Los Ojos De Julia

Dirigido por Guillem Morales e produzido por Guillermo Del Toro, Os olhos de Julia é uma produção espanhola com muitas qualidades técnicas e um roteiro que, a primeira vista parece simples, mas cresce em torno de sua protagonista, Julia, interpretada com talento pela atriz Belén Rueda.

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El Espiritu de La Colmena


Na Ocasião em que assisti “Labirinto de Fauno”, conheci esse filme, mas acabei não o assistindo. Falavam da semelhança entre a alegoria existente ambos.

No entanto, consegui assistí-lo um dia desses, e de fato são parecidos apenas, ao meu ver, no fato de se tratar de como crianças, acabaram passando por momentos da guerra na espanha, mas nem de perto está relacionado à traumas violentos em consequência da própria guerra. 

Aqui, somos apresentados a Ana, uma criança inocente, no sentido mais puro que essa palavra possa ter, mora com sua família em uma vila rural, no interior da espanha. Um dia, um cinema itinerante chega ao local e exibe “Frankenstein”, de James Whale, essa cena é de fato linda, o diretor estava atento e capturou a reação verdadeira de Ana diante do filme ao qual assistia pela primeira vez, o filme mudou a vida dela de tal maneira, que ela não poderia mais deixar de pensar na morte e em suas consequências.

A irmã de Ana, conta a ela que tal monstro existe, e que ela mesma o viu nos arredores da casa onde elas moram, isso passa a ocupar os dias de Ana, a procura por Frankenstein, até que um dia tal encontro acontece!

Claro, que o filme é um tanto difícil de “digerir” e é um tanto quanto lento, mas tudo é proposital, não entrarei nesse mérito aqui, pois há inúmeros textos bons na Internet que falam da relação desse filme com os eventos políticos e filosóficos, durante os anos 40 na Espanha.

Achei interessante a forma como o filme aborda de forma singela e tênue, o impacto que o cinema pode trazer na vida de uma pessoa, bem como ele não deve ser visto apenas como entretenimento, mas ele é capaz de despertar a pessoa para a realidade existente a sua volta.

É curiosa a cena em que Ana está na escola e estão tendo aula de ciências, e aprendendo sobre o corpo humano, a professora coloca um boneco diante das meninas, e nesse boneco, faltam diversos órgãos, e as meninas vão montando-o, após um tempo, a professora indica que falta apenas um, e é Ana que o completa, o que faltava ao boneco eram os olhos. É como se Ana tentasse dar visão ao expectador, pedindo para que você abra os olhos, e comece a enxergar a realidade ao seu redor.

É engraçado ainda que Ana viu o mesmo filme que sua irmã, mas o impacto real foi causado apenas em Ana, mostrando que muitos, infelizmente, não se deixam ir além do que vêem na tela.

Convido vocês a experimentar esse filme, tenha paciência e permita-se encantar com Ana!

Paisagem na Neblina (1988)


Duas crianças, uma menina de 11 anos e um menino de cinco, decidem fugir de casa. Deixando a mãe para trás, sem dinheiro ou referência, saem de Atenas em busca do pai, que emigrou para a Alemanha. Os dois não sabem que esse pai na realidade não existe, e que nem mesmo são filhos do mesmo homem. Assim, sua jornada torna-se uma entrada perigosa e dramática no mundo adulto. Filme de Theo Angelopoulos ganhou Prêmio da Crítica na 15ª Mostra de Cinema de SP e o Leão de Prata no Festival de Veneza, além de ser considerado o melhor filme Europeu de 88.

Com um cinema reflexivo, com longos planos-sequência mostrando o estado emocional de seus personagens, Angelopoulos mostra nos seus filmes dramas humanos da busca do homem pela sua razão de ser, entrando em conflito com suas ideologias, seus sonhos e desejos que vão se transformando na medida que o seu olhar sobre o mundo vai ficando mais revelador e desconcertante. Póetico, sensível e humano, demasiado humano.

 

Atraído pelos mitos fundadores do seu país e da filosofia que lá se originou, Angelopoulos atualiza o mito de Orestes (que volta para vingar a morte do pai, na tragédia de Ésquilo) na figura de um motoqueiro que faz parte de uma trupe de atores e que cruza o caminho dos protagonistas como um símbolo do amor. Os símbolos, aliás, permeiam todo o filme. Como a gigantesca mão, retirada do mar por um helicóptero (acima) e que remete, imediatamente, à procura por um Deus que possa redimir uma realidade tão ameaçadora, na história de uma civilização que perdeu as rédeas e se encontra entregue a um pessimismo atroz.
Numa escritura cinematográfica rigorosa que abdica da lógica para firmar uma poética de profundas reverberações humanistas, o filme torna-se fascinante na medida em que o não-dito adquire uma força descomunal numa demonstração de que, às vezes, nenhum gesto ou palavra poderá emprestar aos sentimentos uma tradução coerente.

É neste sentido que a cena do estupro de Voula, que não é mostrada, torna-se o emblema mais eloquente e chocante desse filme. Exatamente porque o seu horror não poderá jamais ter um correspondente em imagens. Restam o silêncio e a dor, que serão os companheiros da menina para rejeitar o amor de Orestes, em outra cena de tristeza descomunal.
A cada revisão de Paisagem na Neblina, é certo que outros planos sempre nos surpreendam, como é o que é mostrado aqui ao lado. Angelopoulos, com seu domínio ímpar da mise en scéne e um talento notável para contar histórias, realizou um filme onde cada novo plano sobrevive como um enigma, e cada fotograma em branco é capaz de acobertar, de fato, uma árvore. Basta se comprometer a enxergá-la.





Título original: Topio stin omichli

Direção: Theo Angelopoulos
Direção de fotografia: Yorgos Arvanitis
Roteiro: Theo Angelopoulos, Tonino Guerra, Thanassis Valtin
Produção: Theo Angelopoulos, Eric Heumann, Stéphane Sorlat
País: Grécia
Ano de produção: 1988
Duração: 127 min.