Quando Você Viu O Seu Pai Pela Última Vez?

Existem fatos ou eventos na vida que deixam marcas, impossíveis de se apagar. Tais eventos são capazes de mudar a maneira como se enxerga o mundo, as pessoas ao seu redor e até a si mesmo. Questionamentos são levantados, como “por que isso aconteceu?”, ou, “tinha que ser comigo?”. Mas não podemos negar que tais fatos servem como aprendizado, crescimento, fazem parte da vida. E o filme que falarei trata sobre isso: as questões que ficam.

Na verdade, o título da obra em si, já é uma indagação, afinal, Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez? (When Did You Last See Your Father? – 2007).

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Numa sinopse rápida, o filme trata do relacionamento de um escritor, Blake Morrison, com seu pai, Arthur Morrison. Depois de uma infância conturbada, Blake volta para a cidade onde cresceu para cuidar de seu pai, que está falecendo devido a um Câncer que vem lhe atacando o intestino. Nessa situação, o escritor rememora fatos de sua vida com seu pai, inclusive aqueles que causaram desgaste na relação entre os dois. Blake, aparentemente, depois de tanto tempo e apesar de tudo, ainda não conhece verdadeiramente o homem por trás da figura paterna.

 

O filme é baseado no livro autobiográfico do autor britânico, Blake Morrison, publicado em 1993. Dirigido por Anand Tucker, a obra é forte ao nos apresentar os conflitos entre pai e filho. O diretor preservou a dualidade vivida pelo filho (que agora é pai), em contraste com a personalidade extrovertida de seu pai, em várias cenas bem conduzidas de diálogos dos dois. Blake Morrison é interpretado por Colin Firth, num trabalho firme que já dava demonstrações do que veríamos em O Discurso do Rei (2010). Seu pai, Arthur Morrison, é interpretado magistralmente, pelo ator Jim Broadbent. Ficou explícito que a experiência deste foi crucial, principalmente, nos momentos dramáticos do fim da vida de um homem.

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Por se tratar de um relato biográfico, o filme nos convida a presenciar a vida do escritor. Mas, apesar disto, a película nos leva para uma auto-análise . O diretor, por exemplo, faz uso de muitos espelhos em cena, refletindo a figura de Blake Morrison, contudo, ao mesmo tempo, numa metáfora, trata-se do reflexo de nós mesmos e de nossas vidas. Blake representa todos nós, nos nossos conflitos com nossas famílias, naqueles momentos difíceis e nos momentos alegres.

 

A obra em si é um esforço dramático que espelha  o relacionamento chave entre Pai e Filho. Nem sempre este relacionamento é pacífico. Acredito que todos nós temos nossas diferenças com nossos pais, apesar de amá-los. Justamente o que ocorre no filme. O filho ama o pai, mas não aceita ou compreende certas nuances que permeiam a figura paterna, inclusive no que envolve a fidelidade.

 

É um bom título para mexer com a nossa consciência. Talvez seja inevitável as comparações pessoais, até porque é a intenção do filme o envolvimento do espectador. Também, dificilmente, dá para segurar as lágrimas, que fluírão mais fortes se, de alguma forma, a obra representar a realidade de quem assiste.

 

Pessoalmente, acredito que “Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?” dividirá opiniões. Haverá quem goste e quem não ache o filme lá essa coisa toda. Mas me senti na necessidade de falar sobre ele e de relatar um fato que me impulsionou a assistí-lo.

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Na verdade, já fazem 2 anos que assisti esse filme, mas só agora consegui escrever estas linhas de texto. Ocorre que, mesmo tendo uma infância feliz com meu pai, mesmo após a separação com minha mãe, depois que cresci e virei pai perdi o contato com ele. Algumas diferenças, que agora confesso que nem me lembro, me deixaram num hiato de pelo menos 8 anos sem contato com ele.

 

Há 2 anos atrás ele faleceu; um fato tão repentino que não deu tempo de me despedir, nem falar nada para ele, principalmente que o amava. Sofri muito com isso, pois diferente de Blake Morrison, não tive a oportunidade de estar presente em seus momentos finais. Hoje, quando me lembro, percebo que não cheguei a conhecer, verdadeiramente meu pai, e talvez, nem ele a mim.

 

Passei 2 dias na sua cidade após o falecimento, revendo meus familiares, velando seu corpo e no sepultamento. Apenas quando voltei para casa, um fato me fez conhecer esse filme e me compeliu a vê-lo. Checando meu e-mail, recebi uma newsletter de um site de filmes com algumas dicas para download. Dentre os títulos me deparei com este: “Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?”. E o mais incrível ainda, é que a mensagem chegou na minha Caixa de Entrada na madrugada do dia em que meu pai faleceu. Ironia do Destino? Na verdade não sei.

 

Mas quanto a pergunta que o filme nos faz, de quando o vi pela última vez, posso dizer que ainda não a respondi, pois eu não me lembro. Pesar que levarei para o resto da vida.

 

Mas e você, amigo leitor? “Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?”. Corra, não perca tempo.

 

Iêdo Júnior

 

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A Mosca – David Cronenberg

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A Mosca (The Fly, EUA, 1986) foi a sina de muitos pais durante o final da década de 80 e início da década de 90, quando o filme teve as primeiras exibições na TV aberta. Apesar de sempre passar muito tarde, a criançada sempre arrumava um jeito de assistir, e claro, acabava dormindo muitas das noites seguintes na cama paterna. O interessante é que o filme de David Cronenberg não mira nos sustos e no medo do sobrenatural, mas sim no terror psicológico causado pela situação bizarra e angustiante que acomete o personagem principal.

A Mosca é a revisão de Cronenberg do clássico filme de 1958, A Mosca da Cabeça Branca, estrelado por Vincent Price. Seth Brundle, interpretado por Jeff Goldblum, é um pesquisador que trabalha num projeto audacioso: teletransporte. Brundle acaba se envolvendo com uma repórter de uma revista de divulgação científica, Verônica Quaife (Geena Davis). Verônica rapidamente percebe que o “telepod”, a máquina desenvolvida por Brundle, pode vir a ser a grande invenção da história, e passa a acompanhar o cientista em todos os passos que envolvem a edificação do estranho instrumento.

Ocorre que, numa ação impensada, o pesquisador decide servir como cobaia do próprio invento, e acaba negligenciando uma regra básica na condução de experimentos: estar ciente das variáveis que podem influenciar no resultado final do teste. Ele não percebe que junto com ele no “telepod” há uma simples mosca, fato este que engatilha uma sucessão de eventos ao mesmo tempo peculiares e aterrorizantes, como apenas David Cronenberg sabe fazer.

O diretor é fascinado pela estranheza que é causada por formas humanas deformadas, como bem mostrou em filmes como Crash – Estranhos Prazeres (1996) e eXistenZ (1999); porém, também foca uma boa parte de sua obsessão nas consequências psicológicas que tais deformações arrastam. Goldblum consegue transmitir com competência as mudanças de humor e a aflição atravessadas por Brundle em cada estágio da transformação do cientista no ser horrendo. De fato, a repulsa que o filme causa até hoje tem fundação na maneira como cada fase da alteração corporal do cientista é mostrada. Na caracterização crescente do monstrengo a equipe de maquiagem não poupou esforços. Não faltam feridas purulentas e regurgitações, efeitos até meio que datados e próximos do trash, mas empregados de forma interessante. Uma falta de cuidado na implementação da maquiagem, ao invés de causar voltas no estômago, tornaria o filme risível.

O clímax, apesar de ser atingido após o emprego de artifícios de roteiro que minam diretamente a suspensão da crença e atrapalham um pouco a imersão no universo claustrofóbico estabelecido, é chocante. A boa química entre Geena Davis e Jeff Goldblum contribui para que o espectador percorra o filme do começo ao fim num crescendo de tensão, repugnância e medo.

De qualquer forma, A Mosca não pretende estabelecer-se como uma referência sobre falta de ética e descuido no processo de fazer ciência e tecnologia. Funciona, antes de tudo, como um caminho para Cronenberg exercitar suas preferências e a maneira como enxerga o gênero terror. Neste caso, o que realmente faz este filme ser um marco do horror até hoje é a aptidão de fazer submergir paulatinamente qualquer vestígio de humanidade sob uma carcaça disforme e ulcerada. É aí que a experiência vicária entra em ação, e fisga até o mais viajado cinéfilo, seja o filme um drama, um suspense, ou um terror. Cinema de verdade é isso, embarcar com o protagonista e quase sentir na pele o que ele sente por mais inusitada que situação se mostre. Ponto para Cronenberg.

Texto originalmente postado no site Gaveteiro.com

Resenha: Abismo do Medo – de Neil Marshall

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Bons filmes de suspense/terror são tão raros atualmente que o mais simples fiapo de originalidade deve ser levado em conta quando se trata deste gênero. Um dos critérios que considero ser um dos mais eficientes para testar a qualidade de uma película de suspense é o nível de tensão gerado na plateia durante a projeção, e um lançamento mais ou menos recente, entretanto pouco comentado, consegue trazer altas doses de pânico para quem o assiste.

Abismo do Medo (The Descent, Reino Unido, 2005) é um filme que não deve ser visto por pessoas que sofrem de síndrome do pânico, em especial os claustrofóbicos. O mote é o seguinte: seis amigas se reúnem para realizar uma expedição num sistema de cavernas nos EUA, com o intuito de distrair uma delas que passou por uma situação traumática um ano antes. Como é de se esperar, muita coisa vai dar errado.

A obra do pouco conhecido diretor Neil Marshall (que também leva os créditos pelo roteiro) ganha de outro filme de temática semelhante, também de 2005, chamado A Caverna, por apelar para o terror puro e simples, como o medo de lugares apertados, bem como para os sustos elaborados. Se você pensa que já viu tantos filmes de terror que consegue antecipar os momentos em que sacos de pipoca vão voar para todos os lados Abismo do Medo te reserva boas surpresas. Além dos sustos, a película consegue atingir a meta que é transmitir à plateia uma sensação de angústia e aflição durante quase toda a projeção, um objetivo alcançado por exemplo pelo cineasta de origem indiana M. Night Shyamalan em Sinais (2002) e por William Friedkin, num momento de rara criatividade, no maior clássico do cinema de terror: O Exorcista (1973). Diretores famosos e escaldados já falharam nessa tarefa, como Steven Spielberg em Guerra dos Mundos (2005), que é uma boa ficção científica, no entanto não apresenta carga emocional suficiente para deixar o espectador atordoado.

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Como se não fossem suficientes os momentos angustiantes vividos pelas garotas perdidas num local escuro, apertado e desconhecido, Marshall ainda apimenta a trama com um elemento altamente eficaz: o medo de seres estranhos ou fantásticos. O sistema de cavernas é habitado por um grupo de predadores que inicia uma caça angustiante ao grupo de meninas, rendendo bons sustos e confirmando um trabalho competente da equipe de maquiagem na caracterização dos monstrengos. Uma decisão acertada foi não tentar explicar a origem de tais criaturas, deixando apenas a possibilidade de que estas têm um passado genético em comum com seres humanos. Ou seja, mais tempo para o que o filme faça o que realmente se propõe a fazer: agoniar e encher de tensão o espectador. O final pouco convencional para os filmes de terror que pretendem atingir grandes públicos também contribui para o gosto amargo que fica depois dos créditos finais.

Abismo do Medo é um bom filme de suspense e terror, um alívio para quem sentia falta de calafrios e adrenalina na telona; mas não tem cacife para se tornar um clássico. Porém, é diversão garantida para os amantes ou não do gênero. Uma ressalva: a quantidade de sangue mostrada em determinadas sequências é totalmente sem sentido, chega até a banalizar alguns momentos que poderiam ser mais aterrorizantes sem tanto plasma jorrando na tela.

Texto originalmente publicado no site Gaveteiro.com