Calabouço da Liv #08 – O que é que a Nova Zelândia tem?

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A maioria das pessoas conhece a Nova Zelândia por ser o cenário das trilogias da Terra Média, com suas montanhas esplendorosas e os infinitos campos verdes. Realmente, o país já foi local de diversos filmes e séries devido a sua beleza natural. Xena – A Princesa Guerreira, Avatar, O Último Samurai e Spartacus são apenas algumas das obras que foram gravadas por lá. Peter Jackson e Jane Campion são dois diretores neozelandeses muito famosos internacionalmente, ambos já ganharam Oscars, e gostam muito de explorar as paisagens locais em seus filmes. Se eu fosse uma diretora lá também exploraria, afinal, o país é lindíssimo mesmo, e a sua aura etérea é intemporal.

Colonizado violentamente por europeus, a Nova Zelândia, felizmente, ainda possui uma forte cultura Maori. Pra quem não sabe, os Maori são os povos nativos da ilha, que sofreram horrores nas mãos dos colonizadores. Além de terem sido contaminados com as doenças europeias e perderem suas terras, eles também passaram por batalhas sangrentas – ás vezes, até mesmo entre suas próprias tribos – graças a interferência dos homens brancos.

Eu precisava fazer essa introdução, porque escolhi aqui cinco filmes neozelandeses que contam um pouco a história do país e mostram a realidade que muitas vezes é esquecida. Como tenho uma grande fascinação pela cultura e o povo Maori, decidi me concentrar nessa temática ao escolher os filmes. Vamos a eles:

The Dead Lands (2014) longa falado totalmente no dialeto Maori; se passa antes da colonização europeia, e conta a história do jovem Hongi (James Rolleston, muito talentoso, também vai estar em outro filme comentado mais adiante) que vai atrás de vingança depois que Wirepa, o filho do líder de outra tribo, massacra a sua aldeia e mata o seu pai. O filme segue, paralelamente, os caminhos de Hongi e do grupo de Wirepa por dead-lands-the-002entre as “terras mortas”, que ficam bem no coração da floresta. O local é temido por todos, pois a lenda diz que um demônio comedor de carne humana ronda a área, matando qualquer um que passar por ali. Na verdade (e não se preocupe, isso não é um spoiler tão grande), o tal “demônio” é um guerreiro poderoso e amargurado com um passado sinistro. Lawrence Makoare, que interpreta o Guerreiro, está maravilhoso no papel, conseguindo emocionar nas cenas mais inesperadas. A ligação dos guerreiros Maori com seus antepassados é muito forte e simplesmente linda, e além de contar com cenas de batalhas excelentemente coreografadas, o filme também ensina muito sobre família.

Kawa (Nights in the Gardens of Spain, 2010)  dirigido por Katie Wolfe, o drama mostra Kawariki (Calvin Tuteao), um homem bem-sucedido, marido e pai de família, que finalmente decide assumir sua homossexualidade. A complicação, porém, é que Kawariki faz parte de uma tradicional família Maori, e seu pai acaba de lhe passar o kawamanto da liderança. Como o próprio Kawa diz “não posso ser Maori e gay ao mesmo tempo”, já que homossexualidade ainda é taboo para os grupos mais tradicionais. Calvin Tuteao sabe demonstrar muito bem os conflitos interiores do protagonista, e a sua luta sobre escolher ser quem ele realmente é ou ser o que ele acha que seja o “certo” para sua tradição. Katie Wolfe não desperdiça nenhum momento de contemplação dos personagens, e os diálogos são dolorosamente reais. É um filme bem sensível e simples, que com certeza vai conseguir tocar quem luta por igualdade e por mais aceitação na sociedade.

Boy (2010) dirigido e estrelado por Taika Waititi (diretor do filme mais recente do Thor), também conta com James Rolleston (só que aqui bem mais novo), e narra a história de um menino Maori fanático por Michael Jackson, que vive numa fazenda em uma cidadezinha, com sua avó, seu irmão e seus primos. O filme se passa em 1985, e a quantidade de referências à cultura pop é absurda. Boy (o apelido do menino) vê o pai ausente como sendo um super-herói, um ídolo habilidoso. A verdade é que seu pai nada boy-2.jpgmais é que um criminoso atrapalhado, que nunca ligou muito para os filhos. Acontece que, depois de praticamente passar a vida toda longe das crianças, o homem volta para casa, e não porque ele sente falta da família, mas sim porque acredita haver um milhão de dólares enterrados no quintal. Boy fica maravilhado com a sua chegada, querendo exibir o “super pai” para todos os amigos, mas é claro que não demora muito para os conflitos chegarem. Waititi atua tão bem quanto dirige, o que é muito bom. O filme tem ótimos tons cômicos, ao mesmo tempo que não deixa a peteca do drama cair. Outra coisa que me impressionou no filme é o retrato das famílias Maori, que parecem estar isoladas e marginalizadas do resto do país. É bem claro a pobreza e a precariedade na situação das crianças, o que é de partir o coração. Preciso chamar atenção aqui, também, para o irmãozinho de Boy, Rocky, que acredita ter poderes mágicos e é tão fofinho que vai derreter seu coração.

Encantadora de Baleias (Whale Rider, 2002) – talvez o filme mais famoso desta lista, pois foi indicado ao Oscar por melhor atriz para a excelente Keisha Castle-Hughes, que na época tinha apenas 12 anos. Ela interpreta Paikea, uma menininha que vive em uma comunidade Maori com seus avós e seu tio. Acontece que seu avô, o líder da comunidade, acreditava que o seu filho (o pai de Paikea) fosse gerar o novo chefe escolhido pelos deuses para liderar o grupo quando o avô falecesse, só que o menino (irmão gêmeo de Paikea) morreu no nascimento, junto com sua mãe. Paikea, desde então, vive com esse WhaleRider-Slide3peso em suas costas, pois seu avô acredita que depois de seu nascimento a situação da comunidade Maori foi se deteriorando. Determinado a encontrar um novo líder masculino (meninas não são permitidas), seu avô decide montar uma “classe” de possíveis candidatos, ensinando-os cantos, lutas e todas as coisas necessárias para ser o chefe. Paikea não aceita isso facilmente, e começa a treinar em segredo com seu tio, focada a provar para seu avô que ela é capaz de liderar e ser tão boa quanto qualquer menino. As atuações da pequena atriz e de Rawiri Paratene (que interpreta o avô) são ótimas, os dois tem muita química em cena, e você realmente consegue sentir todo o amor misturado a tanta frustração. A diretora Niki Caro (que também dirigiu Terra Fria) sabe trabalhar muito bem a conexão dos Maori com a natureza, ela consegue fazer o filme ser realista e místico ao mesmo tempo, sem contar que as cenas envolvendo as baleias são lindas e extremamente sensíveis.

O Amor e a Fúria (Once Were Warriors, 1994) – um dos clássicos neozelandeses, faz um retrato bem cru da realidade dos grupos Maori que moram na grande cidade de Auckland. A história segue a família Heke, que vive em meio à violência e a pobreza. O pai da família, Jake (Temuera Morrison, mais conhecido por ter sido o Jango Fett em Star Wars), faz parte de uma das gangues locais, é um homem impulsivo, extremamente violento e abusivo. Algumas das cenas mais fortes do filme mostram Jake espancando sua esposa, Beth (Rena Owen, excelente, que também participou de Star Wars e The Dead Lands). Não é um longa fácil de se assistir, não apenas por toda a violência doméstica e once-were-warriors-singsongentre as gangues, mas também por mostrar o drama e o sofrimento dos filhos, que se veem presos nessa realidade, sem poderem fugir do ciclo. O título original em tradução livre seria “já fomos guerreiros”, fazendo referência às tribos guerreiras Maori das quais as famílias dali são descendentes. Isso é muito significativo e triste, porque os Maori eram tão gloriosos, donos legítimos da terra, podiam viver livremente até os europeus chegarem e mudarem tudo. Como é justo as comunidades Maori serem marginalizadas enquanto os descendentes de europeus ficam com o dinheiro e o conforto? Além disso, o título também mostra que o povo Maori nunca realmente deixa de ser guerreiro, o que muda é que as batalhas são diferentes.

*Filme bônus: Ovelha Negra (Black Sheep, 2006) – este filme aqui não tem nada a ver com os outros acima, ele não trata de nenhum tema importante e não possui nenhuma mensagem profunda, mas eu preciso citá-lo porque ele é extremamente trash. A história é basicamente sobre uma ovelha modificada geneticamente que acaba espalhando uma doença entre todas as ovelhas, o que faz com que elas se revoltem contra os moradores e os persigam avidamente, e sabe o que acontece quando uma delas morde uma pessoa? O Black_Sheep_1humano vira um tipo de “ovelha-homem”. Sim, isso mesmo. Lobisomem é coisa do passado. Pode parecer loucura pra gente um filme de terror com ovelhas, mas na Nova Zelândia existem mais de 40 milhões de ovelhas, mais ou menos 10 ovelhas para cada ser humano, então seria realmente assustador se todas elas de repente se rebelassem contra as pessoas. Acho que podemos chamar esse filme de “sheepxploitation”. Nem preciso dizer que tem muito gore e efeitos visuais horríveis, né? Mas pode assistir, o filme é bem divertido.

Enfim, o que não falta na Nova Zelândia é filme bom, tanto para o lado Maori quanto para o europeu. É muito bom lembrar que o país é bem mais do que simplesmente bonito. Ele é cheio de história, com uma bela cultura imortal, e uma realidade muitas vezes esquecida. Espero que vocês tenham gostado do post e dos filmes. Comentem com os seus favoritos e mais sugestões, se quiserem.

 

 

 

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