Os Fantasmas de Goya – Milos Forman

Francisco José de Goya y Lucientes (1746 – 1828) encontra-se, junto a Velázquez, no panteão dos gigantes da pintura espanhola. Dentre os vários temas de seu trabalho, o destaque conferido aos panfletos anti-belicistas, obscuros e obscenos inspirou o diretor tcheco Milos Forman a desenvolver um contundente e explícito manifesto cinematográfico contra a truculência e a estupidez humanas. Falamos de Os Fantasmas de Goya (Los Fantasmas de Goya/EUA, Espanha/2007), no qual nos é apresentada uma passagem fictícia da vida de Goya abalizada pelos últimos suspiros de uma bestial Santa Inquisição católica em conjunto com a chegada das primeiras ideias iluministas a Madrid.

A questão é que não se deseja fazer uma crítica ao catolicismo ou qualquer fé religiosa em particular, mas sim apresentar a selvageria que se dissemina quando a moral escusa se esconde por detrás de uma névoa de virtude.

No final do século XVIII, durante o ocaso da Inquisição Espanhola, um inquisitor linha-dura chamado Lorenzo (Javier Bardem) inicia uma caça às bruxas em Madrid, instigando com veemência a prisão e a tortura de cidadãos por motivos banais. A centelha da história acontece quando Inez (Natalie Portman), filha de um proeminente comerciante madrilenho e uma das musas de Goya (Stellan Skarsgard), é convocada para um interrogatório pelos padres católicos.

Com este mote é de se esperar que a característica ferina do ser humano surja em todo o seu esplendor quando a intenção é manter o moto perpétuo da dominação. E é exatamente isso o que ocorre. Na verdade, a truculência religiosa da época não se resume a uma “simples” tirania com o intuito de eternizar a inércia dominadora, vai além.

Em Os Fantasmas de Goya o prazer humano pela tortura e pelo tormento alheio é escancarado, mesmo apresentando sequências de martírio que nem de longe retratam o que de fato acontecia nos porões das Igrejas.

Sob essa ótica, é o próprio Goya que nos conduz pela mão, ou melhor, que personifica o espectador dentro da trama. Através de seus olhos sentimos o medo do confronto contra aqueles que exercem a autoridade atroz, a angústia pelo sofrimento daqueles que gostamos, e a cólera contra aqueles que são capazes de reduzir uma pessoa a um saco de ossos indigno que não mais age, não mais pensa. Mas aí, com a chegada das ideias da Revolução Francesa a Espanha a plateia incauta pode esperar uma conjuntura libertadora. Não. Religiosos, franceses, iluministas, pintores, mendigos… Todos humanos e essencialmente bárbaros.

Reprodução histórica fictícia bastante competente tanto em termos narrativos quanto técnicos, e apesar das críticas por não se aprofundar na vida e obra do famoso pintor, Os Fantasmas de Goya deixa um gosto amargo após o encerramento dos créditos, e uma pergunta se queda martelando na cabeça do espectador: como o sadismo e a ferocidade podem ter chegado a tal ponto, naquele momento da história? Pior é lembrar que não mudamos muito desde então…

Texto de Fabio Nazaré

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