Calabouço da Liv #07 – A Licantropia e o Feminino

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Mitos e lendas são extremamente importantes, não só para refletirem uma época e uma cultura, mas para servirem de metáfora. Os mitos de lobisomens estão entre os mais comuns, contados pelo mundo inteiro, seja no interior de Minas ou numa cidadezinha da Polônia. Algumas pessoas realmente acreditam terem visto o bicho perambulando nas matas ao redor de sua casa, e quem sou eu para desrespeitar ou descreditar tais crenças.

O mito do lobisomem já foi utilizado de mil jeitos diferentes no cinema, na maioria das vezes de forma literal: uma pessoa desafortunada que acaba sendo mordida e sai matando todo mundo que cruzar seu caminho. É a maneira mais simples e talvez a que atraia mais público, afinal, quem não gosta de um gore supernatural? Como exemplos famosos temos Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London, 1981), Cães de Caça (Dog Soldiers, 2002), Grito de Horror (The Howling, 1981) e O Lobisomem (The Wolfman, 2010). Porém, o papo aqui é outro, então vou deixar esses filmes de lado.

Como disse acima, a maldição do lobisomem serve muito bem de metáfora. Como a pessoa amaldiçoada que se descobre sendo habitada por uma besta assassina, a puberdade, o crescimento e amadurecimento nos rendem surpresas nem sempre tão agradáveis (dependendo do ponto de vista) em nossas vidas. E se você for uma menina passando por isso? Como vivemos em uma sociedade patriarcal, essa fase de descobertas pode ser muito pior para as mulheres, que desde pequenas são ensinadas a serem delicadas, dóceis e “femininas”. Se você sai dessa fórmula, acaba sofrendo uma repressão gigantesca, muitas vezes pela própria família e consequentemente por si mesma. E é aí que os lobisomens entram.

Em Possuída (Ginger Snaps, 2000), duas irmãs adolescentes que nutrem uma grande fascinação pela morte acabam entrando num ciclo de problemas e violência quando uma delas é mordida por um lobisomem. O título em inglês “Ginger Snaps”, quer dizer algo como “Ginger pira” (sendo Ginger a irmã mordida). O verbo também pode significar Ginger-Snaps-ginger-snaps-217684_319_250.jpgalguma coisa se soltando de outra ou se libertando, de certa forma. Ginger e sua irmã Brigitte nunca realmente se encaixaram na sociedade – mesmo quando aparentemente Ginger se encontra perfeitamente nos padrões de beleza europeus. A sua transformação na fera acontece lentamente, desde mudanças de humor até pequenos detalhes na sua aparência. E é bem perceptível que a ruiva vai se sentindo melhor com o passar das fases, como se ela estivesse finalmente saindo da caixa, ganhando confiança sobre quem realmente é. É claro que a dor vem junto, mas mesmo assim, você ainda consegue sentir que Ginger está mais confortável como lobisomem (lobismulher?) do que na sua antiga forma humana, mesmo se for algo subconsciente. É como se o que for libertador para nós pode ser feio e ofensivo para os outros.

Jack & Diane (2012) é um outro exemplo de como, ás vezes, a própria mulher se vê de forma bestial se seus sentimentos vão contra os padronizados e esperados pela sociedade. O filme conta a história de duas meninas que se encontram de forma aleatória em Nova York e sentem uma conexão instantânea à primeira vista. Enquanto elas vão se conhecendo e se apaixonando, Diane começa a ter visões de si mesma como jack_05cfauma lobisomem horrenda. Quanto mais intensos os seus sentimentos piores são suas visões. O filme em si é muito lento, e o diretor acaba se perdendo, sem saber aproveitar o talento das duas atrizes principais (Riley Keough e June Temple), mas a história me impressionou ao demonstrar muito bem como nós nos reprimimos tanto durante a vida, que quando finalmente resolvemos abraçar nossos desejos verdadeiros e liberar nosso eu real é como se estivéssemos liberando um monstro, nos tornando uma criatura bizarra que não pode ser vista, pois se for vista assustará todos ao nosso redor.

Na maioria dos filmes são os homens que viram os lobisomens, e isso, muitas vezes, é tratado de forma até romântica. Eles costumam focar mais na violência e em suas consequências, uma abordagem mais literal e sem muita profundidade psicológica. Já nos poucos filmes em que mulheres são as criaturas os conflitos são muito mais internos, e a transformação é tratada de forma mais bizarra, como se fosse pior, porque elas estão deixando de ser seres delicados e belos, para se tornarem agressivas, grotescas, fortes e poderosas – qualidades muito mais bem aceitas no sexo masculino.

Pode parecer só algo de filme, mas a licantropia no mundo real é considerada uma doença mental, e acontece quando o paciente jura se transformar em lobo ou em algum outro animal. Posso falar por experiência, tanto minha quanto de amigas, que quanto mais nos reprimimos e quanto mais nos sentimos excluídas e marginalizadas socialmente nós passamos a nos odiar e a nos vermos de forma diferente, e é aí que surge a dissociação e a disforia. Afinal, o que seria a licantropia além de uma representação dessa disforia?

 

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