Calabouço da Liv #03 – Precisamos falar sobre Tilda Swinton

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Katherine Mathilda Swinton, nascida em Londres, mas criada em uma cidadezinha na Escócia (onde ainda vive) é uma atriz Oscarizada super talentosa, conhecida pela sua androginia brilhante, tanto que já atuou como homem e mulher. Além de atuar, ela também é reconhecida por ser ativista em diversas causas. Em 2013, arriscou ser presa ao levantar a bandeira LGBT+ na frente do Kremlin, na Rússia, onde a “propaganda gay” é proibida. Além disso, passou dois anos na África fazendo trabalho voluntário em uma escola local. Também promoveu seu próprio festival de filmes independentes na Escócia, onde mostrou diversos longas dos mais variados países ao redor do mundo.

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Mas por que eu decidi falar da Tilda? Porque apesar de já ter recebido um Oscar por Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007) a sua carreira (e vida) sempre foi mais direcionada à filmes alternativos e cults, como Orlando (1992), filme de Sally Potter, baseado na obra de Virgina Woolf, onde ela interpreta um homem imortal que depois de 800 anos percorrendo a história da Inglaterra acaba virando mulher e tem de aprender a lidar com seu novo gênero. Também participou de Teknolust (2002), de Lynn Hershman-Leeson, em que ela interpreta uma bio-geneticista que cria três “replicantes autônomos” usando seu próprio DNA, e sim, Swinton interpreta as quatro personagens. Em Impulsividade (Thumbsucker, 2005), ela interpreta a mãe de um adolescente obcecado pelo seu dedão, sim, isso mesmo, o garoto ama chupar o próprio dedão, e o filme mostra como sua família também não é tão normal quanto parece, o que pode ou não explicar tal compulsividade. Em Man to Man (1992), Tilda interpreta Ella, uma moça que se vê forçada a tomar a identidade de seu marido falecido, Max, para poder trabalhar em uma fábrica, na época da Alemanha nazista, até que depois de um certo tempo ela já não sabe mais diferenciar sua persona da do marido.

Ela também participou de alguns filmes bem conhecidos, como Constantine (2005), onde interpreta o anjo Gabriel, mais uma vez sua qualidade andrógina lhe servindo muito bem; em As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe, 2005), ela faz outra vilã: a Feiticeira Branca; a sua personagem (Elizabeth Abbott) em O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008), é baseada em uma mulher que realmente existiu e foi a mais velha a atravessar a nado o Canal da Mancha. Seu filme blockbuster mais recente é Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016), onde faz A Anciã, tutora e mestre do nosso herói. Além disso, ela está escalada para atuar como Madame Blanc no remake de Suspiria, que deve ser lançado esse ano.

Eu separei dois filmes específicos para falar com mais detalhes aqui, os escolhi porque são os meus preferidos de sua carreira, além de tocarem em temas muito relevantes e atuais:

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Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011) – Dirigido por Lynne Ramsay e baseado no livro de Lionel Shriver, sobre uma mãe que tenta lidar com as consequências de um grave incidente protagonizado pelo seu filho. O filme mostra o passado e presente de Eva (Tilda Swinton), uma mulher independente que trabalhava viajando pelo mundo e sempre prezou sua liberdade, mas acabou tendo uma gravidez indesejada e dando a luz à Kevin (interpretado maravilhosamente por Rock Duer, Jasper Newell e Ezra Miller em suas diferentes fases de vida), uma criança que sempre foi diferente e com quem nunca conseguiu se dar bem. Um dos melhores pontos do filme é mostrar o quão prejudicial e devastadora é a maternidade compulsória e a ideia de que mulheres têm um natural “instinto materno” intrínseco. Eva nunca quis o bebê, mas se sentiu pressionada a mantê-lo e, de alguma forma, isso a fez distante da criança, é como se o filho pudesse sentir a amargura e arrependimento vindo da mãe desde novinho. Eva tenta, mas ela nunca conseguiu realmente sentir amor por Kevin. Como consequência, o menino faz de tudo para chamar sua atenção, para provocá-la, para lhe tirar algum sentimento, nem que seja o de raiva. A coisa mais fácil a se fazer é culpar Eva, mas seria realmente culpa dela? Por que será que sempre que uma criança é mal criada ou tem algum problema de comportamento a sociedade coloca a culpa na mãe? No meu ponto de vista, Eva é uma das vítimas também. Tilda Swinton (que chegou a ser indicada ao Globo de Ouro por essa performance) entrega uma personagem extremamente humana, com um sofrimento agudo no olhar e nos gestos, mas que ao mesmo tempo consegue colocar a máscara da indiferença e frieza quando sente que é necessário. O filme, com certeza, faz jus ao livro e merece muito ser conferido e analisado.

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Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013) – Quando alguém te diz que um filme é sobre um romance de vampiros você já pensa em algo bobo e adolescente como Crepúsculo, mas a verdade é que existem muitos filmes românticos sobre vampiros que são extremamentes diferentes do citado e possuem histórias maravilhosas, sinistras e com temáticas bem adultas. Amantes Eternos é definitivamente um desses filmes. O casal de vampiros principal é formado pela nossa Tilda Swinton e por Tom Hiddleston (mais conhecido por interpretar o Loki, mas que possui um currículo dramático impressionante), e esses dois lindos têm um carisma altíssimo e uma química incrível em cena. Basicamente, o filme conta a história de Adam e Eve (sim, os nomes em si já são uma cutucada bem grande), dois vampiros casados que vivem separadamente, porém sem nunca deixarem de se amar. Acontece que Adam está cansado da “vida”, sua depressão só aumenta mais a cada dia e ele planeja se matar assim que puder. Eve, sentindo que seu marido não está bem, decide ir visitá-lo, e a princípio tudo parece bem entre dois, só que do nada sua problemática e descontrolada irmã caçula Ava (Mia Wasikowska) aparece para infernizá-los. Regado a uma trilha sonora maravilhosa, o filme consegue tratar de forma bem direta e simples o vazio existencial, a tristeza que não consegue ser detida nem pelo amor correspondido, e a vontade de sair da rotina, mas ao mesmo tempo odiar quando a mesma é interrompida. É um ciclo vicioso em que estamos presos, e que nem os vampiros conseguem se safar.

Deixei de falar de outros filmes excelentes protagonizados por ela, como os do Wes Anderson, que são tão bons e grandiosos que merecem posts separados. Se você quer falar algo mais sobre Tilda Swinton ou sobre seus filmes, por favor deixe um comentário!

PS: Tilda, com certeza, é minha favorita para interpretar David Bowie em um filme-biografia dele. Aliás, os dois já apareceram juntos em The Stars (Are Out Tonight) (2013).

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1 comentário Adicione o seu

  1. Que texto maravilhoso!!!
    A Tilda sempre me chama a atenção, mas infelizmente eu nunca havia tido contato com nada relacionado à sua vida pessoal.
    Obrigada por isso!
    E obrigada pelas indicações dos filmes. Estou doida pra vê-los!!!

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