Calabouço da Liv #05 – Quem nunca teve Um Dia de Cão?

 

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Filmes baseados em ‘fatos reais’ são bem frequentes no cinema. Afinal, a vida é bem maluca sem precisar de ajuda, e certos acontecimentos cotidianos parecem já terem saído da mente de algum roteirista criativo. O filme que escolhi para falar hoje é uma dessas histórias bizarras que tinham de virar filmes pelo simples fator absurdo que elas têm.

Em agosto de 1972, John Wojtowicz e Sal Naturale assaltaram o Chase Manhattan Bank, e o que tinha tudo para ser só mais um ato criminoso foi na verdade um acontecimento pra lá de incomum. Tão incomum que a revista Life escreveu um artigo sobre o caso intitulado “The Boys in the Bank” (Os Garotos no Banco), e é a partir deste artigo que o filme Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975) foi feito.

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Dirigido pelo mestre Sidney Lumet, o filme narra toda a trajetória de Wojtowicz (que no filme se chama Sonny Wortzik) e de Sal, desde o momento em que eles estão prestes a entrar no banco até a conclusão da história, com a polícia no aeroporto. Os astros principais são Al Pacino e o saudoso John Cazale, que já tinham trabalhado juntos em O Poderoso Chefão. Pacino está maravilhoso como Sonny, esbanjando o carisma que o personagem pedia, e é impossível você não se simpatizar com ele. Cazale está incrível como Sal (apesar do Sal verdadeiro ter sido vinte anos mais novo que ele), e é de se espantar a diferença entre seu personagem aqui – um cara quieto, traumatizado, que impõe respeito e medo imediatamente – ao seu personagem em O Poderoso Chefão, o Fredo Corleone, que nos fazia sentir pena, com toda sua fraqueza e covardia.

Como eu disse acima, a história deixa de ser apenas um assalto comum para se tornar uma história curiosa por diversos fatores. Fatores esses que valem a pena serem dissecados, porque tratam-se de temas bem atuais e problemáticos. O diretor soube lidar perfeitamente com tudo isso, sendo pouco expositivo, mas ao mesmo tempo mostrando o suficiente para nós entendermos.

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Pra começar, Sonny e Sal eram veteranos da Guerra do Vietnã, que assim como grande parte dos soldados, voltaram para casa acabados e não conseguiram nenhum emprego. Você percebe isso bem na figura do Sal, o quão traumatizado ele é, o quão a guerra o deixou frio, introvertido e indiferente. Ambos nunca tinham roubado nada na vida, o que faz muito sentido pela quantidade de trapalhadas que eles cometem. Pra começar, o terceiro integrante do grupo fica com medo e decide ir embora bem no começo do assalto. Sonny, sem saber o que fazer, o deixa ir. Logo depois eles percebem que o banco tem apenas poucos mil dólares, porque o carro-cofre tinha passado ali para buscar o dinheiro um pouco antes. Terceiro, Sonny tenta queimar o registro dos cheques para que eles não sejam rastreados e acaba chamando a atenção dos vizinhos na rua com a fumaça. É uma sequência de pequenos desastres que finalmente acarretam na chegada da polícia ao local, e é aqui que o circo começa.

Mesmo mantendo oito reféns dentro do estabelecimento, Sonny ganhou a simpatia do público, tanto por seu carisma quanto por invocar o nome “Attica”, que diz respeito à rebelião que aconteceu em uma prisão nos EUA, onde a polícia matou tanto condenados quanto inocentes. Sonny aproveitou bem isso, dando um show toda vez que saía para negociar com os policiais, chegando até mesmo a jogar dinheiro para as pessoas. Todo esse amor do público acaba, porém, depois que o verdadeiro motivo para o assalto é revelado, e este é mais um dos temas importantes que o filme discute.

Acontece que, apesar de Sonny ser casado e ter dois filhos com Angela, ele também era casado em (nem tanto) segredo com Leon (um muito inspirado Chris Sarandon), uma trans que estava internada numa clínica psiquiátrica após algumas tentativas de suicídio. Leon tinha convicção de que só se sentiria completa se fizesse a cirurgia de redesignação sexual, mas essa operação custava mais de dois mil dólares na época. Foi aí que, percebendo que Leon ia de mal a pior mentalmente, Sonny decidiu assaltar o banco para conseguir o dinheiro. Esta descoberta faz com que o público, que antes o apoiava, agora o xingue com ofensas machistas e homofóbicas, ao mesmo que também faz com que parte da comunidade LGBT o defenda.

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A cena do telefonema entre Sonny e Leon é inesquecível e brilhante por si só. Pacino e Sarandon improvisaram a conversa inteira, mostrando que tinham entendido muito bem seus personagens. Você sente a tensão e emoção ali: duas pessoas que se gostam, mas não se entendem. Um paralelo pode ser feito com a conversa entre Sonny e Angie, onde ela não pára de falar e ele acaba desligando o telefone em sua cara. Você percebe aí que o ponto problemático dos dois relacionamentos é Sonny, e isso é incrível, porque de início você é levado a acreditar que Leon e Angie são os causadores de problemas, quando, na verdade, eles são as vítimas. É claro que, considerando todo o contexto, Sonny também pode ser considerado uma vítima.

dog-day-afternoon-1975-al-pacino-pic-3A relação entre Sonny e Sal com os reféns também é algo muito curioso. As pessoas podem até achar que foi Síndrome de Estocolmo, mas a verdade é que eles só se sentiram ameaçados no início, pois logo depois perceberam que os dois homens estavam desesperados e que realmente não iam fazer nada contra eles. É até interessante notar que depois de um certo momento os reféns passam a ter mais medo dos policiais fazerem alguma coisa errada do que os próprios assaltantes. Inclusive, existe uma cena muito delicada e singela bem no final do filme, quando Sonny e Sal já estavam no carro dentro do aeroporto (eles tinham pedido um jato para saírem do país), em que uma refém é liberada, mas antes de ir embora com a polícia ela entrega seu terço a Sal, porque sabia que ele nunca tinha voado antes e estava nervoso.

Infelizmente a história não tem um final feliz para nenhum dos dois, principalmente para Sal. É excelente como o filme te faz sentir pena por eles e antipatia pela polícia. É claro que a polícia estava apenas fazendo seu trabalho ali, mas eles já carregam um histórico de injustiças e repressão grande nas costas, algo que o filme sabe passar bem mesmo sem ser explícito. Normalmente, para nos fazerem simpatizar com os anti-herois dos filmes, os roteiristas e diretores criam situações melodramáticas, bem expositivas, onde fica bem claro que eles querem que você goste dos personagens. Aqui não é assim, Frank Pierson (que recebeu um Oscar pelo roteiro deste filme) só nos mostra as pessoas como elas são: tons de cinza, com qualidades e defeitos, colocadas numa situação extraordinária por uma vida dolorosa, onde a sociedade te faz sentir como se você nunca fosse o suficiente.

Na vida real, Wojtowicz saiu da prisão depois de cumprir 5 anos. Ele ganhou dinheiro com os direitos autorais e com parte das bilheterias do filme, e usou a grana para pagar a cirurgia de Elizabeth Eden (no filme, Leon) como lhe havia prometido. Ele morreu de câncer em 2006, e Eden morreu por complicações envolvendo a AIDS em 1987, com apenas 41 anos.

Enfim, Um Dia de Cão é um filme essencial para qualquer cinéfilo ou mesmo quem simplesmente gosta de um suspense/drama com tons cômicos. E sim, o filme tem excelentes tiradas cômicas, um humor bem ácido e pesado que pode parecer estranho, mas faz muito sentido, afinal, a situação era realmente bem absurda. Apesar de ter sido feito em 74, ele continua bem atual e longe de estar datado, tanto pelos temas que citei acima, quanto pela cinematografia de Lumet e as atuações excelentes dos atores.

Deixem nos comentários o que vocês acham do filme, e alguns outros aspectos que vocês consideram interessantes!

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