A casa (Uruguai, 2010)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos ao Uruguai.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

A CASA (Uruguai, 2010)

La casa muda –Terror – 1h26min – Gustavo Hernández

A obra em 9 segundos

Rodado em apenas quatro dias e apresentado como um suposto plano-sequência único, A Casa é um terror uruguaio que retrata o desespero de uma mulher tentando escapar de um sinistro imóvel isolado.

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A obra em 44 segundos

O terror é um gênero cinematográfico em constante mutação. Os cineastas que se enveredam por tal seara precisam sempre se reinventar para surpreender, criar impacto, desconforto, e para desenvolver mecanismos que despertem o medo do espectador. Algumas estratégias utilizadas há cinquenta anos, por exemplo, não funcionam mais, e muitas obras que eram assustadoras, atualmente são contempladas apenas por seu valor artístico e histórico. Em A Casa, filme uruguaio de 2010 que retrata o desespero de uma mulher tentando escapar de um sinistro imóvel isolado, o diretor Gustavo Hernández brinca com a linguagem do cinema e a usa em seu favor, apresentando um suposto plano-sequência único de quase 80 minutos, onde é permitido olhar, mas não é possível acreditar no que se vê.

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A obra em 2 minutos e 32 segundos

Obras ambientadas em casas sinistras, com acontecimentos esquisitos, não são novidades. Histórias assustadoras supostamente baseadas em fatos reais também não são raras. Filmes de terror filmados com câmera na mão, com o intuito de tornar a experiência mais imersiva para o público, já foi uma surpresa, hoje não é mais. O poder surpreendente de A Casa, película de estreia do cineasta uruguaio Gustavo Hernández, está na mistura de todos os elementos citados, temperada por uma competente “brincadeira” com a linguagem cinematográfica.

Laura (Florencia Colucci) se hospeda, juntamente com seu pai, na isolada casa de campo de um amigo, com o intuito de realizar reparos para a futura venda do imóvel. Porém, pouco tempo depois de sua chegada, coisas estranhas começam a acontecer, e ela precisa encontrar uma saída do lugar. Rodado em apenas quatro dias, com um orçamento de aproximadamente seis mil dólares, e apresentada como um suposto plano-sequência único, A Casa retrata o desespero de Laura tentando escapar dos horrores do local.

Cultuado em Cannes, a obra divide opiniões de crítica e público, principalmente pela sua realização completa em um “falso” plano-sequência. Primeiramente, o filme apresenta um suposto terror em tempo real, em que o espectador acompanha a protagonista pelo seu calvário, durante determinado período. Com o desenrolar da trama, entretanto, percebe-se que o tempo da personagem e o tempo de quem assiste não são os mesmos, e que tudo aquilo que é visto na tela pode não ser realmente o que se vê.

Sem efetuar cortes explícitos, o diretor realiza sutilmente a transição de perspectiva, variando entre o olhar de dois personagens distintos e a visão onisciente do público. Na literatura, é sabido que não se pode confiar no narrador em primeira pessoa, da mesma forma que no cinema é comum que o espectador seja traído pela relação deturpada do personagem com a realidade exposta por ele. Em A Casa, não é possível acreditar nem nos próprios olhos, pois, aos poucos, o diretor vai revelando (inclusive pelo uso interessante de fotografias) que está enganando desde o início, e esta “fraude” incomodou profundamente os críticos.

Em que pese a decepção de alguns, a “falcatrua escancarada” de Gustavo Hernández é o que torna A Casa um filme diferente, que subverte a lógica da necessidade de fazer sentido e de se impor limites à criação narrativa. A obra é recheada de clichês, tem criança fantasma, tem boneca, tem pássaro, tem susto desnecessário, tem porta batendo, tem escuridão escondendo segredos, e tudo mais. Todavia, é um trabalho que merece atenção e aplausos, pelo seu experimentalismo e por tentar dar uma aloprada em conceitos tão repetitivos do gênero, contando com um ínfimo investimento financeiro.

Ponto forte: Toda a construção da narrativa por Gustavo Hernández e sua equipe é o ponto alto da película. O jogo de câmera, a manipulação de cenários, a distribuição de pistas, a sintonia entre os planos e os movimentos da atriz, tudo é muito bem orquestrado.

Ponto fraco: Em alguns momentos, o filme se utiliza de artimanhas desnecessárias de luz e som para assustar o espectador.

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Ficha Técnica

Direção de Gustavo Hernández

Roteiro de Oscar Estévez, baseado em uma história de Gustavo Hernández e Gustavo Rojo

Elenco principal com Florencia Colucci, Gustavo Alonso, María Salazar e Abel Tripaldi

Produção de Ignacio García Cucucovich e Gustavo Rojo

Fotografia de Pedro Luque

Edição de Gustavo Hernández

Design de produção de Federico Capra

Figurino de Federico Capra, Carolina Duré e Natalia Duré

Trilha sonora de Hernán González

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Dica cultural, diretamente do Uruguai

A dica cultural de hoje é a obra de um dos principais pensadores da sociedade latino-americana e suas mazelas: o jornalista, escritor e militante político Eduardo Galeano. Odiado pelos elementos estagnados à Direita, o autor se tornou um símbolo do ideário esquerdista, apesar de, em determinados momentos, ter seu posicionamento questionado pelos próprios entusiastas de seu trabalho. Com uma escrita pungente e combativa, Galeano escancarou para o mundo a História de exploração, violência e opressão em que foi embasada a dinâmica social latino-americana, colocando-se sempre ao lado dos oprimidos e injustiçados. Sua publicação mais famosa, As veias abertas da América Latina, alcançou os status de best-seller e clássico da literatura anticapitalista, ao rediscutir séculos de uma história, antes calcada em versões oficiais contadas por homens, brancos, ricos, militares. Memória de Fogo, Nós dizemos não, O livro dos abraços e O futebol ao sol e à sombra (aliás, Galeano era um aficionado por futebol e um estupendo cronista esportivo) são outras importantes obras de sua prolífica criação, publicadas no Brasil. Eduardo Galeano é um dos grandes nomes das letras uruguaias, tendo as suas ideias influenciado diversos líderes e governantes da Latino-América.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

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