MR VAMPIRE – Pare tudo que está fazendo, abra a janela da sua casa e grite bem alto: “Ricky Lau é o cara!”

 

Isso! Grite sem medo! O quê? Você não tem a mínima idéia de quem seja Ricky Lau? Nem eu tinha, até conhecer sua obra seminal, o filme chinês “Mr. Vampire” de 1985. E quando terminei de assistir, a vontade foi essa mesma de sair gritando aos quatro cantos o quanto o filme é genial e divertido!

Mr. Vampire começa mostrando o dia-a-dia de um templo chinês onde o monge taoísta, Mestre Kau (Lam Ching Ying, que praticamente alcançou o estrelato e reprisou o personagem nas continuações e em diversos filmes) está tentando desfazer uma confusão causada pelos seus alunos: Man Choi (o hilário Ricky Hui, que iria flertar com o sobrenatural novamente em “A Farra do Demônio” de John Woo!) e Chou (o talentoso Chin Siu Ho).
Pois os energúmenos conseguiram acordar um bando de vampiros/zumbis chineses que estavam dormentes e arrumam uma confusão no templo.
Antes de prosseguir, apague todas as referências de vampiros e zumbis que você tem! Nada de zumbis antropófagos que se movem lentamente como os dos filmes de George Romero ou aqueles vampiros aristocratas dos livros de Anne Rice. Os vampiros/zumbis chineses usam roupas da dinastia Manchu, têm a pele pálida e se movimentam com os braços esticados e dando saltinhos!
Mas nem por isso deixam de ser perigosos! E olha que eles são bem fortes! E lutam kung fu!

Na China eles não são chamados de vampiros ou zumbis e sim de Jiang Shi. Esses tais vampiros/zumbis têm uma aparência monstruosa, e transformam em Jiang Shi qualquer pessoa que matem seja através de suas longas unhas azuis ou por mordidas.
E detalhe interessantíssimo é que não enxergam, mas conseguem encontrar os humanos seguindo a respiração destes (o que gera diversas gags engraçadíssimas durante o filme)
Após a crise do templo estar solucionada, mestre Kau é contratado por um figurão local, o Sr. Yam (Ha Huang) para realizar um re-enterro de seu pai, pois há uns vinte anos um vidente disse ao tal figurão que o pai deste deveria ser enterrado num caixão em pé, pois isso iria trazer grande sorte e prosperidade na vida e nos negócios da família.
Mas como aparentemente a dica do vidente não deu certo, e com sua família indo à falência, Sr. Yam contrata o Mestre pra fazer o tal ritual para desfazer assim o “mal olhado”. Mas ao abrirem a sepultura do falecido, todos se assustam ao constatar que o morto estava semi-transformado em vampiro com unhas grandes e com o rosto pouco deteriorado apesar dos vinte anos de sua morte. Mestre Kau decide levar o corpo para o templo pra tentar “exorcizá-lo” do mal. Só que em como todo bom filme fantástico o tal vampiro escapa e arruma um escarcéu durante todo o filme!


O tal vampiro então vai atrás de seu “filho”, Sr. Yam e o mata. Devido a uma série de mal entendidos quem acaba sendo preso é o mestre Kau e na cadeia, prepare-se para a criativa e hilária seqüência de ação e comédia protagonizada pelo mestre Ko, seu discípulo Chou, e do incompetente delegado (o engraçadíssimo Billy Lau) ao se depararem com o cadáver renascido do Sr. Yam. Essa seqüência deveria figurar em uma das mais engraçadas, criativas e originais do Cinema!


Após darem cabo do ressurecto Sr. Yam (o único jeito de matar jiang shis é os queimando, lembrem disso caso encontrem algum por aí…) , e com o mal entendido resolvido e o mestre Kau solto

Os humanos decidem caçar o tal vampiro e o acham na casa da filha do Sr. Yam, Ting-Ting (a gatinha Moon Lee que se tornaria estrela dos filmes de pancadaria e aqui está novinha e fazendo um papel sem ação). Quem está lá “protegendo” a filha do Sr. Yam e por tabela “neta” do tal vampirão assassino é o não menos incompetente Man Choi. Após uma breve luta com o vampiro, Mestre Kau e Chou o acabam derrotando fazendo-o fugir para a floresta, mas Man Choi foi mordido e em breve poderá se tornar um jiang shi!


Paralelamente a isso há uma subtrama de uma fantasma (a bela Pauline Wong) que durante uma noite decide atormentar Chou e o acaba enfeitiçando para que ele a ame. A apresentação da fantasma no filme é memorável! Ela está viajando naquelas “arcas” sendo carregada por quatro espíritos de rosto branco e bochechas vermelhas que cantam uma canção ótima que gruda na cabeça que é uma beleza (inclusive a tal canção foi indicada ao “Oscar” chinês de melhor canção na época).
A bela Fantasma aos poucos vai enfeitiçando Chou, até que mestre Kau percebe e decide por um fim nisto, já que a fantasma estava drenando energia do rapaz aos poucos. É aí que Mr. Vampire traz mais uma seqüência memorável: a luta da fantasma e de mestre Kau! E não exagero,é uma verdadeira AULA de Cinema!
Uma seqüência inteira com efeitos especiais feitos em sua maioria por cortes de câmera, e novamente do jeito mais louco que poderíamos imaginar. Em tempos de cineastas preguiçosos que usam CGI a torto e a direito até pra fazer uma folha de papel voar, ver essa seqüência como a de Mr. Vampire feita de modo artesanal (e com resultado perfeito) é de fazer abrir um sorriso no rosto.



Mr. Vampire é um daqueles filmes que, pelo menos pra mim, me deixa feliz durante uma semana e me faz sempre colocá-lo no DVD pra rever as melhores cenas. Mesmo que não seja o primeiro filme chinês a misturar terror, comédia e artes marciais, Mr. Vampire foi um dos mais populares.
Foi produzido por Sammo Hung que cinco anos antes tinha estrelado o também clássico Encounters of Spooky Kind (ou Spooky Encounters) que também trazia feitiçaria, zumbis e fantasmas, mas nada tão louco e anárquico como em Mr. Vampire. Mas em termos de comparação Mr. Vampire foi muito mais bem sucedido nas bilheterias do que Spooky Encounters, tanto que gerou 4 continuações e vários filmes “bastardos”, ou seja, continuações não-oficiais que surgiram pra abocanhar essa fatia do mercado que adorou a mistureba de artes marciais e fantasmas.
O ator Lam Ching Ying (infelizmente falecido em 1997, de câncer no fígado) inclusive atuou nas seqüências e em vários desses filmes bastardos, sendo que quase sempre como o mesmo tipo de personagem. Os produtores trocavam o nome do personagem mas a caracterização era a mesma. Cabelos grisalhos, “monocelha” e vários apetrechos para caçar fantasmas e rituais dos mais bizarros possíveis.
Essa é uma das coisas mais legais de Mr. Vampire, os diversos rituais e “mandingas” do mestre Kau para acabar com os fantasmas e vampiros. São rituais curiosíssimos e muito criativos que só deixam o filme mais legal. Por exemplo para combatê-los pode ser com feitiços escritos com sangue de galinha numa folha de papel ou ainda com uma espada feita de moedas e “energizada” com a luz da lua, ou ainda com o baguá (aquele espelho taoísta), dentre outros feitiços. E se vocês estão cansados das regras para derrotar os fantasmas e vampiros ocidentais, Mr. Vampire será uma surpresa pois apresenta a riquíssima mitologia chinesa.



O diretor Ricky Lau não se livrou do estigma de kung fu+fantasmas e a maoria de sua filmografia é de filmes nesse estilo (o que me deu vontade de colecionar toda a filmografia do sujeito). Além das seqüências de Mr. Vampire ainda tem a segunda parte de Spooky Encounters. A excepcional coreografia de lutas ficou a cargo do ator Lam Ching Ying e do veterano Yuen Wah (para a nova geração ele pode ser visto como o dono da vila em “Kung FuSão” de Stephen Chow) que inclusive interpreta o vampiro.
Não preciso dizer que essa maravilha nem sequer deu as caras no Brasil. O único jeito de conseguir é importanto o DVD que está até bem barato, uma média de 9 dólares nos sites internacionais do ramo. Mas, se tiver paciência pode ver o filme completo pelo Youtube dividido em diversas partes. Então não perca tempo, se quiser passar uma hora e meia se divertindo com um dos mais memoráveis, criativos e loucos filmes fantásticos chineses arrume agora Mr. Vampire! E não se esqueça de dar aquele gritão da janela após assisti-lo.
Texto de Bruno C. Martino do site Boca do Inferno

MR. VAMPIRE (Geung Si Sin Sang, Hong Kong, 1985). Duração: 96 minutos.
Direção: Ricky Lau
Roteiro: Ricky Lau, Chuek-Hon Szeto (Roy Szeto), Barry Wong, Ying Wong
Fotografia: Peter Ngor Trilha Sonora: Melody Bank
Produção: Mun Kai-Ko
Produção Executiva: Sammo Hung Fotografia: Peter Ngor
Trilha Sonora: Melody Bank
Direção de Arte: Sai Kan Lan
Efeitos Especiais: Jap-hung Chan, Wai-kok Dun
Edição: Cheung Yiu Chung
Elenco: Lam Ching Ying (Mestre Kau); Chin Siu Ho (Chou); Ricky Hui (Man Choi); Moon Lee (Ting-Ting); Billy Lau (delegado Wai); Pauline Wong (Jade/Fantasma); Anthony Chan (Mestre Taoísta), Yuen Wah (Vampiro), Ha Huang (Sr. Yam), Wu Ma (Vendedor de Arroz)

Hana-Bi – Fogos de Artifício (Hana-Bi), de Takeshi Kitano (Japão, 1997)


Nishi (Kitano) é um polícial encurralado pelo sofrimento daqueles que o rodeiam; um colega que ficou paraplégico, uma jovem viúva atravessando grandes dificuldades, mas principalmente a doença da sua esposa, Miyuki (Kishimoto).
Motivado à ajudar todos, Nishi vai ser um meio dos outros atingirem a felicidade ou ultrapassarem uma barreira vital. O envolvimento com a Yakuza vai salpicar de sangue as paisagens floridas dos campos Japoneses.

“Hanabi” significa “fogo de artifício” em japonês, mas dividindo-se a palavra com o hífen obtém-se dois significados distintos, que marcam profundamente e bipolarizam o filme. “Hana” – “flores”; “bi” – “fogo”. As flores são um recurso visual, marcante não somente na incursão de Nishi e da mulher pelo campo, numa espécie de segunda lua de mel, mas também nas pinturas de Horibe (executadas pelo próprio Kitano). A beleza das plantas esconde o que vai no íntimo dos personagens, tornando-se numa espécie de porta camuflada para a psique de Nishi.

Nas diferentes pinturas e desenhos, a flor ocupa o lugar da cabeça (mente) das criaturas desenhadas. A beleza da flor é também a calma contemplativa do olhar. O fogo, claro, é a outra face da moeda. É o libertar da fúria, a explosão de raiva que mais não se pode conter, e que se consubstancia na morte e mutilação de alguns gangsters.

O realizador também escreve o argumento e monta o filme. A montagem dá particular destaque às alterações de tom (flores/fogo), passando do click de uma arma para a conclusão de um quadro, ou de um olhar para um salpicar violento de sangue. Nishi, sozinho, carrega todo o fardo e é interessante constatar que o seu percurso não é imaculado, livre de erros (não faz o que está “certo”).
E não constitui sacrifício ou redenção Hollywoodianos, por falhas do passado, como seria mais fácil e como nos deixaria mais bem dispostos no fim, em que se apresentaria um pôr do sol sobre música melosa, temperado por mais um triunfo moral. Kitano preocupa-se mais com o alívio do sofrimento (concreto, terrestre) do que na redenção (religioso, celeste), que normalmente constitui uma oposição, isto é, ganhar o “perdão” pelo sacrifício físico.

«Hana-Bi» é também um desejo de contrariar o conceito de família tradicional, feliz e unida, aconteça o que acontecer, que nem sempre representa a família “real”. As famílias que se nos apresentam são famílias destroçadas pela morte, pela doença ou por outros fatores. A família que fica ao lado de alguém que sofre um grave acidente não tem lugar aqui. O fogo de artifício é também uma manifestação da felicidade familiar que poderia ter existido ou que se recorda como algo que já não pode voltar. Essa imagem poderá ter significado, presente e futuro, para vários personagens, mas talvez não para Nishi.

Kitano filma muito pouco quando está “em forma”. Visualiza o que precisa filmar na noite anterior e depois limita-se a juntar as cenas, sem material supérfluo a cair no chão da sala de montagem. Nem sempre se dá por satisfeito, e aceita que as suas ideias não se concretizem plenamente, como no plano em que o gangster esmurra (será preciso acrescentar “violentamente”?) Nishi no centro comercial, já que contratou um boxer profissional para aquele papel, apenas para executar o modo como tinha concebido a cena.
É curioso como Kitano Takeshi consegue executar uma obra tão bela e contemplativa, com espasmos de hiper-violência que despontam sem nos avisar. «Hana-Bi» é, antes de mais, um excelente filme, e vale a pena ser conhecido do grande público.

Texto: Cinedie Ásia

Download – Fogo de Artifício/Hana-Bi (Blog A Privada Cul) Trailer
花火
Realizado por Kitano Takeshi
Japão, 1997 Cor – 103 min.
Com: Beat Takeshi, Kishimoto Kayoko, Osugi Ren, Terajima Susumu, Watanabe Tetsu, Yakushiji Yasuei, Istumi Taro, Yajima Kenichi, Ashikawa Makoto, Daike Yuko

Shortbus e a imaginação pornográfica


Quem assiste à introdução de “Shortbus” (2006) tem a impressão de estar vendo um filme pornô. E não está de todo errado. Por inúmeros motivos, o longa poderia figurar fácil na sessão pornográfica de qualquer vídeo-locadora. Exceto pelo fato de que, ao escrever e dirigir o filme, John Cameron Mitchell foi um pouco mais longe do que seus possíveis companheiros de estante teriam ido. “Shortbus” é um exemplo brilhante do que Susan Sontag chamou de “imaginação pornográfica”. Mais do que isso, o filme usa do imaginário pornográfico para penetrar (e o trocadilho aqui é de especial importância) em terrenos só acessíveis através de outras vias estéticas: o amor romântico, a cultura ocidental, vida urbana e até política.

Através de uma maquete animada de Nova Iorque (desenvolvida por John Bair de uma forma bastante interessante) vamos conhecendo os nós da grande rede na qual o filme envolve o público. Sofia (Sook-Yin Lee), por exemplo, é uma terapeuta sexual, mas prefere ser chamada de “terapeuta de casais”. A informação parece importante porque, em seguida, se descobre que apesar da intensa vida sexual com o marido, a moça nunca teve um orgasmo. Entre seus pacientes estão James (Paul Dawson) e Jamie (PJ DeBoy), dois rapazes que, ao verem a relação em crise, pensam na possibilidade de abrí-la através da entrada de uma terceira pessoa. Enquanto isso, Severin (Lindsay Beamish) atende um de seus clientes com requintes de crueldade. Ela é uma dominatrix.

O que todos eles tem em comum? É o que o filme tenta responder, carregando o espectador através de um labirinto orgiástico que converge para uma casa noturna alternativa: o “Shortbus” (“ônibus pequeno”, em tradução literal). É lá que, cedo ou tarde, todos os personagens se encontram. Não apenas uns com os outros, mas cada um com seus próprios medos, desejos, problemas.

É importante lembrar que o filme foi feito de forma inovadora já desde o roteiro. Mitchell decidiu, em primeiro lugar, não utilizar atores conhecidos, já que pretendia desde o começo rodar cenas de sexo ousadas (o primeiro nome do filme era “The sex film project”).
Mais do que isso, o diretor optou por escrever o roteiro usando diálogos espontâneos, através das prórprias experiências dos atores. Cada um deles foi escalado pelo próprio Mitchell em uma festa promovida mensalmente por ele em Nova Iorque. O nome do evento era justamente “Shortbus”.
É interessante notar, portanto, que o casal James e Jamie são namorados também na vida real. Ou que a atriz que interpreta a terapeuta Sofia, apresenta um programa de entrevistas na TV canadense. E é por isso mesmo que as experiências pessoais dos atores acabam servindo para compor cada um dos seus personagens. Mitchell não trabalhou com roteiros prontos, mas com diálogos improvisados, mantendo apenas “situações-guia” que deveriam ser obedecidas. E assim surgiu “Shortbus”

Voltemos então a Susan Sontag. Em seu conhecido ensaio “A imaginação pornográfica” (publicado no livro “A vontade radical”),a autora lembra que, mais do que ultrajar o seu público, a pornografia deve oferecer a ele a consciência do ultraje pelo qual o próprio artista tem de passar para realizar a obra de arte. Ao supor portanto, uma estética que valoriza o risco espiritual (leia-se “mental”, “moral” ou mesmo “social”) como sacrifício necessário para se alcançar o artístico , desmancha-se a fronteira entre a “fantasia” e a “realidade”. É algo que beira o surrealismo (não por acaso, Breton era leitor assíduo de Sade). E, sob esse ponto de vista, parece claro o motivo pelo qual “Shortbus” é um banquete não apenas para o intelecto, mas também para os sentidos. O delírio (visual, orgástico, lógico ou até mesmo patológico) é parte importante do filme.

“Shortbus” agrada, em primeiro lugar os olhos. As cores são sempre cítricas, bonitas, chocantes. Cuidadosamente compostas, parecem querer lembrar que cada plano faz parte da grande maquete animada que mantém coeso o fio narrativo.

Para os ouvidos, o longa traz uma trilha sonora composta pelo grupo musical “Yo la tengo” que mistura jazz, pop, rock… e o resultado é qualquer coisa parecida com as trilhas dos musicais da década de 60, ou mesmo de Old Hollywood., uma “confusão musical” que continua tamborilando na cabeça mesmo depois dos créditos finais.

E os sentidos táteis? Como afetar o olfato, o tato, o paladar de um espectador? É esta a importância da pornografia em “Shortbus”. Através de orgasmos explícitos, de primeiros planos de órgãos genitais e outras façanhas tão comuns no cinema pornô, Mitchell tenta fazer com que a narrativa tenha uma relação íntima, sexual, com seu público. Embora não seja seu fim (e sim seu meio), “Shortbus” excita – ainda que o “tesão” aqui seja bem diferente. E concorda com Sontag, quando diz que a pornografia deve excitar. Se não pela lembrança do sexo em si, excita pela lembrança de outros filmes “de sacanagem”, outros contos. É a “imaginação pornográfica”, isto é, o conjunto de arquétipos, tipos, trejeitos, que tornam algo, convencionalmente, pornô. “Shortbus” faz do pornografico uma linguagem para dizer mais do que “goze”. É uma tentativa de ser uma grande metáfora do gozo.

Até na decupagem, “Shortbus” é pornográfico. No pornô, vemos o humano sendo fragmentado, “despedaçado” e servido ao espectador como um banquete. Os planos se revezam entre vaginas, paus duros, peitos e bocas, não economizando close-ups. Aqui, a coisa não será muito diferente.
A narrativa é estilhaçada em inúmeras sequências que vão se sucedendo não apenas no tempo, mas também no espaço, através da grande maquete animada. Demora até que tenhamos uma idéia mais ‘holística”, mais completa, da trama. Assim como um plano geral de uma transa num filme pornô pareceria estranho, “Shortbus” evita a linearidade espacial na montagem, sempre alternada entre pelo menos três eixos narrativos, não necessariamente encadeados entre si.
A decupagem, de alguma forma, segue esse padrão, nunca revelando grandes planos das cenas ou dos atores, dando sempre preferência a enquadramentos que velem algumas partes enquanto outras, inusitadas, são reveladas. O voyuerismo também é explorado quando algumas cenas transcorrem do ponto de vista de outros personagens (ou de suas câmeras).

No fim de tudo, o que “Shortbus” traz de novo? Com certeza não é o primeiro filme pornográfico (no sentido de Sontag) que se mostra esteticamente atrativo. “O Império Dos Sentidos” (Nagisa Oshima, 1976), “Nove canções” (Michael Winterbottom, 2004) e mesmo o brasileiro “Amarelo Manga” (Cláudio Assis, 2003) são filmes – apenas para citar alguns exemplos – que apresentam algumas semelhanças com “Shortbus” principalmente por causa da estética pornográfica.
O que Mitchell acrescenta nessa lista é a leveza. Nunca antes o pornográfico parece ter sido usado de forma tão leve, quase como numa comédia romântica.
Talvez por isso o filme consiga levar o público, meio dopado pelo delírio e pelo absurdo, para lugares onde ele não iria “sozinho”.
Do meio da orgia, brotam questões que rondam as identidades de gênero, o amor (lato sensu), a privacidade e até o 11 de setembro. Esse é o maior mérito de “Shortbus”: o filme goza da rara habilidade de “fazer pensar” (em todos os sentidos).
Texto de Dimas Tadeu do Blog Out & About


SHORTBUS / trailer
Gênero:
Drama,Romance
Tempo:
101 minutos
Ano: 2006
Direção: John Cameron Mitchell
Roteiro: Frank G. DeMarco/John Cameron Mitchell/Kurt and Bart