É aí que o filme adere ao típico esquema do “vai morrer um por um”. Sim, ele cheira a anos 90, mas é bem divertido e até tenso em algumas partes, vale a pena conferir.

O começo dos anos 2000 está lotado de filmes com essa temática, seria ótimo se todos fossem bons. Supernova (2000) é um exemplo daqueles que tentaram, mas ficaram só por aí mesmo. Vamos lá, a melhor coisa do filme é o James Spader (ou talvez eu ache isso só porque gosto de ouvir a voz dele e olhar pra cara dele). O filme tem aquele famoso “pedido de ajuda misterioso”, e é óbvio que o personagem do Peter Facinelli (o rapaz que eles resgatam) tem algo de errado, é só você parar pra prestar um pouco de atenção nele. Enfim, o filme não consegue passar nenhum tipo de tensão, as mortes são bem rápidas e a única coisa que você consegue sentir pelos personagens é indiferença, porque eles não foram desenvolvidos em nenhum momento.

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Em 2007 nós tivemos Sunshine – Alerta Solar, dirigido por Danny Boyle e estrelado por um elenco muito bom: o subestimado e ótimo Cillian Murphy, o nosso Capitão América Chris Evans, a versátil Rose Byrne, o ‘mais britânico impossível’ Mark Strong, a talentosíssima Michelle Yeoh, entre outros. A missão da nave principal, Ícaros II, é explodir uma bomba nuclear no Sol, para criar uma nova estrela dentro do moribundo astro, e assim reativá-lo para que a Terra não caia num inverno infinito. O problema é que outra nave já tinha tentado fazer isso antes, e por motivos desconhecidos, acabou falhando. Quando eles captam um sinal estranho vindo da Ícaros I, eles decidem ir averiguar e é aí que os problemas começam. O primeiro e segundo ato do filme são muito bons, porque eles têm paciência pra desenvolver os personagens e explorar a nave. O terceiro acaba caindo no cliché, mas mesmo assim o final me deixou satisfeita, e eu acho que o Danny Boyle soube levar o “vai morrer um por um” bem melhor do que Walter Hill em Supernova, por exemplo. Outra coisa importante a notar é o som do filme. Parabéns aos envolvidos, porque os efeitos sonoros são maravilhosos e eles só ajudam ainda mais a causar agonia e tensão.

Em 2009, foram lançados dois filmes com essa temática, porém eles não podiam ser mais diferentes um do outro. O primeiro é Pandorum, estrelado pelo Ben Foster e Dennis Quaid, dois overractors com uma química bem estranha. A história é basicamente sobre esses dois personagens, que acordam depois de anos “hibernando” e não se lembram de nada, mas mesmo assim têm que se virar pra sobreviverem quando percebem que não são os únicos dentro da nave. A verdade é que eu perdi o interesse pelo filme logo no começo, porque eles não tiveram a paciência (que eu tanto aprecio e citei acima) para desenvolver o ambiente e os personagens. O filme mal começa e eles já estão correndo dos monstros! Eu entendo porque muitas pessoas gostam dele, é bem mais terror e ação do que suspense. E como eu prefiro suspense (ou pelo menos um terror bem feito), acabei não curtindo.

gertyO outro de 2009 que preciso urgentemente citar é Lunar (Moon), dirigido por Duncan Jones (filho de David Bowie) e estrelado por Sam Rockwell e Sam Rockwell. Obrigada por isso, Duncan e Sam. Obrigada por este filme sensível, dramático e tenso. A minha vontade é gritar pro mundo todo assistir Lunar, porque ele, à primeira vista, parece um filme sem muita novidade e com uma sinopse simples demais, porém as reviravoltas do roteiro, a atuação de Sam Rockwell e toda a temática e tensão construídas são maravilhosas e com certeza merecem sua atenção. Eu não quero dar tantos detalhes para não estragar sua experiência, mas a história inicial é sobre Sam Bell, um trabalhador alocado na Lua, que é responsável por enviar para a Terra helium-3, o principal combustível limpo utilizado no planeta. Seu período de 3 anos solitários de trabalho (sua única companhia é a AI GERTY, dublado pelo maravilhoso Kevin Spacey) está finalmente chegando ao fim, e ele vai poder voltar para sua família, porém, infelizmente, um acidente o faz descobrir que as coisas não são tão simples como ele pensava. Se você ainda não assistiu, vai atrás! Ele é um daqueles filmes que ficam na sua cabeça por bastante tempo.

Vale a pena citar também Apollo 18 (2011), um found footage espacial de pouquíssimo orçamento, que mais parece um Atividade Paranormal versão sci-fi. Em 1974, três astronautas são chamados para uma missão secreta à Lua para coletarem materiais e colocarem os EUA ainda mais na frente da União Soviética, porém ao chegarem lá eles descobrem pegadas estranhas e o corpo de um astronauta russo. Logo eles percebem que os planos americanos não são tão inocentes assim e que eles podem estar fazendo parte de algum experimento bizarro. Olha, eu gosto de muitos filmes de baixo orçamento, ás vezes eu penso que até ajuda na qualidade do filme, mas esse não foi o caso aqui. A claustrofobia é um ponto positivo, mas é só isso. Eu sinto que se eles tivessem um pouco mais de dinheiro o filme poderia ter explorado o suspense e terror de forma melhor, ou talvez o problema seja do diretor e dos atores que não conseguiram dar conta. Eu confesso que levei alguns sustos, mas nada que seja o suficiente para me fazer gostar do filme. Outro que também quase chegou lá foi o britânico O Planeta Vermelho (The Last Days On Mars, 2013) estrelado por Liev Schreiber (mais conhecido pela série Ray Donovan). O primeiro ato do filme é muito bom, a trama parece interessante: no seu último dia de missão em Marte, um dos cientistas acaba descobrindo um tipo de bactéria que vai contaminando um por um e transformando-os em um tipo de ‘zumbi marciano’. O problema é que o filme é curto demais, as coisas vão acontecendo muito depressa e o final fica vazio, aí você se pergunta qual é a mensagem, afinal?

europareport2013.0102Finalmente, eu guardei o melhor por último: Viagem à Lua de Júpiter (Europa Report, 2013). Também no estilo found footage, só que sem a câmera amadora. Conta a história de uma missão à Europa, a maior lua de Júpiter, para explorar e coletar dados do suposto “oceano” que existe embaixo de sua superfície. O filme também tem um orçamento baixo, a diferença aqui é que o diretor (Sebastián Cordero) soube utilizá-lo muito bem. Além disso, todos os personagens foram bem desenvolvidos e explorados (aliás, um salve ao saudoso Michael Nyqvist que interpreta o engenheiro Andrei Block, e faleceu há alguns dias atrás). O suspense do filme não se baseia nos clichés do gênero, mas sim em elementos da própria ficção científica. O drama também está bem presente, e não é nada exagerado, mas sim necessário. Eu não diria que Europa Report é tão profundo quanto Lunar, até porque a pegada aqui é outra. Enquanto lá o ponto principal é a crítica, aqui é o amor e a dedicação dos profissionais à causa, e como ás vezes só com muito sacrifício conseguimos fazer descobertas incríveis.

Bom, é isso. Espero que nos próximos anos nós tenhamos muito mais filmes de terror/suspense espacial, espero que eles aprendam com os erros dos filmes passados (e atuais) e saibam aproveitar ainda mais o ambiente fechado e os mistérios desse universo lindo da deusa. Deixei de falar de alguns outros, mas como sabia que não ia conseguir abordar todos, tive que escolher os que mais me impactaram – seja pro lado bom ou ruim. Comentem com os seus favoritos ou indiquem outros, por favor!

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