A Separação (Irã, 2011)

Mensalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos ao Irã.

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

A SEPARAÇÃO (Irã, 2011)

Jodaeiye Nader az Simin – Drama – 2h03min – Asghar Farhadi

A obra em 9 segundos

Passando por um doloroso processo de divórcio, um homem é acusado de ter causado um aborto na cuidadora de seu pai, fato que desencadeia uma série de consequências para todos perante o cruel sistema judiciário iraniano.

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A obra em 54 segundos

Vencedor do Oscar, do Globo de Ouro, do César e do Urso de Ouro no Festival de Berlim, A Separação é o filme mais conceituado do diretor iraniano Asghar Farhadi, cineasta que vem marcando o seu nome na história, com um estilo muito próprio de ambientar dramas familiares no seio dos costumes do Islamismo. Simin (Leila Hatami) é casada com Nader (Payman Maadi) e leva uma vida de classe média no Irã. Em que pese pertencer a uma posição social superior à de grande parte da população, ela não se sente feliz com as limitações impostas às mulheres no país, e pretende se mudar para o exterior com a filha, para que esta tenha um futuro melhor. Quando ela sai de casa, Nader contrata Razieh (Sareh Bayat) para cuidar de seu pai. Após uma discussão acalorada, a cuidadora o acusa de ter lhe causado um aborto e o caso vai para o tribunal. As mentiras contadas e as decisões erradas tomadas por todos geram cruéis consequências para eles perante a justiça iraniana.

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A obra em 2 minutos e 45 segundos

O cineasta iraniano Asghar Farhadi vem marcando o seu nome na história, com um estilo muito próprio de ambientar dramas familiares no seio dos costumes do Islamismo. Vencedor de duas estatuetas do Oscar, o diretor já emplacou sucessos como Procurando Elly, O Passado, O Apartamento, Todos Já Sabem e, principalmente, o seu trabalho mais conceituado A Separação, lançado em 2011, e estrelado por Peyman Moaadi, Leila Hatami, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi e Ali-Asghar Shahbazi.

Contemplado no Oscar, no Globo de Ouro, no César e no Urso de Ouro do Festival de Berlim, A Separação conta a história de Nader (Maadi), homem que, passando por um doloroso processo de divórcio, é acusado de ter causado um aborto na cuidadora de seu pai. As mentiras contadas e as decisões erradas tomadas por todos geram cruéis consequências para eles perante a justiça iraniana.

A trama se inicia quando Simin (Hatami), esposa de Nader, decide pedir o divórcio. Ela leva uma vida de classe média no Irã e, em que pese pertencer a uma posição social superior à de grande parte da população, não se sente feliz com as limitações impostas às mulheres no país, e pretende se mudar com a filha, para que esta tenha um futuro melhor no exterior. Nader não aceita acompanhar Simin no seu sonho e, diante do juiz, não autoriza que ela leve a filha Termeh (Samira Farhadi) junto na viagem.

Quando sai de casa, Simin contrata Razieh (Bayat) para cuidar de seu sogro, que sofre de Alzheimer. Logo de cara, Nader percebe a dificuldade de conciliar os cuidados com o pai, os cuidados com a filha e a sua profissão, que o tira de casa pela maior parte do tempo. A escolha de Razieh para a função de cuidadora é a primeira decisão equivocada, pois, de família religiosa e praticante do Islamismo, ela esconde do marido Hojjat (Hosseini) que está trabalhando para um homem divorciado. Além disso, com receio de perder o emprego, ela não conta ao chefe que está grávida. Precisando ir ao médico, ela amarra o paciente à cama e sai. Nader encontra o pai quase morto e fica possesso. Numa discussão acalorada, ele empurra Razieh, que o culpa por ter perdido o filho.

Asghar Farhadi trabalha com exímia competência a exposição dos personagens à brutal repressão e ao sufocamento provocados pelo moralismo e pelos costumes. Em A Separação, o cineasta se utiliza das questões de tribunal, para mostrar ao mundo o machismo, o sexismo e o preconceito de classes muito presentes na sociedade iraniana, e institucionalizados em todas as suas bases, inclusive no poder judiciário. A Separação é um drama poderoso, com uma direção talentosa e atuação magnífica dos protagonistas.

Ponto forte: O cineasta é um especialista em misturar dramas familiares com os costumes do Islamismo no Irã e faz isso mais uma vez com maestria.

Ponto fraco: Não chega a ser um ponto fraco, mas o comportamento e as decisões questionáveis de todos os personagens, faz com que o público tenha dificuldade em ter empatia por algum deles.

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Ficha Técnica

Direção de Asghar Farhadi

Roteiro de Asghar Farhadi

Produção de Asghar Farhadi e Negar Eskandarfar

Elenco principal com Peyman Moaadi, Leila Hatami, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini e Merila Zarei

Fotografia de Mahmoud Kalari

Edição de Hayedeh Safiyari

Design de produção de Keyvan Moghaddam

Figurino de Keyvan Moghaddam

Trilha Sonora de Sattar Oraki

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Dica cultural, diretamente do Irã

Asghar Farhadi é um dos principais nomes do cinema mundial, atualmente. Suas obras, A Separação, O Passado, Todos Já Sabem e O Apartamento são sucessos de crítica e público, e os últimos três têm gabarito para ser a dica cultural de hoje, que acompanha a análise do primeiro. Porém, como estamos falando de Irã, a obra exposta desta vez será O Apartamento, filme lançado por Farhadi em 2016, também todo ambientado no país, protagonizado por Shahab Hosseini e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Um casal de atores é obrigado a se mudar para um apartamento emprestado, já que o seu antigo prédio corre sério risco de desabamento. Na nova morada, a esposa, Rana (Taraneh Alidoosti), é atacada dentro do banheiro, por um desconhecido. Mais preocupado com a sua própria honra, do que com os traumas da mulher, Emad (Hosseini) quer vingança. Mais uma vez, Farhadi escancara os conflitos morais de uma sociedade extremamente machista, regida por dogmas religiosos, que é totalmente alheia aos sentimentos femininos e aos direitos da mulher.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Destino (Turquia, 2001)

Mensalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Turquia.

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

DESTINO (Turquia, 2001)

Yazgi – Drama – 1h59min – Zeki Demirkubuz

A obra em 10 segundos

Uma das melhores obras baseadas no romance O Estrangeiro, de Albert Camus, o filme conta a história de Musa, um homem que acredita que a existência humana é um enorme vazio. Porém, sua apatia lhe trará consequências terríveis.

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A obra em 46 segundos

Uma das melhores obras baseadas no romance O Estrangeiro, de Albert Camus, Destino, filme escrito e dirigido por Zeki Demirkubuz, é um drama de extrema força, que desperta no público reflexões profundas acerca da condição humana. Musa (Serdar Orçin) é um homem que acredita no total vazio da existência e que a vida não possui qualquer razão superior. Sem aspirações, sonhos, projetos e sentimentos, Musa divide o seu dia em comer, dormir e trabalhar, numa apatia completa. A morte de sua mãe não o abala, nem o deixa triste. Porém, a sua personalidade lhe trará consequências terríveis. Acusado de um crime que não cometeu, ele se recusa a se defender e simplesmente aguarda a sua pena. Longa metragem com um roteiro impecável e uma direção incômoda, “Destino” é um trabalho que martela a mente do espectador por uns bons dias.

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A obra em 2 minutos e 35 segundos

Uma das melhores obras baseadas no romance O Estrangeiro, de Albert Camus, Destino, filme escrito e dirigido por Zeki Demirkubuz, é um drama de extrema força, que desperta no público reflexões profundas acerca da condição humana. Longa metragem que, com um roteiro impecável e uma direção incômoda, martela a mente do espectador por uns bons dias. Ambientado no efervescente cenário político turco, Destino conta a história de Musa (Serdar Orçin), um homem apolítico, que acredita que a existência humana é um enorme vazio. Porém, sua apatia lhe trará consequências terríveis.

Albert Camus é o criador daquilo que é conhecido como absurdismo, ou teoria do absurdo, e seu trabalho O Estrangeiro explora maravilhosamente esse universo. O protagonista do livro, Mersault, é indiferente a absolutamente tudo o que acontece ao seu redor. Não se importa com o passado, nem com o futuro, nem com sonhos, planos, com nada. Suas atitudes são tão distantes das esperadas por uma consciência de normalidade social, que as pessoas não conseguem compreender a sua conduta, assim como ele aparenta ser incapaz de entender as normas comportamentais vigentes.

No filme, Musa divide o seu dia em comer, dormir e trabalhar, numa impassibilidade completa. A morte de sua mãe não o abala, nem o deixa triste. Os atos reprováveis de seu vizinho também não. Os eventos havidos no escritório não o afetam de forma alguma. O limite da estranheza é alcançado quando Musa é acusado de um crime que não cometeu. Ele se recusa a se defender, a dizer o que sabe sobre o caso, a se manifestar, a sofrer, e aguarda, friamente, pelo seu julgamento e por sua pesada pena.

O filme de Zeki Demirkubuz possui consideráveis diferenças para o romance de Albert Camus, mas a essência do pensamento do filósofo franco-argelino está muito bem representada em Destino. A exposição da sociedade a um homem vazio de sentimentos e a exposição deste homem à uma sociedade que não compreende e não aceita a sua personalidade formam um quadro interessantíssimo de reflexão acerca do que realmente importa na vida, e sobre quem tem o poder de decidir isso.

Musa e Mersault não se importam com a vida. Sendo assim, não se importam com a morte. Não se importam com a justiça. Sendo assim, não se importam com a injustiça, com crimes, penas, condenações, liberdades e confinamentos. Não acreditam no bem, nem no mal. Nem no bom, nem no mau. Não acreditam que haja motivações e razões para a existência humana. Acreditam apenas no vazio. No vazio e no absurdo.

Ponto forte: Apesar de ser bastante distinto do livro, o filme consegue apresentar com maestria a reflexão e a profundidade proposta por Camus.

Ponto fraco: Não chega a ser um ponto fraco, pois faz parte da criação do ambiente, mas o ritmo do filme pode ser incômodo para alguns espectadores.

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Ficha Técnica

Direção de Zeki Demirkubuz

Roteiro de Zeki Demirkubuz

Baseado na obra de Albert Camus

Produção de Zeki Demirkubuz

Elenco principal com Serdar Orçin, Zeynep Tokus, Engin Gunaydin, Demir Karahan, Feridun Koç e Emrah Elçiboga

Fotografia de Ali Uyku

Edição de Zeki Demirkubuz

Design de produção de Bahar Evgin

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Dica cultural, diretamente da Turquia

A dica cultural de hoje já é um tremendo sucesso da Netflix, e, como todo filme que bomba no streaming, gera controvérsias, críticas pesadas, opiniões contrárias e divisão do público. Em que pese a maioria dos especialistas terem torcido o nariz para a obra, O Milagre da cela 7 é um “filmão” que merece ser assistido. Discordo das pessoas que atacaram a obra, mas adianto: eles não mentem sobre ela. Realmente, trata-se de um dramalhão, pouco realista, com atuações forçadas e diversos truques para tirar lágrimas de quem assiste. Isto posto, afirmo que são exatamente essas características que fazem de o Milagre da cela 7 uma excelente opção para quem quer se emocionar, torcer pelo mocinho sofrido e se apaixonar pela garotinha.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Cenas de um casamento (Suécia, 1974)

Mensalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Suécia.

 

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CENAS DE UM CASAMENTO (Suécia, 1974)

Scener ur ett äktenskap – Drama – 2h49min – Ingmar Bergman

A obra em 11 segundos

Filme de quase três horas ou série de seis episódios, obra do inspirado Ingmar Bergman retrata a crise do casamento de Marianne e Johan, com diálogos poderosos, e interpretações inesquecíveis de Liv Ullmann e Erland Josephson.

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A obra em 43 segundos

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1975, Cenas de um casamento conta a história de Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), um casal bem sucedido financeiramente e profissionalmente, que percebem, após alguns acontecimentos, que o seu casamento está ruindo. Poderoso e comovente, o filme é um dos retratos familiares mais complexos da história do cinema. Concebido inicialmente como uma série de seis episódios, a obra completa totaliza 281 minutos sublimes, com uma direção sensível e provocadora de Bergman, e uma atuação magnânima da incomparável Liv Ullmann. Acompanhamos a evolução e a decadência psicológica e sentimental do casal, numa análise comportamental jamais vista. Os diálogos ácidos de Bergman, recheados de inserções filosóficas, antropológicas, sociológicas e literárias, tocam profundamente em feridas doloridas do cotidiano a dois.

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A obra em 2 minutos e 5 segundos

O sucesso do original Netflix História de um casamento, dirigido por Noah Baumbach, fez a comunidade cinematográfica da internet relembrar um clássico há muito esquecido na filmografia de Ingmar Bergman. Cenas de um casamento, obra de 1974, inicialmente concebida como uma série de televisão em 1973, é uma óbvia referência no trabalho de Baumbach, que certamente bebeu muito da fonte do mestre sueco, assim como seus protagonistas, Scarlett Johansson e Adam Driver, também beberam ao compor os personagens.

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1975, Cenas de um casamento conta a história de Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), um casal bem sucedido financeiramente e profissionalmente, que aparenta também gozar de um matrimônio auspicioso. A imagem positiva da relação, inclusive, se torna objeto de uma reportagem de revista, realizada pela jornalista Palm (Anita Wall), abordando os dez anos da união de duas figuras intelectuais e admiráveis.

Ocorre que os questionamentos efetuados pela entrevistadora, a prestação de serviço de Marianne como advogada no divórcio da Sra. Jacobi (Barbro Hiort af Ornas), o jantar com o casal desestruturado de amigos Katarina (Bibi Andersson) e Peter (Jan Malmsjo), o flerte de Johan com uma colega de trabalho e a insatisfação de Marianne ao perceber a dificuldade de romper com a tradicional visita à casa de seus pais todo domingo, fazem com que o castelo de areia desmorone, e desencadeie uma sequência de eventos massacrantes para o casamento deles.

Poderoso e comovente, Cenas de um casamento é um dos retratos familiares mais complexos da história do cinema. Assim sendo, é um pecado assistir a obra em formato de filme, em detrimento da versão estendida, em série. Os seis episódios, que totalizam 281 minutos, são sublimes, com uma direção sensível e provocadora de Bergman, e uma atuação magnânima da incomparável Liv Ullmann. Acompanhamos a evolução e a decadência psicológica e sentimental do casal, numa análise comportamental jamais vista.

Basta ter o mínimo de sensibilidade para já não conseguir ficar alheio ao relacionamento abusivo de Marianne e Johan. Os diálogos ácidos de Bergman, recheados de inserções filosóficas, antropológicas, sociológicas e literárias, tocam profundamente em feridas doloridas do cotidiano a dois. Diversos são os bons filmes que tratam da temática do casamento, outros tantos são excelentes ao abordar relações entre casais, muitos escancaram as dores do adultério, e vários expõem o drama do divórcio. Mas Cenas de um casamento é o único a mostrar o cenário completo, de modo magistral e inesquecível.

Ponto forte: Diálogos, atuações e direção de Bergman entrosadíssimas e especialmente inspiradas.

Ponto fraco: O filme perde muito para a série. Quem tiver a oportunidade, deve assistir a versão estendida.

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Ficha Técnica

Direção de Ingmar Bergman

Roteiro de Ingmar Bergman

Produção de Lars-Owe Carlberg

Elenco principal com Liv Ullmann, Erland Josephson e Bibi Andersson

Fotografia de Sven Nykvist

Edição de Siv Lundgren

Design de produção de Bjorn Thulin

Figurino de Inger Pehrsson

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Dica cultural, diretamente da Suécia

A dica cultural de hoje é mais um Ingmar Bergman, Liv Ullmann e Erland Josephson, porque Bergman, Ullmann e Josephson nunca são demais. “A Hora do Lobo”, filme de 1968, é um terror surrealista do mestre sueco, protagonizado pelo monstro sagrado Max von Sydow. Um casal se muda para uma ilha afastada, onde a população apresenta comportamentos estranhos, e esse ambiente acaba afetando-os, principalmente o marido, psicologicamente. Repleto de referências góticas, a obra aposta num ambiente de pesadelo, e convida o público a sofrer com o artista Johan Borg, um homem atormentado pela culpa, pelo medo, pelo desespero, e pela hora do lobo, que é “a hora que antecede o lusco-fusco da madrugada. É a hora em que a maioria das pessoas morre, quando o sono é mais profundo e os pesadelos piores. É a hora em que o insone é perseguido por suas piores angustias, quando os fantasmas e os demônios são mais impressionantes. A Hora do Lobo é também a hora em que a maioria das crianças nasce.” Foi o meu primeiro contato com a obra de Bergman e é, até hoje, um dos filmes mais marcantes da minha vida.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Atlantique (Senegal, 2019)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos ao Senegal.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

ATLANTIQUE (Senegal, 2019)

Atlantics – Drama/Realismo Fantástico – 1h47min – Mati Diop

A obra em 8 segundos

Por uma vida melhor, operários senegaleses tentam atravessar o oceano até à Europa. A travessia é interrompida por uma tragédia, mas algo sobrenatural subverte o destino de todos.

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A obra em 57 segundos

Por uma vida melhor, operários senegaleses tentam atravessar o oceano até à Europa, mas a travessia é interrompida por uma tragédia. Um deles é Souleiman (Ibrahima Traoré), jovem que vive um romance com Ada (Mame Bineta Sane), garota pobre que está prometida em casamento a Omar (Babacar Sylla), um figurão do local, herdeiro de grande fortuna e sonho matrimonial de todas as mulheres da região (exceto de Ada). A moça, que já era infeliz devido ao enlace forçado e ao romance secreto, sofre um abalo inesperado com o desaparecimento do amante no mar, mas algo sobrenatural subverte o destino de todos. A direção de Mati Diop é especial e a utilização do realismo fantástico para fazer crítica social é acertadíssima. O clima onírico impresso na relação entre os personagens, e na relação destes com o mar, é poderoso. Em contrapartida, o roteiro é confuso, deixando algumas passagens ininteligíveis e totalmente dispensáveis. A protagonista faz um trabalho brilhante e carrega a trama com maestria.

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A obra em 2 minutos e 34 segundos

Em Dakar, capital do Senegal, uma torre de estilo futurista está sendo construída para abrigar um luxuoso shopping center. No canteiro de obras, porém, os operários não recebem suas remunerações há quatro meses. Arrimos de família, alguns deles contraíram enormes dívidas para patrocinar o seu sustento e de seus dependentes, resultando, inclusive, em ameaças por parte de agiotas. Em busca de uma saída, eles usam um barco para tentar atravessar o oceano e chegar à Espanha, mas a viagem é interrompida por uma tragédia.

Um dos operários é Souleiman (Ibrahima Traoré), jovem que vive um romance com Ada (Mame Bineta Sane), garota pobre que está prometida em casamento a Omar (Babacar Sylla), um figurão do local, herdeiro de grande fortuna e sonho matrimonial de todas as mulheres da região (exceto de Ada). A moça, que já era infeliz devido ao enlace forçado e ao romance secreto, sofre um abalo inesperado com o desaparecimento do amante no mar, pois sequer sabia da viagem do amado. Porém, o sol se põe, a lua surge, e traz com ela o sobrenatural, que subverte toda a história, inclusive o gênero do filme.

Atlantique é a primeira experiência na direção de longa metragem da cineasta francesa Mati Diop, e, logo na estreia, ela já foi selecionada para concorrer a Palma de Ouro em Cannes, bem como a película já se tornou um dos exemplares mais procurados da Netflix. A direção de Diop é realmente especial. O clima onírico impresso na relação entre os personagens, e na relação destes com o mar, é poderoso e competente ao seduzir o público. Em contrapartida, o roteiro é confuso, deixando algumas passagens ininteligíveis e totalmente dispensáveis.

Apesar disso, um aspecto que merece ser ressaltado no trabalho da diretora é a seleção de elenco. Formado por atores e atrizes locais, o grupo é homogêneo, com coadjuvantes simpáticos, e uma protagonista potente, que domina a tela e carrega a trama com maestria. Com uma construção precisa de Mame Bineta Sane, Ada representa o espectador no caminho surreal desenhado pelo filme, partindo do amor romântico proibido, passando pelo julgamento social, policial e religioso, chegando ao desfecho fantástico, sobrenatural, absurdo, comovente.

Atlantique usa o realismo mágico para fazer crítica social. O método não é novo, mas é raro no cinema, principalmente nos dias atuais. Muito forte na literatura latino-americana, o gênero também possui a sua vertente na África, com ângulos distintos, chamado pelo escritor angolano Pepetela de “realismo animista”. Aqui, a exploração pelas grandes corporações, a submissão feminina em povos religiosos, o problema dos refugiados (e as constantes mortes no mar), estão poeticamente margeados pela fantasia, e desenhados pela sensível lente de Mati Diop.

Ponto forte: Realismo fantástico utilizado em favor de crítica social.

Ponto fraco: Roteiro é problemático, o que enfraquece o todo e torna a obra um pouco confusa, com passagens aleatórias e nada coesas.

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Ficha Técnica

Direção de Mati Diop

Roteiro de Mati Diop e Olivier Demangel

Produção de Judite Lou Lévy e Eve Robin

Elenco principal com Mame Bineta Sane, Amadou Mbow, Ibrahima Traoré, Nicole Saugou, Animata Kane, Babacar Sylla, Mariama Gassama, Ibrahima Mbaye e Diankou Sembene

Fotografia de Claire Mathon

Edição de Ael Dallier Vega

Figurino de Salimata Ndiaye e Rachel Raoult

Trilha Sonora de Fatima Al Qadiri

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Dica cultural, diretamente de Senegal

A dica cultural de hoje é o som do grupo senegalês Orchestra Baobab. Mantendo quase a mesma formação desde o início, a banda está junto há quase 50 anos, sendo que nos anos 70, chegou a ser considerada a principal representante da música no país. Dono de um swing incrível, o conjunto faz uma interessante composição de instrumentos, criando um som que transita entre ritmos populares africanos e a música cubana. A vasta discografia da Orchestra Baobab merece ser visitada e revisitada sempre.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

O filho da noiva (Argentina, 2001)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Argentina.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

O FILHO DA NOIVA (Argentina, 2001)

El hijo de la novia – Drama – 2h04min – Juan José Campanella

A obra em 12 segundos

Rafael respira o trabalho em seu restaurante, o que o faz negligenciar os demais aspectos de sua vida. Porém, um grave problema de saúde, o reaparecimento de um amigo de infância e um projeto inesperado de seu pai o fazem repensar suas prioridades.

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A obra em 55 segundos

Juntar o cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín é uma receita para o sucesso, para fortes emoções e para cenas inesquecíveis. Explorando temas sensíveis e humanos, O filho da noiva, filme argentino de 2001, não possui a riqueza narrativa de O segredo de seus olhos, mas esbanja profundidade com personagens complexos e diálogos afiados. Rafael (Darín) respira o trabalho em seu restaurante, o que o faz negligenciar os demais aspectos de sua vida. Porém, um grave problema de saúde, o reaparecimento de Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de infância, e um projeto inesperado de seu pai, Nino Belvedere (Héctor Alterio), o fazem repensar as suas prioridades. A leveza do diretor ao abordar relacionamentos familiares, traçando paralelos entre passado e futuro, entre infância, vida adulta e velhice, entre pais, filhos e netos, entre maridos, ex-maridos, esposas e ex-esposas, é tocante, capaz de gerar turbilhões de sentimentos por simples olhares trocados.

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A obra em 3 minutos e 19 segundos

O cineasta argentino Juan José Campanella ficou imortalizado na história da sétima arte ao levar pra casa a estatueta do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010, pelo cultuadíssimo suspense dramático O segredo dos seus olhos. Porém, anos antes, em 2001, o diretor já havia sido indicado ao prêmio, com o belo drama O filho da noiva, obra parcialmente baseada em fatos vividos por Campanella na relação com a mãe, portadora do Mal de Alzheimer, assim como Norma, personagem vivida no filme pela incrível Norma Aleandro.

Rafael Belvedere (Ricardo Darín) respira trabalho, o que o faz negligenciar os demais aspectos de sua vida. Vivendo com o encargo de não deixar ruir o restaurante construído e mantido durante décadas por seus pais, ele deixa de lado o lazer, as relações interpessoais, o crescimento da filha Vicky (Gimena Nóbile), e sequer visita sua mãe adoentada em um asilo. Porém, um grave problema de saúde, o reaparecimento de Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de infância, e um projeto inesperado de seu pai, Nino Belvedere (Héctor Alterio), o fazem repensar as suas prioridades.

Juntar o cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín é uma receita para o sucesso, para fortes emoções e para cenas inesquecíveis. Amigos, os dois já trabalharam juntos em O mesmo amor, a mesma chuva (1999) e Clube da Lua (2004), além do já citado O segredo de seus olhos, e de O filho da noiva. Darín, atualmente, é o grande nome do cinema argentino perante o público estrangeiro. Sua versatilidade impressiona e o seu talento pode ser admirado desde em comédias, como Um conto chinês (2011), até em dramas pesados, como Todos já sabem (2018), passando pelos já clássicos Nove Rainhas (2000) e Relatos Selvagens (2014). Em O filho da noiva, tanto Campanella, quanto Darín, estão no auge da sensibilidade artística, apresentando, talvez, o trabalho mais humano de ambos.

A leveza do diretor ao abordar relacionamentos familiares, traçando paralelos entre passado e futuro, entre infância, vida adulta e velhice, entre pais, filhos e netos, entre maridos, ex-maridos, esposas e ex-esposas, é tocante, e capaz de gerar turbilhões de sentimentos por simples olhares trocados. E por falar em troca, ela é perfeita entre o elenco. Como peça fundamental e guia maior da narrativa, Rafael trava diálogos inacreditáveis com os demais personagens: escancarando a conflituosa relação com a mãe, o peso do legado do pai, a ausência na criação da filha, a dificuldade nas relações amorosas, a calamitosa situação econômica e política da Argentina, e a impiedosa ação do tempo e do envelhecimento.

Buenos Aires é o cenário perfeito para a ambientação do drama da família Belvedere. O charme da cidade e de seu povo, que exala uma mistura exótica de tradição europeia e sangue quente latino, conversa suavemente com as figuras em cena. Ricardo Darín, Norma Aleandro, Héctor Alterio e Eduardo Blanco merecem nada menos que nota máxima pelo trabalho impecável nas atuações. O filho da noiva é um drama sutil, mas de uma grandiosidade emocional que o coloca na seleta lista dos melhores filmes de sempre desse cinema maravilhoso que é o argentino.

Ponto forte: Diálogos e atuações sensíveis e poderosos.

Ponto fraco: Filme poderia ser menor, o que impediria alguns momentos repetitivos e maçantes.

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Ficha Técnica

Direção de Juan José Campanella

Roteiro de Juan José Campanella e Fernando Castets

Produção de Adrián Suar

Elenco principal com Ricardo Darín, Norma Aleandro, Héctor Alterio, Eduardo Blanco, Natalia Verbeke e Claudia Fontán

Fotografia de Daniel Shulman

Edição de Camilo Antolini

Cenografia de Pablo Racioppi

Figurino de Cecilia Monti

Trilha Sonora de Angel Illarramendi e Iván Wyszogrod

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Dica cultural, diretamente da Argentina

A dica cultural de hoje é um pouco diferente das demais. Não falaremos de filmes, livros, quadrinhos, músicas, pinturas e afins. Indicarei um local maravilhoso que conheci em Buenos Aires, durante a minha última viagem de férias: o bairro de La Boca. O nome do lugar foi escolhido devido ao fato de se encontrar à beira do “riachuelo” que “desemboca” no Rio da Prata. Localizado em uma zona portuária, La Boca é considerado um dos bairros mais pobres da cidade, porém, sua alma o transforma em um emocionante (e imperdível) ponto turístico portenho. Ali nasceram os principais clubes de futebol do país, River Plate e Boca Juniors, sendo que este último ainda permanece por lá e é parte indissociável do bairro, das casas, das paredes e dos moradores, que respiram e transpiram futebol. Junto ao charmoso Estádio La Bombonera, o Caminito, com suas casinhas coloridas, é outra visita rica e necessária. Apesar de ter passeado por quase todas as áreas de Buenos Aires, nenhuma foi tão marcante quanto La Boca, o mais popular e mais sanguíneo bairro argentino.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Mulheres à beira de um ataque de nervos (Espanha, 1988)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Espanha.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Espanha, 1988)

Mujeres al borde de un ataque de nervios – Comédia dramática – 1h28min – Pedro Almodóvar

A obra em 14 segundos

Pepa é abandonada por Iván, de quem é amante, e descobre estar grávida. Lucía, esposa de Iván, sofre de problemas psiquiátricos e percebe que também está sendo deixada por ele. Em meio ao caos, Candela, amiga de Pepa, surge pedindo ajuda, pois se envolveu com um terrorista e teme ser presa.

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A obra em 52 segundos

Primeiro grande sucesso da carreira de Pedro Almodóvar, Mulheres à beira de um ataque de nervos catapultou a imagem do cineasta espanhol para o resto do mundo e lhe rendeu a sua primeira indicação ao Oscar. Abusando de todos os elementos que caracterizam o seu estilo, Almodóvar entrelaça diversas personagens femininas em uma trama surreal de farsa e desespero, com explosão de cores e caricaturas. Pepa (Carmen Maura) é abandonada por Iván (Fernando Guillén), de quem é amante, e descobre estar grávida. Lucía (Julieta Serrano), esposa de Iván, sofre de problemas psiquiátricos e acredita que ele está prestes a deixá-la por Pepa. Candela (María Barranco), amiga de Pepa, aparece pedindo ajuda, pois se envolveu com um terrorista e teme ser presa. Em meio ao caos, Carlos (Antonio Banderas), filho de Iván, e sua noiva Marisa (Rossy de Palma), surgem interessados em alugar o apartamento de Pepa. Na verdade, Iván planeja fugir com uma terceira mulher.

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A obra em 3 minutos e 20 segundos

Pedro Almodóvar é um cineasta inegavelmente marcante, suas obras jamais passam despercebidas, e seu estilo é um dos mais característicos dentre os grandes diretores de sua geração. O espanhol transita de forma hábil entre a tragédia e a comédia, entre o drama e o pastelão, entre o absurdo e o exagero. Abusando de cores quentes, figurinos exóticos, personagens excêntricos e perucas, Almodóvar consegue instigar sentimentos e despertar no público reações inesperadas: enquanto uns choram, outros gargalham. Enquanto uns se divertem, outros se desesperam.

Como gosto pessoal, sou mais afeito aos dramas do cineasta, aqueles filmes que só te fazem rir por aflição. Porém, a minha dupla de obras preferidas dele contém uma comédia farsesca rasgada: o trabalho que catapultou a imagem do cineasta espanhol para o resto do mundo e lhe rendeu a sua primeira indicação ao Oscar, como melhor filme estrangeiro: Mulheres à beira de um ataque de nervos. No longa, Almodóvar entrelaça diversas personagens femininas, no limite de suas emoções, em uma trama surreal, repleta de coincidências forçadas e diálogos hilários, que funcionam muito bem.

Pepa (Carmen Maura) é abandonada por Iván (Fernando Guillén), de quem é amante, e descobre estar grávida. Lucía (Julieta Serrano), esposa de Iván, sofre de problemas psiquiátricos e acredita que ele está prestes a deixá-la por Pepa. Candela (María Barranco), amiga de Pepa, aparece pedindo ajuda, pois se envolveu com um terrorista e teme ser presa. Em meio ao caos, Carlos (Antonio Banderas), filho de Iván, e sua noiva Marisa (Rossy de Palma), surgem interessados em alugar o apartamento de Pepa. Na verdade, o plano de Iván é fugir com uma terceira mulher.

Quase nenhum outro cineasta homem trata tão bem, e com tanto respeito, as dores femininas como Pedro Almodóvar. O olhar admirado que ele impõe sobre às mulheres em suas películas revela um pouco de sua visão nostálgica daquelas que habitaram a sua infância e a sua juventude. Suas personagens são fortes e fracas, poderosas e carentes, independentes e sentimentais. Em que pese toda a extravagância, suas personagens são reais, complexas e vivas, diferentemente da grande maioria criada no cinema atualmente (no passado, nem se fale).

No elenco, Almodóvar aposta em figuras recorrentes de sua obra, atores que se encaixam em sua estética e compreendem perfeitamente o tom que sua criação deve ter. Propositalmente, aqui Antonio Banderas é colocado em segundo plano, com um papel menor, bem diferente de sua veia dramática já usada pelo diretor em Matador A Lei do Desejo, e que seria ainda mais explorada, posteriormente, em Ata-me, A pele que habito e o recente Dor e Glória. O ponto alto de performance do filme é a estupenda Carmen Maura, que além de dominar todas as cenas, parece ter nascido com a alma de Pepa. Inesquecível, Mulheres à beira de um ataque de nervos está ao lado de Tudo sobre minha mãe no topo da minha hierarquia (injusta) almodovariana.

Pedro Almodóvar é um daqueles caras que fico aguardando ansioso por lançamentos, por novos clássicos libertários e ferventes, verborrágicos e incômodos, pois é um dos poucos artistas das antigas que eu acredito que a obra-prima ainda está por vir. A maturidade e o passar do tempo fazem muito bem a ele. E a nós, por consequência.

Aproveito para indicar o maravilhoso episódio do Masmorracast sobre a carreira do diretor espanhol:

https://masmorracine.com.br/2010/02/08/6107/

Ponto forte: O filme é um exemplar magnífico do respeito, da sensibilidade e do carinho do diretor ao tratar o universo feminino.

Ponto fraco: Personagens caricaturescos e situações que beiram ao pastelão enfraquecem um pouco o drama da obra, tão marcante em outros trabalhos do cineasta.

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Ficha Técnica

Direção de Pedro Almodóvar

Roteiro de Pedro Almodóvar

Produção de Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar

Elenco principal com Carmen Maura, Julieta Serrano, María Barranco, Rossy de Palma, Antonio Banderas, Fernando Guillén e Kiti Mánver

Fotografia de José Luís Alcaine

Edição de José Salcedo

Cenografia de Félix Murcia

Figurino de José Maria de Cossío

Trilha Sonora de Bernardo Bonezzi

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Dica cultural, diretamente da Espanha

A dica cultural de hoje é o longa Viridiana, filme espanhol de 1961, do mestre surrealista Luís Buñuel, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Viridiana é uma noviça que, antes de fazer seus votos definitivos, precisa deixar o convento e passar um período na casa do tio, seu único parente vivo, para ter a certeza de que é aquilo que quer da vida. Nessa viagem, porém, ela acaba tendo contato com a verdadeira face da humanidade. Ela é uma pessoa pura e inocente que é exposta à baixeza dos homens. Polêmico e extremamente crítico, o filme foi condenado pelo Vaticano por blasfêmia e indecência, além de ter sido banido da Espanha pelo ditador Francisco Franco. Protagonizado pela atriz mexicana Silvia Pinal, a obra ainda conta em seu elenco com Fernando Rey, Francisco Rabal, Teresa Rabal, Margarita Lozano, José Calvo e José Manuel Martín. Grande clássico do cinema mundial, que precisa ser visto e revisto sempre que possível.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

O mais querido (China, 2014)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à China.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

O MAIS QUERIDO (China, 2014)

Qin Ai De Xiao Hai – Drama – 2h08min – Peter Ho-sun Chan

A obra em 5 segundos

Baseado em uma história real, o filme narra o drama de um casal divorciado, que precisa se unir para procurar o filho sequestrado.

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A obra em 47 segundos

Tian Wenjun (Bo Huang) e Lu Xiaojuan (Lei Hao) são divorciados e mantêm uma péssima relação. Ela se casou novamente, enquanto ele conquistou na justiça a guarda do único filho. Quando o garoto é sequestrado, eles precisam enfrentar as diferenças para saírem à sua procura. Ambos se sentem culpados pelo evento e encontram forças em um grupo formado por outros pais de crianças desaparecidas. Após anos de uma busca cruel e incessante, encontram um menino que pode ser o filho, mas ele já tem uma nova vida, com sua “nova mãe”, Li Hongqin (Wei Zhao). A obra é um Drama com “D” maiúsculo (e muitas lágrimas), que expõe diversas injustiças e mazelas da sociedade chinesa. Baseado em uma história real, O mais querido conta com atuações inspiradas, e uma direção comovente.

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A obra em 2 minutos e 33 segundos

“A esperança é um alimento. Sem ela, você morre.” A frase é verdadeira, principalmente num contexto em que a razão de viver se limita à busca por algo improvável. Tian Wenjun (Bo Huang) e Lu Xiaojuan (Lei Hao) são divorciados e mantêm uma péssima relação. Ela se casou novamente, enquanto ele conquistou na justiça a guarda do único filho. Quando o garoto é sequestrado, eles precisam enfrentar as diferenças para saírem à sua procura. Ambos se sentem culpados pelo evento e encontram forças em um grupo formado por outros pais de crianças desaparecidas.

O mais querido, filme chinês de 2014, premiado em diversos festivais pelo Oriente, testa o controle emocional do espectador com altas doses de melancolia e ataques certeiros no coração, com cenas poderosas de conflitos sociais e familiares. A obra é um Drama com “D” maiúsculo, que expõe diversas injustiças e mazelas da contemporaneidade chinesa. Baseada em uma história real, conta com atuações inspiradas, além de direção e roteiro comoventes, de Peter Ho-sun Chan e Ji Zhang, respectivamente.

Com o desaparecimento da criança, o longa inicia o seu foco na dor dos pais e na forma com que os dois reagem à tragédia. Lu, inicialmente, culpa Tian, e, aos poucos, vai se afundando em uma profunda depressão, que prejudica seu novo casamento. Tian, por sua vez, assume a responsabilidade e sai imediatamente às ruas para procurar pistas. Passando noites na sarjeta, procurando a imprensa, gastando o pouco dinheiro que tem e sem dormir, Tian ainda precisa enfrentar inúmeras tentativas de extorsão, vindas de mensageiros de falsas informações.

Após anos de uma busca cruel e incessante, encontram um menino que pode ser o filho, mas ele já tem uma nova vida, com sua “nova mãe”, Li Hongqin (Wei Zhao). E é aí que a trama muda completamente de figura e mostra toda a sua grandeza narrativa e criativa. Lu e Tian são colocados temporariamente de lado, para que o diretor possa focar no sofrimento de Li, a nova “protagonista”. Viúva recente, não só descobre que o marido era um sequestrador de crianças, como perde, do dia para a noite, os dois “filhos”, e é condenada a seis meses de prisão.

Algumas questões relevantes são escancaradas no filme, como o tráfico de crianças, a política de controle de natalidade, e o sistema judiciário chinês, conservador e preconceituoso, que massacra os pobres, as mulheres, e as populações rurais, mas é extremamente incapaz de combater o crime organizado.

A humanização da antagonista, que faz o público ter uma gangorra de sentimentos pela personagem Li, é a cereja do bolo, é o toque de classe no meio campo, que eleva o patamar de um time. O mais querido é uma verdadeira joia dramática, com elementos de crítica, que termina de forma devastadora, misturando ficção e realidade, lágrimas e soluços.

Ponto forte: Expor os dois lados de um drama real foi uma opção muito acertada.

Ponto fraco: Comportamentos e motivações do personagem Gao Xia, o advogado, não são muito consistentes, destoando das demais personalidades da obra, sempre naturais e realistas.

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Ficha Técnica

Direção de Peter Ho-sun Chan

Roteiro de Ji Zhang

Produção de Peter Chan e Yuet-chun Hui

Elenco principal com Wei Zhao, Bo Huang, Dawei Tong, Lei Hao e Yi Zhang

Fotografia de Shu Chou

Edição de Derek Hui

Design de produção de Li Sun

Figurino de Dora Ng

Trilha Sonora de Leon Ko e Peng Dou

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Dica cultural, diretamente da China

A dica cultural de hoje é o filme Sombra, trabalho mais recente do lendário cineasta chinês Zhang Yimou, lançado no ano passado. Sombra conta a história dos homens que, por suas características físicas, eram preparados, desde criança, para serem “dublês” de reis e comandantes na Era dos Três Reinos da China, visando a proteção dos originais e a aplicação de estratégias de guerra/tomada de poder. O protagonista é um desses indivíduos, que acaba vendo a sua existência se misturando ao papel interpretado. Completamente tingido de cinza, o filme mescla farsa e artes marciais, tradições milenares e guarda-chuvas assassinos, bem como constrói uma interessantíssima “guerra de tronos”. Sublime poesia imagética, a obra goza de uma fotografia apaixonante, e usa a chuva como importante elemento de composição de ambiente e sensações. Fica como indicação, ainda, a trilogia de programas do Masmorracast, que tratou brilhantemente sobre toda a carreira de Zhang Yimou, listada nos links abaixo:

Parte 1 – A Quinta Geração: https://masmorracine.com.br/2019/08/09/masmorra-cast-70-especial-zhang-yimou-parte-1-a-quinta-onda/

Parte 2 – Heróis e Adagas – https://masmorracine.com.br/2019/08/19/masmorra-cast-71-especial-zhang-yimou-parte-2-continuacao-herois-e-adagas/

Parte 3 – Cicatrizes e Sombras – https://masmorracine.com.br/2019/09/01/masmorra-cast-72-especial-zhang-yimou-parte-3-cicatrizes-e-sombras/

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Microhabitat (Coreia do Sul, 2017)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Coreia do Sul.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

MICROHABITAT (Coreia do Sul, 2017)

So-gong-nyeo – Drama – 1h46min – Go-Woon Jeon

A obra em 13 segundos

Para manter os únicos prazeres de sua vida, o cigarro e o uísque, uma garota decide economizar, devolvendo o imóvel em que residia ao proprietário e procurando abrigo em casas de amigos do passado. A cada reencontro, um novo drama.

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A obra em 55 segundos

Mi-So (Esom) é uma jovem que trabalha como faxineira e que tem apenas três prazeres na vida: cigarro, uísque e o namorado Han-Sol (Ahn Jae-hong). Com o aumento dos preços do cigarro e do uísque, ela decide devolver o imóvel em que reside ao proprietário e procurar abrigo em casas de amigos do passado. Mi-So faz uma lista com os nomes dos integrantes de sua banda da juventude e vai de porta em porta em busca de um teto. A cada reencontro, um novo drama. Microhabitat é um filme sul-coreano de 2017, com roteiro e direção de Go-Woon Jeon, capaz de tocar corações e gerar reflexões acerca da configuração social e afetiva dos novos tempos. A obra desperta sentimentos ambíguos no espectador: ao mesmo tempo em que o público julga as decisões absurdas da protagonista, é seduzido pela doçura quase inocente da garota. O ambiente frio e melancólico da história é brilhantemente engrandecido pela fotografia de Tae-soo Kim e pela trilha sonora de Kwun Hyun-jeong.

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A obra em 2 minutos e 46 segundos

Mi-so (Esom) mora sozinha em uma pequeno apartamento, quase sem mobília, e faz serviços de faxina para o seu sustento. O dinheiro que ganha, separa em uma caixa com divisórias, que indicam cada montante reservado para seus gastos: aluguel, uísque, cigarro e alimentação. Vivendo sempre no limite financeiro, a jovem controla suas economias em um caderninho. Mi-so namora Han-Sol (Ahn Jae-Hong), um aspirante a cartunista, que não reúne condições de abandonar o quarto coletivo em que mora para viver com a companheira. Os preços do uísque e do cigarro sobem e a trama se inicia.

Microhabitat é um filme sul-coreano de 2017, com roteiro e direção (filme de estreia) de Go-Woon Jeon, capaz de tocar corações e gerar reflexões acerca da configuração social e afetiva dos novos tempos. A história se desenrola naturalmente nos primeiros minutos. Inicialmente, o espectador acredita acompanhar as desventuras de uma personagem com problemas econômicos, como já visto em diversas outras películas e em infinitos casos reais que nos cercam diariamente. Porém, quando a protagonista se vê diante de uma crise, em que ela é obrigada a cortar gastos, o tom da obra muda, e o olhar do público também.

Para manter os únicos prazeres de sua vida, o cigarro e o uísque, Mi-so decide devolver o imóvel em que reside ao proprietário e procurar abrigo em casas de amigos do passado. Ela faz uma lista com os nomes dos integrantes de sua banda da juventude e vai de porta em porta em busca de um teto. A cada reencontro, um novo drama. Com o desenrolar dos acontecimentos, sentimentos ambíguos começam a ser gerados em quem assiste: ao mesmo tempo em que se julga as decisões absurdas da protagonista, se é seduzido pela doçura quase inocente da garota.

Um aspecto negativo que pode ser destacado no filme é o formato “episódico”, contendo cada um dos “capítulos”, inclusive, uma espécie de título. A forma em si não é o problema e, sim, o fato de que tudo se torna um pouco previsível. Apesar de cada visita trazer surpresas, personalidades distintas, tragédias diferentes e ímpares, e todas elas serem bem trabalhadas, na metade do filme já é possível supor o que irá ocorrer – ela vai chegar na casa do amigo, ter um conflito, e passar para a próxima – o que diminui o interesse nos eventos futuros.

Em que pese a ressalva feita no parágrafo anterior, Microhabitat é um drama sutil e poderoso ao mesmo tempo. Escancara a solidão das pessoas da cidade grande, tristezas familiares, problemas sociais agravados (e até criados) pela modernidade, além de apresentar complexas figuras, que demonstram a democracia da dor, que habita os lares (e as ruas) sem sopesar requisitos. O ambiente frio e melancólico da história é brilhantemente engrandecido pela fotografia de Tae-soo Kim e pela trilha sonora de Kwun Hyun-jeong. Inegável, também, que a cineasta Go-Woon Jeon estreou magistralmente como diretora, trazendo tons de ironia e absurdo a belas paisagens urbanas, em câmera fixa, que lembra, em alguns momentos, trabalhos de Woody Allen. Microhabitat é mais uma saborosa surpresa dramática vinda do Oriente.

Ponto forte: A direção de fotografia de Tae-soo Kim e a trilha sonora de Kwun Hyun-jeong são peças fundamentais para a construção do ambiente frio, solitário e melancólico em que a protagonista está inserida.

Ponto fraco: O formato “episódico” torna o desenrolar da trama um pouco previsível.

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Ficha Técnica

Direção de Go-Woon Jeon

Roteiro de Go-Woon Jeon

Elenco principal com Esom, Ahn Jae-hong, Choi Duk Moon, Jae-hwa Kim, Kang Jin-A, Kim Hee Won e Soo-hyang Cho

Fotografia de Tae-soo Kim

Edição de Go Bong-gon

Design de produção de Nam-sook Kim

Figurino de Ji Ji-yeon

Trilha Sonora de Kwun Hyun-jeong

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Dica cultural, diretamente da Coréia do Sul

Confesso não ser o maior admirador de histórias de zumbi, mas a dica cultural de hoje é uma das melhores coisas que já encontrei na Netflix: Kingdom, série sul-coreana de apenas seis episódios na primeira temporada, escrita por Kim Eun-hee e dirigida por Kim Seong-hun. Ambientada magistralmente na época da Dinastia Joseon, a fotografia e os detalhes cenográficos da Coreia medieval são fascinantes, e fazem com que o trabalho tenha um valor artístico enorme, além da dose de entretenimento. Quando o rei se torna recluso misteriosamente, o príncipe Lee Chang (Ju Ji-Hoon) tenta visitá-lo, mas é impedido pela jovem esposa do pai, que, grávida, coloca todo o reino contra o herdeiro. Ao tentar descobrir a verdade sobre a enfermidade do rei, ele se depara com uma brutal epidemia zumbi, dando início a uma caçada frenética, que mistura espadas samurai e mortos-vivos. No elenco, além da ótima performance do protagonista, destaca-se as excelentes atuações de Be Doona e de Kim Sang-ho, que dá vida ao fiel escudeiro do príncipe, um personagem de carisma inigualável. Kingdom é uma série deliciosa, que já teve a renovação para a próxima temporada anunciada. Aguardemos ansiosos.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Segredos e Mentiras (Inglaterra, 1996)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Inglaterra.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

SEGREDOS E MENTIRAS (Inglaterra, 1996)

Secrets & Lies – Drama – 2h22min – Mike Leigh

A obra em 12 segundos

Drama familiar britânico, sobre uma mulher negra que conhece sua família biológica branca, formada por pessoas tristes e amargas, que escondem dolorosos segredos. A obra conta com um trabalho de atuação magnífico das protagonistas.

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A obra em 46 segundos

Segredos e Mentiras é um drama britânico que narra a história de Hortense Cumberbatch (Marianne Jean-Baptiste), uma mulher negra, que decide procurar sua família biológica após o falecimento de sua mãe adotiva, e descobre ser filha de Cynthia Purley (Brenda Blethyn), uma mulher branca. Bem sucedida em sua vida profissional e satisfeita com a criação que lhe foi concedida, Hortense se vê envolvida pelos laços de uma nova família, completamente disfuncional, que esconde segredos dolorosos. Dirigido pelo lendário cineasta Mike Leigh, o filme foi vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes em 1996 e indicado a cinco categorias do Oscar 97. Leigh é sabidamente um grande diretor de atores e, em Segredos e Mentiras, este talento alcança o seu apogeu com as interpretações marcantes de Brenda Blethyn (um espetáculo) e Marianne Jean-Baptiste, bem como com o total entrosamento do elenco. Uma obra que, apesar do enorme reconhecimento da crítica e dos festivais, merecia ser mais considerada pelo público.

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A obra em 2 minutos e 53 segundos

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes em 1996, do Prêmio Goya de Melhor Filme Europeu do ano, eleito o Melhor Filme Britânico e o Melhor Roteiro Original na 50ª edição do British Academy Film Awards, indicado a cinco categorias do Oscar 97, além de ganhador de inúmeros outros prêmios referentes a atuações, com destaque ao Globo de Ouro de Melhor Atriz. Este é o currículo de Segredos e Mentiras, drama familiar inglês, dirigido pelo lendário cineasta Mike Leigh, que, apesar do enorme reconhecimento dos festivais, merecia ser mais considerado pelo público.

O filme narra a história de Hortense Cumberbatch (Marianne Jean-Baptiste), uma mulher negra, que decide procurar sua família biológica após o falecimento de sua mãe adotiva, e descobre ser filha de Cynthia Purley (Brenda Blethyn), uma mulher branca. Bem sucedida em sua vida profissional e satisfeita com a criação que lhe foi concedida, Hortense se vê envolvida pelos laços de uma nova família, completamente disfuncional, que esconde segredos dolorosos. Segredos que os impedem de gozar o prazer do afeto e, consequentemente, o prazer da felicidade.

Confesso ter uma predisposição para gostar de dramas familiares. Aliás, arrisco-me a dizer que esta é a minha subcategoria favorita dentre os produtos culturais que consumo, literatura, cinema, teatro, quadrinhos e tudo mais. Porém, é importante que se diga que existe uma linha tênue que separa a tragédia familiar do melodrama barato e, na grande maioria das vezes, os criadores não são capazes de manter essa linha intacta. Trabalhar o sofrimento real e rotineiro na ficção, mantendo o equilíbrio da obra, é uma arte, que, em Segredos e Mentiras, Mike Leigh demonstra dominar por completo.

No tocante ao ponto de partida da trama, é acertadíssima a opção do diretor por fugir dos clichês da “garota adotada sofredora, com crise existencial, por ter sido abandonada pela mãe biológica” e da “família branca rica que acolheu a menina negra abandonada”. Aqui, a garota negra foi abandonada por uma mãe branca, adotada por uma família negra, que a encheu de amor e a deu condições para que se tornasse uma mulher forte e de sucesso. Aqui, a tensão está justamente no seio da família que a abandonou e não sabe lidar com o seu reaparecimento, que acaba escancarando a fragilidade e a hipocrisia escondidas sob as máscaras de todos, por décadas.

Leigh é sabidamente um grande diretor de atores e, em Segredos e Mentiras, este talento alcança o seu apogeu com as interpretações marcantes de Brenda Blethyn (um espetáculo) e Marianne Jean-Baptiste, bem como com o total entrosamento do elenco. Pelo menos duas cenas do filme (a da lanchonete [numa única e longa tomada] e a do aniversário) são memoráveis. Sensíveis e brutais. Que sangram e encantam na medida certa. Segredos e Mentiras é um filme para ser revisto em diversas fases da vida, com o intuito de se explorar seus sentimentos em diversas nuances, num compartilhamento de dor, que torna a convivência muito mais simples e verdadeira.

Ponto forte: Atuação esplendorosa de todo o elenco, com destaque ao trabalho marcante de Brenda Blethyn.

Ponto fraco: Poderia ser um pouco menor.

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Ficha Técnica

Direção de Mike Leigh

Roteiro de Mike Leigh

Elenco principal com Brenda Blethyn, Marianne Jean-Baptiste, Timothy Spall, Phyllis Logan, Claire Rushbrook, Elizabeth Berrington, Lee Ross e Ron Cook

Produção de Simon Channing Williams

Fotografia de Dick Pope

Edição de Jon Gregory

Design de produção de Alison Chitty

Figurino de Maria Price

Trilha Sonora de Andrew Dickson

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Dica cultural, diretamente da Inglaterra

A dica cultural de hoje é a série britânica Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas, criada por Steven Knight, exibida originalmente pela BBC, e disponível na Netflix. Inspirada por eventos reais ocorridos na Birmingham pós-Primeira Guerra, a obra narra a história de uma família de criminosos, liderada por Thomas Shelby (Cillian Murphy), e seus negócios escusos. Explorando uma direção de fotografia impecável e uma trilha sonora poderosíssima, Peaky Blinders já possui 5 temporadas, sem perder o fôlego. No elenco, a série conta com nomes de respeito, como Helen McCrory, Sam Neill, Tom Hardy e Adrien Brody. O roteiro, também a cargo de Steven Knight, é um show à parte, extremamente competente ao criar personagens complexos, tramas consistentes e diálogos valiosos (imprescindíveis na construção das personalidades). Dona de uma qualidade cinematográfica imensa, a série é viciante, difícil de deixar para lá. Um prato cheio para os amantes de histórias de máfia, de faroestes e de ficções históricas.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

Vidas duplas (França, 2018)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à França.

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

VIDAS DUPLAS (França, 2018)

Doubles Vies – Drama – 1h48min – Olivier Assayas

A obra em 6 segundos

Drama francês, que escancara o íntimo de dois casais, enquanto reflete acerca da nova configuração do mercado editorial.

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A obra em 1 minuto e 1 segundo

Intelectuais burgueses neuróticos refletindo sobre arte e cultura, ao passo que enfrentam problemas conjugais. Parece Woody Allen, mas é Vidas Duplas, filme do diretor francês Olivier Assayas (Acima das nuvens Personal Shopper), que escancara o íntimo de dois casais, tendo como pano de fundo a nova configuração do mercado editorial. Alain (Guillaume Canet) é um editor de sucesso, que vem tendo imensas dificuldades em se adaptar à nova cena literária, com plataformas digitais, e-books, blogs e redes sociais. Leonard (Vincent Macaigne), por sua vez, é um escritor insatisfeito, que tem a sua nova obra recusada por Alain, seu editor há anos. Paralelamente (nem tão paralelo assim) à crise profissional entre eles, ambos escondem segredos e enfrentam dificuldades em seus casamentos. Repleto de diálogos enormes e debates sobre a atualidade cultural, Vidas Duplas é um competente e charmoso drama, apesar de ser vendido como comédia. O filme conta, ainda, com uma Juliette Binoche muito à vontade no papel, em mais um trabalho estupendo da atriz.

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A obra em 3 minutos e 2 segundos

O mercado editorial vem sofrendo seguidos abalos já há alguns anos, causados pela revolução digital, que mudou completamente a relação das pessoas com a literatura. O novo cenário afetou não só as editoras e as livrarias, como também atingiu escritores, leitores, revisores, tradutores, dentre outros profissionais ligados à escrita. Cumpre salientar que para alguns as mudanças foram positivas, para outros, negativas, e tiveram aqueles que quebraram, massacrados pela modernidade e pela incapacidade de adaptação.

Intelectuais burgueses neuróticos refletindo sobre arte e cultura, ao passo que enfrentam problemas conjugais. Parece Woody Allen, mas é Vidas Duplas, filme do diretor francês Olivier Assayas (Acima das nuvens Personal shopper), que escancara o íntimo de dois casais, tendo como pano de fundo essa nova configuração do mercado editorial. Repleto de diálogos enormes e debates sobre a atualidade cultural, o filme é um competente e charmoso drama, apesar de ser vendido como comédia.

Alain (Guillaume Canet) é um editor de sucesso, que vem tendo imensas dificuldades em se adequar à nova cena literária, com plataformas digitais, e-books, blogs e redes sociais. Leonard (Vincent Macaigne), por sua vez, é um escritor insatisfeito, com tendências anarquistas, que tem a sua nova obra recusada por Alain, seu editor há anos, supostamente por ser um autor monotemático e sempre insistir na exposição de seus relacionamentos amorosos passados. Paralelamente (nem tão paralelo assim) à crise profissional entre eles, ambos escondem segredos e enfrentam dificuldades em seus casamentos.

Selena (Juliette Binoche, muito à vontade no papel, em mais um trabalho estupendo), esposa de Alain, é uma atriz de série policial, que também está questionando os rumos que sua carreira tomou. Convincente em suas opiniões, ela tenta influenciar o marido a publicar o novo livro de Leonard. Valérie (Nora Hamzawi), esposa do escritor, é um misto de emoções. Se em uma cena ela parece cruelmente alheia às dores do marido, em outra, seus olhos são capazes de revelar uma doçura melancólica, típica de quem suplanta seus sentimentos. Sobre o título do filme: todos eles possuem uma segunda vida, que, curiosamente, também não os satisfazem, e que se entrelaçam em determinado momento da trama.

Vidas Duplas é um retrato curioso sobre a hipocrisia e sobre o descontentamento de pessoas, que já passaram dos cinquenta, com o resultado parcial de suas existências. Entre uma taça de vinho e outra, entre um café e outro, entre um adultério e outro, os personagens discutem e debatem sobre filmes, livros, blogs e a relação da juventude com a arte. O quarteto de protagonistas está incrível e concede ao espectador personagens complexos, que conseguem ser exóticos e críveis ao mesmo tempo. Olivier Assayas, por sua vez, já marcou seu nome na lista dos cineastas franceses obrigatórios, ainda que, confesso, para gostar de Vidas Duplas, é preciso apreciar o estilo. Se você curte o trabalho de Woody Allen, vá sem medo. Mas cuidado com as críticas/resenhas que o comparam a Closer, porque não é bem por aí.

Ponto forte: Excelentes reflexões acerca da nova configuração da literatura, em meio às evoluções tecnológicas.

Ponto fraco: O filme ser vendido como uma comédia. Em que pese ser uma película bem humorada e haver diversas passagens em que é possível rir do comportamento dos protagonistas, o riso não é de graça ou diversão. Os supostos sorrisos vindos da obra são mais de desânimo com as pessoas, que de empatia.

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Ficha Técnica

Direção de Olivier Assayas

Roteiro de Olivier Assayas

Elenco principal com Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne, Nora Hamzawi e Christa Theret

Produção de Charles Gillibert

Fotografia de Yorick Le Saux

Edição de Simon Jacquet

Design de produção de François-Renaud Labarthe

Figurino de Juring Doering

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Dica cultural, diretamente da França

A dica cultural de hoje é o romance Os dados estão lançados, do filósofo francês Jean-Paul Sartre. Escrita em 1947, a obra se diferencia de outros grandes trabalhos filosóficos pela sua extrema simplicidade. Sartre é capaz de gerar reflexões profundas e discussões complexas com um texto ágil e sem firulas, acessível ao grande público. Criado a princípio como peça teatral, a narrativa se passa no presente, com indicações de cenários ao invés de capítulos, e conta a história de Pierre e Éve. “Se em consequência de um erro, um homem e uma mulher destinados um ao outro, não se encontram durante a sua vida, podem reclamar e obter autorização para voltar a Terra, dentro de certas condições para ir viver ali o amor e a vida em comum que lhes foi indevidamente frustrada.” É com base neste dispositivo do livro de leis que rege o universo, que os dois protagonistas, recém-falecidos, retornam à vida. Porém, a legislação também prescreve alguns requisitos para essa volta e eles precisarão cumpri-los em 24 horas. Desavisados podem, equivocadamente, confundir Os dados estão lançados com um livro religioso, mas vale ressaltar que Sartre era ateu e existencialista. A vida após a morte da obra é uma grande alegoria para o filósofo discorrer acerca de temas caros a suas teorias, como liberdade e luta de classes.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

A casa (Uruguai, 2010)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos ao Uruguai.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

A CASA (Uruguai, 2010)

La casa muda –Terror – 1h26min – Gustavo Hernández

A obra em 9 segundos

Rodado em apenas quatro dias e apresentado como um suposto plano-sequência único, A Casa é um terror uruguaio que retrata o desespero de uma mulher tentando escapar de um sinistro imóvel isolado.

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A obra em 44 segundos

O terror é um gênero cinematográfico em constante mutação. Os cineastas que se enveredam por tal seara precisam sempre se reinventar para surpreender, criar impacto, desconforto, e para desenvolver mecanismos que despertem o medo do espectador. Algumas estratégias utilizadas há cinquenta anos, por exemplo, não funcionam mais, e muitas obras que eram assustadoras, atualmente são contempladas apenas por seu valor artístico e histórico. Em A Casa, filme uruguaio de 2010 que retrata o desespero de uma mulher tentando escapar de um sinistro imóvel isolado, o diretor Gustavo Hernández brinca com a linguagem do cinema e a usa em seu favor, apresentando um suposto plano-sequência único de quase 80 minutos, onde é permitido olhar, mas não é possível acreditar no que se vê.

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A obra em 2 minutos e 32 segundos

Obras ambientadas em casas sinistras, com acontecimentos esquisitos, não são novidades. Histórias assustadoras supostamente baseadas em fatos reais também não são raras. Filmes de terror filmados com câmera na mão, com o intuito de tornar a experiência mais imersiva para o público, já foi uma surpresa, hoje não é mais. O poder surpreendente de A Casa, película de estreia do cineasta uruguaio Gustavo Hernández, está na mistura de todos os elementos citados, temperada por uma competente “brincadeira” com a linguagem cinematográfica.

Laura (Florencia Colucci) se hospeda, juntamente com seu pai, na isolada casa de campo de um amigo, com o intuito de realizar reparos para a futura venda do imóvel. Porém, pouco tempo depois de sua chegada, coisas estranhas começam a acontecer, e ela precisa encontrar uma saída do lugar. Rodado em apenas quatro dias, com um orçamento de aproximadamente seis mil dólares, e apresentada como um suposto plano-sequência único, A Casa retrata o desespero de Laura tentando escapar dos horrores do local.

Cultuado em Cannes, a obra divide opiniões de crítica e público, principalmente pela sua realização completa em um “falso” plano-sequência. Primeiramente, o filme apresenta um suposto terror em tempo real, em que o espectador acompanha a protagonista pelo seu calvário, durante determinado período. Com o desenrolar da trama, entretanto, percebe-se que o tempo da personagem e o tempo de quem assiste não são os mesmos, e que tudo aquilo que é visto na tela pode não ser realmente o que se vê.

Sem efetuar cortes explícitos, o diretor realiza sutilmente a transição de perspectiva, variando entre o olhar de dois personagens distintos e a visão onisciente do público. Na literatura, é sabido que não se pode confiar no narrador em primeira pessoa, da mesma forma que no cinema é comum que o espectador seja traído pela relação deturpada do personagem com a realidade exposta por ele. Em A Casa, não é possível acreditar nem nos próprios olhos, pois, aos poucos, o diretor vai revelando (inclusive pelo uso interessante de fotografias) que está enganando desde o início, e esta “fraude” incomodou profundamente os críticos.

Em que pese a decepção de alguns, a “falcatrua escancarada” de Gustavo Hernández é o que torna A Casa um filme diferente, que subverte a lógica da necessidade de fazer sentido e de se impor limites à criação narrativa. A obra é recheada de clichês, tem criança fantasma, tem boneca, tem pássaro, tem susto desnecessário, tem porta batendo, tem escuridão escondendo segredos, e tudo mais. Todavia, é um trabalho que merece atenção e aplausos, pelo seu experimentalismo e por tentar dar uma aloprada em conceitos tão repetitivos do gênero, contando com um ínfimo investimento financeiro.

Ponto forte: Toda a construção da narrativa por Gustavo Hernández e sua equipe é o ponto alto da película. O jogo de câmera, a manipulação de cenários, a distribuição de pistas, a sintonia entre os planos e os movimentos da atriz, tudo é muito bem orquestrado.

Ponto fraco: Em alguns momentos, o filme se utiliza de artimanhas desnecessárias de luz e som para assustar o espectador.

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Ficha Técnica

Direção de Gustavo Hernández

Roteiro de Oscar Estévez, baseado em uma história de Gustavo Hernández e Gustavo Rojo

Elenco principal com Florencia Colucci, Gustavo Alonso, María Salazar e Abel Tripaldi

Produção de Ignacio García Cucucovich e Gustavo Rojo

Fotografia de Pedro Luque

Edição de Gustavo Hernández

Design de produção de Federico Capra

Figurino de Federico Capra, Carolina Duré e Natalia Duré

Trilha sonora de Hernán González

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Dica cultural, diretamente do Uruguai

A dica cultural de hoje é a obra de um dos principais pensadores da sociedade latino-americana e suas mazelas: o jornalista, escritor e militante político Eduardo Galeano. Odiado pelos elementos estagnados à Direita, o autor se tornou um símbolo do ideário esquerdista, apesar de, em determinados momentos, ter seu posicionamento questionado pelos próprios entusiastas de seu trabalho. Com uma escrita pungente e combativa, Galeano escancarou para o mundo a História de exploração, violência e opressão em que foi embasada a dinâmica social latino-americana, colocando-se sempre ao lado dos oprimidos e injustiçados. Sua publicação mais famosa, As veias abertas da América Latina, alcançou os status de best-seller e clássico da literatura anticapitalista, ao rediscutir séculos de uma história, antes calcada em versões oficiais contadas por homens, brancos, ricos, militares. Memória de Fogo, Nós dizemos não, O livro dos abraços e O futebol ao sol e à sombra (aliás, Galeano era um aficionado por futebol e um estupendo cronista esportivo) são outras importantes obras de sua prolífica criação, publicadas no Brasil. Eduardo Galeano é um dos grandes nomes das letras uruguaias, tendo as suas ideias influenciado diversos líderes e governantes da Latino-América.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até mais.

Carvalho de Mendonça

O Teste Decisivo (Japão, 1999)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos ao Japão.

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

O TESTE DECISIVO (Japão, 1999)

Ôdishon – Drama/Terror – 1h55min – Takashi Miike

 

A obra em 16 segundos

Terror japonês, com forte tendência dramática, que conta a história de Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi), executivo que decide realizar uma falsa audição de cinema, visando, ao invés de encontrar uma atriz, selecionar uma futura esposa. Com os testes, ele acaba se encantando pela bela e misteriosa Asami (Eihi Shiina).

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A obra em 50 segundos

Takashi Miike é um controverso cineasta japonês, famoso por suas obras bizarras e chocantes. Em O Teste Decisivo, longa de 1999, o diretor apresenta um de seus trabalhos mais sóbrios, apesar de toda esquisitice. O filme conta a história de Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi), executivo que decide realizar uma falsa audição de cinema, visando, ao invés de encontrar uma atriz, selecionar uma futura esposa. Com os testes, ele acaba se encantando pela bela e misteriosa Asami (Eihi Shiina). A trama, até meados do segundo ato, se desenha como um bem construído romance dramático, que vai alimentando a expectativa do espectador pela virada, até a sua total entrega ao desespero. Relativamente recente, O Teste Decisivo já é considerado um clássico do terror oriental, e expõe, com tons de humor negro, uma dolorosa punição a abusos machistas.

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A obra em 2 minutos e 42 segundos

Não há como ficar indiferente ao trabalho de Takashi Miike. Dono de um cardápio extenso e de um estilo incômodo, o cineasta é comumente lembrado por explorar bizarrices e perversões em suas obras. Em que pese também conter muito sangue, tortura e membros decepados, O Teste Decisivo, seu filme de 1999, destaca-se por ser uma de suas produções mais “pé no chão”, ainda que este pé esteja separado do resto do corpo. O longa se vende como um terror, razão pela qual os mais radicais poderão se cansar de seu excesso dramático, tom que predomina na trama até a curva final.

Sete anos após a morte de sua esposa, Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi) decide seguir o conselho de seu filho Shigehiko (Tetsu Sawaki) e encontrar uma nova esposa. Quando comenta sobre seus planos com o amigo Yasuhisa Yoshikawa (Jun Kunimura), este tem a ideia de realizar uma falsa audição, que seria anunciada como processo seletivo de cinema, para que, na realidade, Aoyama pudesse conhecer, analisar e escolher a sua nova companheira. O próprio protagonista acha o projeto abusivo, mas acaba concordando. Não deveria.

Logo na análise curricular, Aoyama já se encanta por Asami (Eihi Shiina), admirado não só pela sua beleza, mas também por sua postura diante da vida, apesar da pouca idade. A história se desenrola, durante a primeira hora, como um bom e bem dirigido “filmão de drama”, que começa a se transmutar quando Yoshikawa, desconfiado de Asami, decide investigar as informações prestadas pela candidata e não encontra absolutamente nada sobre o seu passado. Ao passo que o relacionamento de Aoyama e Asami evolui, a atmosfera de mistério vai tomando conta, até ceder espaço para o total terror de conclusão.

O Ocidente sempre tende a estranhar a relação do homem japonês com o sexo e com a figura feminina. Porém, o comportamento masculino em O Teste Decisivo é universal e palatável para o público de qualquer ambiente. Aoyama e Yoshikawa se portam como adolescentes, criaturas de uma sociedade machista, educados para exercerem superioridade e perpetuarem uma cultura secular de subjugação e exploração da mulher. A subversão de Takashi Miike na obra vem da reação do oprimido, do sinistro contra-ataque da doce Asami.

O Teste Decisivo não é um terror de susto. O filme não é indicado para quem procura “pular da cadeira”. Miike aterroriza o espectador pela morbidez e pela naturalidade com que escancara a personalidade de uma personagem absurdamente cruel. O sangue e a violência extrema surgem para dar sabor, mas não são o prato principal. A estrela da companhia, no fim das contas, é o clima instaurado pelo diretor, que flerta com o noir, e chega a colocar os dois pés no conto de amor romântico. Ainda que estes pés não tenham dedos.

 

Ponto forte: Direção mais sóbria de Takashi Miike, competente ao criar uma atmosfera mórbida por meio de sutis elementos, sem a necessidade de artimanhas desleais com o público.

Ponto fraco: O filme se vende como terror, mas, na maior parte do tempo, apresenta um drama ao público. O espectador que nutre expectativas durante toda a construção, esperando pela hora da virada, pode se decepcionar com a solução.

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Ficha Técnica

Direção de Takashi Miike

Roteiro de Daisuke Tengan, baseado na obra de Ryu Murakami

Elenco principal com Ryo Ishibashi, Eihi Shiina, Tetsu Sawaki, Jun Kunimura, Renji Ishibashi e Toshie Negishi

Produção de Akemi Suyama e Satoshi Fukushima

Fotografia de Hideo Yamamoto

Edição de Yasushi Shimamura

Design de produção de Tatsuo Ozeki

Figurino de Tomoe Kumagai

Trilha sonora de Kôji Endô

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Dica cultural, diretamente do Japão

A dica cultural de hoje é o mangá-documentário Virgem depois dos 30, escrito por Atsuhiko Nakamura e ilustrado por Bargain Sakuraichi, trazido ao Brasil pelas mãos caprichosas da Editora Pipoca & Nanquim, com tradução de Drik Sada. Atuando como gestor em uma casa de amparo a idosos, Atsuhiko Nakamura começou a identificar um padrão de comportamento tóxico em alguns sujeitos e decidiu realizar um estudo mais aprofundado sobre eles. Segundo seus levantamentos, estima-se que no Japão atual exista mais de duas milhões de pessoas acima dos trinta anos que jamais mantiveram relações sexuais, o que equivale a assustadora proporção de um a cada quatro japoneses nessa faixa etária. O autor ouviu diversos relatos e publicou oito dessas histórias, que, posteriormente, foram adaptadas pelos traços sujos e realistas de Sakuraichi. O caso dos virgens de meia-idade é um gravíssimo problema social do Japão, país que ainda não superou o término da prolongada era dos casamentos arranjados e tem uma enorme dificuldade em aceitar a liberdade sexual e profissional da mulher. Virgem depois dos 30 não é um trabalho para menores, nem para maiores sensíveis a determinados temas, em virtude de conter diversos gatilhos emocionais. A obra incomoda em sua estética visceral, que flerta com o caricaturesco, ao passo que escancara uma realidade esquisitamente sombria.

 

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até à próxima.

Carvalho de Mendonça

Vermelho como o céu (Itália, 2006)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Itália.

 

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

 

VERMELHO COMO O CÉU (Itália, 2006)

Rosso come il cielo – Drama – 1h36min – Cristiano Bortone

 

A obra em 17 segundos

Doce drama italiano que narra a história real de Mirco (Luca Capriotti), garoto apaixonado por cinema que, após um acidente doméstico, perde a visão e é obrigado a frequentar uma escola especial, onde descobre na imaginação e na criatividade poderosas armas para enfrentar seus novos desafios.

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A obra em 40 segundos

Baseado em uma história real, Vermelho como o céu é um poderoso drama de superação. Bem reconhecido inclusive por profissionais da saúde e da educação, o filme conta a trajetória de Mirco (Luca Capriotti), garoto que perde a visão e é obrigado a estudar em uma escola especial. Apaixonado pelo cinema e munido de uma imaginação esplendorosa, ele decide usar um velho gravador para produzir suas próprias narrativas em áudio. A película conta com uma excelente edição de som, uma fotografia competente e explora ao máximo o carisma das crianças para alcançar o coração do público. Sutil e sensorial, Vermelho como o céu é um longa que dificilmente desagrada algum cinéfilo, apesar de poder incomodar aqueles poucos sentimentais.

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A obra em 2 minutos e 54 segundos

Nada melhor que um drama italiano de época para aquecer um coração cinéfilo. Se envolver crianças, então, as lágrimas são certas. Vermelho como o céu, filme de Cristiano Bortone, lançado em 2006, derrama sobre o público um turbilhão de emoções, capaz de ser absorvido por cada um dos sentidos humanos. Contando a história real do premiado sonoplasta Mirco Mencacci, o longa é respeitado não só pelos amantes da sétima arte, mas também por profissionais da área da saúde e da educação.

Mirco (Luca Capriotti) é um garoto apaixonado por cinema que, após um acidente doméstico, perde a visão e é obrigado a frequentar uma escola especial, tendo em vista que a legislação italiana proíbe que crianças acometidas por deficiência visual estudem em colégios comuns (tal absurdo perdurou até 1975). Sob o comando rígido de um diretor (Norman Mozzato) conservador e intransigente (além de também ser cego), o instituto católico genovês Cassoni, para onde Mirco é enviado, mantém as crianças em regime de internato e as prepara para exercerem profissões no tear e no telemarketing (únicas possíveis para cegos, segundo o autoritário diretor).

A chegada de Mirco inicia uma verdadeira revolução no local, inicialmente impulsionada por sua rebeldia, e, posteriormente, por sua criatividade magnífica. Alheio aos ensinamentos regulares do professor Don Giulio (Paolo Sassanelli) e às regras da casa, ele faz uso de um gravador para produzir suas próprias narrativas ficcionais em áudio, junto com seus amigos Felice (Simone Gulli – que carisma comovente deste menino) e Francesca (Francesca Maturanza – garota assombrosamente parecida com a atriz Glória Pires na infância).

Vermelho como o céu é um filme sensorial, competentíssimo em carregar o público pelas maravilhosas viagens das crianças, utilizando-se do som e suas correspondências. A obra ainda acerta ao adentrar a uma seara política inesperada, com a introdução do personagem Ettore (Marco Cocci), um operário revolucionário cego envolvido na luta antifascismo, que planta a semente da esperança em Mirco, que, por sua vez, influencia todas as outras crianças, bem como o professor Don Giulio, a resistir e a desobedecer.

Apesar de ainda não ter idade suficiente para ser considerado um clássico, o caminho já está pavimentado para isso. É difícil, quase impossível, tirar da cabeça alguns momentos marcantes da obra, como a cena da árvore, como os diálogos de Don Giulio com o diretor e uma funcionária do colégio, como o plano final, e como o auge da película, quando o público é convidado a vendar os olhos e não ter medo. A poesia, o lirismo e a ternura de Vermelho como o céu são, além de uma lição de vida não forçosa, uma bellissima (leia com a entonação de Felice) homenagem ao cinema e seus infinitos sentidos.

 

Ponto forte: Filme poético, sensível e extremamente tocante.

Ponto fraco: O filme não é inovador e se utiliza de algumas fórmulas manjadas de dramas de superação, fato que pode incomodar alguns espectadores.

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Ficha Técnica

Direção de Cristiano Bortone

Roteiro de Cristiano Bortone, Paolo Sassanelli e Monica Zapelli

Elenco principal com Luca Capriotti, Paolo Sassanelli, Patrizia La Fonte, Marco Cocci, Francesca Maturanza, Rosanna Gentili, Simone Colombari, Simone Gulli e Norman Mozzato

Produção de Cristiano Bortone, Ivan Fiorini e Daniele Mazzocca

Fotografia de Vladan Radovic

Edição de Carla Simoncelli

Figurino de Monica Simeone

Trilha sonora de Ezio Bosso

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Dica cultural, diretamente da Itália

A dica cultural de hoje é, sem dúvidas, a melhor coisa que li nos últimos anos: a tetralogia Série Napolitana, de Elena Ferrante (A Amiga Genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica, História da menina perdida). Elena Ferrante, na verdade, é o pseudônimo de uma autora que mantém sua identidade em sigilo. Apesar de todo o mistério em torno de sua real figura, o sucesso absoluto da escritora em todo o mundo se deve a sua narrativa poderosa e o seu talento assombroso para criar personagens. Após o desaparecimento de sua amiga Lila, Lenu decide contar a história das duas, percorrendo cada detalhe de décadas de uma amizade cercada por violência social. Ambientada em um bairro de trabalhadores de Nápoles, a obra cria um elo indissociável entre o cenário e a trama, transformando os dramas, a política, a infância, a cultura, a luta de classes e a violência em elementos quase essenciais das personagens. Série Napolitana é um relato grandioso sobre a posição da mulher em uma sociedade patriarcal e massacrante.

 

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até à próxima.

Carvalho de Mendonça

Culpa (Dinamarca, 2018)

Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venha conosco. Hoje, iremos à Dinamarca.

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

CULPA (Dinamarca, 2018)

Den skyldige – Suspense/Thriller – 1h28min – Gustav Möller

A obra em 11 segundos

Com a câmera voltada quase o tempo todo para o rosto de um policial em chamada de emergência, Culpa se utiliza de sons, vozes e roteiro primoroso, para criar um angustiante thriller de locação única.

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A obra em 49 segundos

Faltando apenas alguns minutos para o encerramento de seu turno de trabalho, o policial Asger Holm (Jakob Cedergren) atende a chamada de uma mulher que está sendo sequestrada. Munido de poucas informações, ele inicia uma solitária investigação, enquanto se angustia em razão de uma audiência judicial agendada para o dia seguinte. Utilizando-se de locação única e de uma câmera voltada em tempo integral para a face do protagonista, o estreante Gustav Möller demonstra toda a sua capacidade de direção e roteiro. Com um argumento audacioso, os ângulos e sons escolhidos, o movimento de câmera e a direção de ator seriam primordiais para a obra funcionar e não cair na armadilha do marasmo. E Culpa consegue, criando um claustrofóbico thriller policial sem sair de sua mesa.

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A obra em 2 minutos e 36 segundos

Asger Holm (Jakob Cedergren) é um policial dinamarquês que, ao atender uma chamada de emergência, se vê envolto por uma misteriosa trama, que desafia não só a sua capacidade profissional, mas também o seu autocontrole emocional. Aos poucos, as atitudes de Asger vão revelando ao público que ele está prestando serviços internos na delegacia em virtude de um acontecimento recente, pelo qual responde na justiça, e sobre o qual, inclusive, terá uma importante audiência no dia seguinte.

Culpa, filme de estreia de Gustav Möller, surpreendeu público e crítica com sua proposta audaciosa, alcançando a considerável honra de ser semifinalista na corrida pela indicação ao Oscar 2019. Apresentando um roteiro coeso e um trabalho de áudio invejável, a obra insere o espectador em um thriller policial, no qual o investigador precisa solucionar o caso tendo acesso apenas a sons e informações desconexas. Neste cenário, Cedergren dá vida a uma figura aflita de olhos angustiados e inquietos, que carrega o filme magistralmente com a câmera por 90 minutos em sua direção.

Muito se fala, atualmente, sobre o desgaste dos gêneros cinematográficos e a necessidade de se criar novas roupagens, que concedam fôlego a velhas fórmulas. Inesperadamente, Culpa surge como um grato rompimento aos padrões de um dos gêneros mais manjados da indústria. O filme se passa em apenas um ambiente, focado inteiramente em um único personagem e suas interações telefônicas, correndo todos os riscos de cair na monotonia, mas se sai muito bem, criando uma atmosfera profunda. Para isso, o diretor emprega técnicas imprescindíveis de movimentação de câmera e pequenas inserções de quebra, como a ligação de uma jornalista, duas trocas de sala, alguns diálogos com colegas de trabalho e o fechar de uma cortina.

O brilhantismo do roteiro de Gustav Möller e Emil Nygaard Albertsen fica ainda mais evidente quando se analisa a evolução do personagem diante das vistas, sem descanso. Asger é apresentado, inicialmente, com a farda impecável, o cabelo bem penteado e até um certo bom humor (demonstrado ao atender a ligação de um homem assaltado por uma prostituta), em que pese manter-se distante e desatento. Porém, com o desenrolar dos acontecimentos, sua aflição contida começa a aflorar em cada movimento corporal e Jakob Cedergren brinda o cinema com uma atuação grandiosa. Do outro lado da tela, o espectador se apavora, pois, além de compartilhar de todas as limitações do protagonista, ainda sofre por não poder agir e tomar providências.

A chamada recebida por Asger é de uma mulher vítima de sequestro, que pede socorro. A partir dela, outros contatos são feitos com o policial, e essas vozes, esses ruídos, essas respirações vão compondo o clima e montando o quebra-cabeça, ao passo que despertam em Asger (e em outros personagens também, por que não?) sentimentos conflitantes e aterradores. Sendo que a culpa é apenas um deles.

Ponto forte: roteiro competente ao trabalhar um argumento extremamente perigoso, que poderia facilmente ter desandado para a monotonia completa.

Ponto fraco: tanto a tradução brasileira do título (Culpa), quanto o original (O Culpado), não refletem com eficiência a temática do filme, haja vista que a sua essência não coaduna com as definições de “culpa”, nem no aspecto emocional, nem no aspecto jurídico. Apesar de presente, na obra não ficou demonstrado ser a “culpa” o sentimento imperioso dos fatos narrados.

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Ficha Técnica

Direção de Gustav Möller

Roteiro de Gustav Möller e Emil Nygaard Albertsen

Elenco principal com Jakob Cedergren, Morten Thunbo, Maria Gersby, Anders Brink Madsen, Katinka Evers-Jahnsen (voz), Jacob Lohmann (voz), Laura Bro (voz), Morten Suurballe (voz), Peter Christoffersen (voz), Jessica Dinnage (voz), Johan Olsen (voz) e Omar Shargawi (voz)

Produção de Lina Flint, Mads-August Grarup Hertz e Henrik Zein

Fotografia de Jasper Spanning

Edição de Carla Luffe Heintzelmann

Design de Produção de Gustav Pontoppidan

Trilha sonora de Carl Coleman e Caspar Hesselager

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Dica cultural, diretamente da Dinamarca

Nossa dica cultural de hoje é o filme A Festa de Babette (Babettes gæstebud), obra com direção de Gabriel Axel, baseada no conto homônimo de Karen Blixen, que conquistou pela primeira vez para a Dinamarca o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1988. Repleto de simbolismos filosóficos, o longa se utiliza da poesia culinária para refletir sobre o pecado, a felicidade e a graça. Babette (Stéphane Audran) é uma francesa que, fugida de seu país, chega a um vilarejo dinamarquês dominado por dogmas religiosos e se oferece para trabalhar na casa de duas senhoras solteiras. Após quatorze anos vivendo sob às privações do puritanismo local, Babette ganha na loteria e tem a oportunidade de escapar daquela realidade, porém, decide ficar e proporcionar um sofisticado banquete para os moradores da vila. Drama profundo e conceituado, A Festa de Babette ocupa um lugar importante na cena europeia de clássicos do cinema e, também, no coração dos entusiastas da gastronomia.

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até à próxima.

Carvalho de Mendonça

A estreita faixa amarela (México, 2015)

Companheiras e companheiros, fiquem à vontade. Quinzenalmente, estamos aqui no Masmorra Cine, falando de filmes não-estadunidenses de uma forma que cabe no seu tempo e, de quebra, apresentando dicas culturais oriundas dos países das obras destacadas. Venham conosco. Hoje, iremos ao México.

Carvalho de Mendonça – Podcast ” O Livro da Minha Vida” – Blog Veia Dramática

A ESTREITA FAIXA AMARELA (México, 2015)

La delgada línea amarilla – Drama – 1h35min – Celso R. Garcia

A obra em 7 segundos

A sensível e poderosa jornada de cinco homens que, incumbidos de pintar uma estrada, compartilham seus dramas e sonhos, durante quinze dias de isolamento.

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A obra em 40 segundos

Toño (Damián Alcázar) consegue um trabalho para pintar uma faixa amarela numa estrada que liga duas cidades mexicanas, junto com Gabriel (Joaquín Cosío), Atayde (Silverio Palacios), Mario (Gustavo Sánchez Parra) e Pablo (Américo Hollander). Os cinco homens possuem personalidades distintas, mas carregam consigo o peso do passado. Durante os quinze dias em que permanecem isolados, eles compartilham seus dramas e sonhos, em uma jornada de autoconhecimento. Em seu filme de estreia, Celso R. Garcia acerta em cheio na simplicidade do roteiro e na direção de atores.

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A obra em 3 minutos

Depois de onze anos trabalhando como vigia em um ferro velho, Toño (Damián Alcázar) recebe a notícia de que será substituído por um cachorro. Já com a idade avançada, e carregando apenas uma pequena caixa com objetos do passado, ele sai em busca de uma nova ocupação, ressaltando que a procura já faz parte de seu ser. O destino faz seu caminho se cruzar com o de um antigo conhecido, que lhe oferece um bom valor para a realização da pintura de uma faixa central amarela na estrada que liga as cidades mexicanas de San Jacinto e San Carlos. Ao lado de Gabriel (Joaquín Cosío), Atayde (Silverio Palacios), Mario (Gustavo Sánchez Parra) e Pablo (Américo Hollander), Toño parte em uma comovente jornada de autoconhecimento.

A estreita faixa amarela, o primeiro longa-metragem do cineasta Celso R. Garcia, surpreende por transformar um roteiro aparentemente simples em um árido drama sobre relações humanas e o poder de influência destas na evolução interna de cada um. As histórias dos cinco homens são contadas, enquanto eles traçam a linha de duzentos quilômetros, por quinze dias de um afastamento (quase) completo. O filme mescla diálogos bem humorados com passagens que beiram ao melodrama, e se escora no carisma absurdo do elenco para conquistar a empatia do público, sem a qual dificilmente a trama funcionaria.

A faixa amarela, que separa os lados e liga as cidades, une os sentimentos de pessoas completamente distintas, que, entretanto, se assemelham por carregarem nas costas os dramas que as obrigaram a aceitar aquele serviço. A obra é precisa no olhar que empreende sobre os personagens, sem criar juízo de valor ou hierarquizar as agruras, concedendo espaço e tempo para o natural desabafo de todos. Questões de saúde, celeumas familiares, fracassos profissionais, dilemas morais, o maior problema é sempre o nosso problema, e Garcia acerta em não colocar o espectador em posição de superioridade e, sim, como mais um operário, exposto aos percalços da existência.

O cenário seco e de horizonte infinito, ressaltado pela fotografia do filme, é muito familiar ao espectador brasileiro. Aliás, a trama de A estreita faixa amarela poderia ter sido desenvolvida em qualquer outro lugar, haja vista que a estrada é metáfora e a essência do filme está nos personagens. O destino, via condução coercitiva, forçou o encontro e a convivência entre os operários, que, em seus piores momentos, conseguem descobrir um com o outro o poder do recomeçar. O roteiro ainda brinca com a inclusão ao grupo de uma cadelinha, que, assim como nós, também tinha uma importante história de vida, e, naquele momento, vinha para somar, não para substituir.

Neste emocionante road movie, o passado de Toño e o passado de Pablo se cruzam, conduzindo a película ao fim da estrada. E no fim da estrada há uma curva. E, quem sabe, depois da curva, uma grande placa nos pedindo para nunca deixar de procurar.

 

 

Ponto forte: carisma do elenco.

Ponto fraco: excesso de melodrama em alguns diálogos.

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Ficha Técnica

Direção de Celso R. Garcia

Roteiro de Celso R. Garcia

Elenco principal com Damián Alcázar, Joaquín Cosío, Silverio Palacios, Gustavo Sánchez Parra, Américo Hollander e Fernando Becerril

Produção de Bertha Navarro, Guillermo del Toro e Alejandro Springall

Fotografia de Emiliano Villanueva

Montagem de Jorge García

Direção de arte de Ariel Margolis

Figurino de Gabriela Fernandez

Música de Dan Zlotnik

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Dica cultural, diretamente do México

Nossa dica cultural de hoje é o álbum Vivo, segundo disco ao vivo do romântico mexicano Luis Miguel, gravado em 17 de abril de 2000, durante show da turnê Amarte é un placer. Mesclando o pop latino mariachi ao bolero caliente, o projeto reúne todos os maiores sucessos do cantor, com destaque às quatro faixas medley, em que ele reinterpreta grandes clássicos de seus outros trabalhos.

 

 

Por hoje, é isso, companheiras e companheiros.

Até à próxima.

Carvalho de Mendonça